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Vênus e a Bruxa

(O nascimento de Vênus – Sandro Boticcelli)

Publicado pela primeira vez em 1989 com o título original de Storia notturna, una decifrazione del sabba, este livro de Carlo Ginzburg propõe uma interpretação do mito inquisitorial do sabá das bruxas sintetizado no trecho a seguir:

 

Igualmente significativo é o fato de ter sido descartada de maneira tácita a possibilidade de, pelo menos em parte, alcançar por meio do sabá as “estruturas mentais invisíveis” da magia popular. Sem dúvida, o sabá é revelador — mas revelador de um estrato cultural “menos inacessível”: o da sociedade circunstante. Por intermédio do simbolismo do sabá, essa sociedade formulava em negativo os próprios valores. A escuridão que envolvia os encontros das bruxas e feiticeiros exprimia uma exaltação da luz; a explosão da sexualidade feminina nas orgias diabólicas, uma exortação à castidade; as metamorfoses animalescas, uma fronteira claramente traçada entre o animal e o humano.” (pág. 16)

 

Esta perspectiva possibilita o levantamento da hipótese de que os elementos simbólicos presentes no imaginário europeu do início da Modernidade emerge não apenas nos relatos daqueles que caíam nas malhas da Inquisição, das perguntas altamente sugestionáveis dos ditos inquisidores, mas também em diversos outros elementos das artes plásticas e literárias produzidas no período.

Neste sentido, este texto propõe-se a analisar comparativamente a figuração do feminino em duas obras artísticas amplamente distintas, mas com alguma interseção pelo menos nas imagens que projetam. Inicialmente, observaremos um detalhe da obra de Jacob Cornelisz van Oostsanen nomeado, em inglês, “Saul and the Witch of Endor”, o mesmo detalhe destacado na capa de O imaginário da magia, feiticeiros, adivinhos e curandeiros em Portugal no século XVI, de Francisco Bethencourt em sua edição brasileira pela Companhia das Letras em 2004:

 

 

A pintura do artista holandês data de 1526 e retrata uma profusão de elementos gráficos acerca das figurações de bruxaria e magia demoníaca cuja análise minuciosa exigiria demasiado volume de páginas. Portanto, é escolha focar em um detalhe. Trata-se de uma mulher desnuda em pleno vôo. Ela é transportada sobre o crânio de um equídeo e conduzida como se estivesse em um carro por dois galos negros enquanto carrega em uma bandeja determinado pão ou bolo:

 

Até aí, nada necessariamente extraordinário. A empolgação ocorreu-me, porém, quando esta imagem é colocada em paralelo com a descrição da deusa Vênus segundo Camões, em 1572, em sua obra Os Lusíadas.

 

No carro ajunta as aves que na vida

 Vão da morte as exéquias celebrando,

 E aquelas em que já foi convertida Perístera, as boninas apanhando;

Em derredor da Deusa, já partida,

 No ar lascivos beijos se vão dando;

 Ela, por onde passa, o ar e o vento

 Sereno faz. com brando movimento

 

 Já sobre os Idálios montes pende,

 Onde o filho frecheiro estava então,

 Ajuntando outros muitos, que pretende

 Fazer uma famosa expedição

 Contra o mundo revele, por que emende

 Erros grandes que há dias nele estão,

 Amando cousas que nos foram dadas,

 Não pera ser amadas, mas usadas.

(págs.158,159)

 

Imageticamente, Vênus, como é descrita, é similar à bruxa expressa no detalhe de Jacob Cornelisz. Contudo, enquanto o poeta lusitano representa-a idilicamente como benfeitora dos navegantes portugueses, o pintor holandês traduz este mesmo símbolo de forma pavorosa e maléfica.

Conclui-se então que as mentalidades capazes de produzir tais figurações estavam profundamente expostos aos mitos da Antiguidade clássica, porém há um um filtro moral e religioso que dá conta de ressignificar suas imagens dependendo. É profundamente instigante refletir de que outras tantas formas a memória de uma Europa politeísta impacta a estruturação do mito da bruxa no início da Modernidade Ocidental. Este processo é amplamente conhecido e se dá partir de um crescente movimento de demonização iniciado ainda no período medieval. Camões nos demonstra isso uma vez mais:

 

Ali estão das Deidades as figuras,

Esculpidas em pau e em pedra fria,

Vários de gestos, vários de pinturas,

 A segundo o Demónio lhe fingia; 

Vêm-se as abomináveis esculturas, 

Qual a Quimera em membros se varia; 

Os cristãos olhos, a ver Deus usados

 Em forma humana, estão maravilhados. 

 

Um, na cabeça cornos esculpidos,

Qual Júpiter Amon em Líbia estava;

 Outro, num corpo rostos tinha unidos,

 Bem como o antigo Jano se pintava;

 Outro, com muitos braços divididos,

 A Briareu parece que imitava;

 Outro, fronte canina tem de fora,

 Qual Anúbis Mefítico se adora.

 

Posto que o imaginário acerca da deusa Vênus no século XVI infiltra o mito da bruxa, Mário Meunier assinala que características são estas presentes em ambas:

 

Ora, se tudo que é belo inspira o amor, a Deusa, que criava e propagava a beleza em tudo quanto tem vida, devia também naturalmente tornar-se a Divindade da sedução, que nos leva a amar tudo o que nos parece belo.

 

Sedução e beleza são manifestações da magia, o tal glamour, o magnetismo pessoal da bruxa. O que mais notamos então é o quanto a distorção do belo na figura da bruxa revela também a depreciação da sexualidade livre presente em Vênus. De modo, então, que estas são vistas cada vez mais como ferramentas do Diabo em direção ao pecado. Vênus, Lúcifer, Estrela da Manhã. Enfim, teme-se, sobretudo, que esta liberdade caminhe em direção a uma sexualidade não autorizada pela ordem social. Ainda bem que evoluímos e tudo isso é passado, não é mesmo?

 

Bibliografia geral:

GINZBURG, Carlo. História noturna / Carlo Ginzburg ; tradução Nilson Moulin. Louzada. — são Paulo : Companhia das Letras, 2012.

CAMÕES, Luís Vaz de. Os Lusíadas. Unama.

MEUNIER, Mário. Nova mitologia Clássica. A legenda Dourada. História dos deuses e heróis da antiguidade. São Paulo: Ibrasa, 1997, p. 69. 

BOREAU, Alain. Satã Herético, O nascimento da demonologia na Europa Medieval (1280 – 1330). Editora Unicamp

 

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