Uma Máquina Despedaçada

Uma máquina de ossos, cartilagem, pele, sangue e (talvez) alma se arrasta por um contínuo de asfalto fervente que borbulha sussurros abismais – MAIS, MAIS! – e as chagas eclodem em vermes, moscas, aranhas e escorpiões. Tecem teias intricadas que prendem a máquina e suas engrenagens desalinhadas finalmente começam a falhar. Atrás, um rastro de máquinas mortas. Máquinas idênticas. De dentro de cada uma, nasce uma nova máquina, um corpo, uma pessoa, que sai como ele mesmo, mas ligeiramente diferente e que vai seguindo em frente, cada vez com menos peças, cada vez com menos chances.

Enquanto isso a areia cai, meus caros, ela apenas cai.

Cronos já devorou minhas pernas, de maneira que não mais caminho, mas, como os répteis, roço o chão com meu ventre. Agora quer devorar meus olhos para que eu não seja capaz nem menos de me defender do seu golpe último que me levará a sua boca com tantos dentes quanto existem amarguras. Porém, Cronos, eu tenho mãos (ainda e até quando?) e com elas digito, mesmo que fique cego, mesmo já sendo incapaz de correr. Assim, aviso que se algo será minha defesa, serão as palavras que jogo neste papel em branco.

Porém, Deus antigo, estas palavras não serão para ti e nem contra ti. Elas serão a favor de mim e, assim, a favor de todos os que, como eu, vivem. Pois, respirar e fazer bater o coração são desafios que nos corroem. Eu sei o quanto eu me desespero ao perceber que nestes anos todos, tornei-me melhor e cada vez mais atormentado por isso. É a sina do homem bom, desenvolver seu caráter e ser flagelado pelo seu passado. O ignorante, o perverso, estes apenas deixam bater o coração e seguem sendo devorados até não resistirem mais.

Tenho medo de amar-me. Como poderia fazê-lo em sã consciência? Eu, máquina cheia de feridas e de mecanismos arranhados, uma colcha de retalho de trapos de momentos nos quais ou tentei meu melhor ou apenas fiz o meu pior mesmo, pois não mais aguentava nada daquilo: a areia caindo e o mastigar barulhento de Cronos e o sangue fervendo e as bolhas estourando e a pele carbonizando e o pus evaporando e as aranhas nas teias e as víboras mordiscando a presa a pensar que o jantar está servido.

Tento a todo instante fugir. Tento a todo o momento tornar-me mais do que humano e, quem sabe, encarar um espelho e sentir-me satisfeito antes de Cronos, esse algoz tão medonho, devorar minhas entranhas. Não haverá Zeus para tirar-me da barriga dele. E mesmo que houvesse: o que faria com um saco de tripas, ossos e miolos? Nem mesmo o habilidoso Dr. Frankenstein, que nos ensinou na ficção que somos realmente filhos dos Deuses, poderia costurar-me com suas linhas de cobre e deixar-me ser repleto por raios. Nada disso faria fazer-me retornar.

A máquina se arrasta. Suas pernas, no estômago de Cronos. Seus olhos encaram um mundo enevoado e divisam a boca enorme com dentes amarelos. A saliva que pinga. A língua que dança. O hálito que adormece.

Tempo. Não temos tempo. Não temos mais tempo. É preciso agir agora, como for possível.

Tenho mãos e com elas digito e com as palavras que marcam o papel e que são cravadas na mente do autor, faço de mim mesmo meu próprio médico necromante e costuro-me novas pernas do cadáver meu. Se Cronos arrancar-me os olhos, catarei outro destes corpos e pegarei dele os olhos e assim irei. Uma reforma monstruosa, assustadora, porém, efetiva. Ei de aprender a não ser mais o morto e a ser o morto-vivo.

A máquina levanta-se. Ela agora corre. As engrenagens continuam defeituosas. Lacraias e besouros ainda saltam de seus ferimentos. O asfalto quente ainda queima seus pés e cozinha seu corpo. A alma talvez ainda esteja lá. Quem sabe, afinal, se há mesmo uma alma?

Imagem: Pixabay.

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