Um presente requer outro presente

Gyfu gumena byþ gleng and herenys,wraþu and wyrþscype and wræcna gehwamar and ætwist, ðe byþ oþra leas.

“A oferta de um presente é uma mostra de estima, honra e louvor.Para os proscritos, que nada têm,representa auxílio e sustentação.”

Poema Rúnico referente a Gebo

Gebo é uma runa que rege as trocas. Refere-se ao ato de dar e receber algo em troca. É interessante notar o contraste interno já existente no verso: ele começa falando daqueles que têm tanto que possuem condições de dar, e termina falando daqueles desprovidos de posses. Porém, muitas vezes, pelo contexto que quase sempre damos a palavras como “presente” e “troca”, nos atemos ao nosso plano material e esquecemos de coisas muito mais simples, que hoje em nossa sociedade estão quase esquecidas.

Muito mais “complexo” é pensar em trocas quando assuntos são tão contraditórios. Que tipo de troca envolve eu dar algo para alguém que não tem nada e não poderá me dar nada em troca?! – pergunta aquele que ainda não entendeu o princípio de Gebo. O conceito de troca nem sempre é exatamente entre duas pessoas ou envolve dois itens materiais. Não é a toa que Gebo também é associada a relacionamentos (principalmente os amorosos). Talvez a maior dificuldade imposta pelos efeitos de Gebo é assumir a responsabilidade por todas as suas ações.

Este princípio não está contido apenas na runa Gebo. A própria ciência possui um “fórmula” de Ação e Reação, a saber:

Para toda interação, na forma de força, que um corpo A aplica sobre um corpo B, dele A irá receber uma força de mesma direção, intensidade e sentido oposto.

Hiromu Arakawa, autora de um dos animes mais interessantes que eu já vi, Fullmetal Alchemist, descreveu este mesmo princípio:

“Nada pode ser obtido sem uma espécie de sacrifício. Para se obter algo é preciso oferecer algo em troca de valor equivalente. Esse é o princípio básico da alquimia, a Lei da Troca Equivalente.”

Em certo ponto do anime, um dos personagens fala sobre o custo necessário para que eles pudessem alcançar o ponto onde estavam e seus objetivos:

Muitos acham que é fácil ser ele [referindo-se ao irmão], mas poucos sabem todas as noites perdidas, os dias sentado lendo os livros, a infância e todo o sacrifício que ele teve que fazer para que pudesse ter o conhecimento que tem hoje.

Na maior parte das vezes, a troca é de algo tão sutil ou tão intocado que muitas vezes nos esquecemos de que fazem parte de nossa história. Agora mesmo, neste momento em que escrevo este texto, estou doando parte de meu tempo para tentar fazer chegar até vocês um texto que seja de fácil leitura e que possa ajudar aqueles que precisem ouvir tais palavras. Da mesma forma que vocês estão doando um pouco de tempo para que possam ler este texto, e em troca recebem uma parte da minha vivência e experiência.

Aliás, podemos colocar isso também como uma troca: a vivência. Passamos por problemas, mas em troca recebemos experiência que pode nos auxiliar em situações futuras. E porque não dizer sobre relacionamentos, onde tudo gira em torno de troca. Não troca mesquinha, mas a troca onde doamos parte de nosso tempo, afeição, atenção, preocupação, desejo, amor para o outro e esperamos algo em troca.

Gebo também é relacionada aos atos de sacrifícios feitos pelos Deuses, como o feito por Odin (que deu seu olho para que pudesse beber da fonte do conhecimento), Tyr (que perdeu a mão no aprisionamento de Fenrir) e Freyja (que ofereceu favores sexuais aos gnomos ferreiros em troca do colar mágico Brisingamen), dentre vários outros.

Muitas vezes as trocas podem parecer injustas. Ou podem parecer não existir. Mas até a “aparente” não existência da troca pode ser uma experiência necessária no momento. Tudo gira em torno da busca do equilíbrio.

Apesar de não gostar muito, deixo como reflexão as palavras da autora Mirella Faur, em seu livro “Mistérios Nórdicos”:

Todo cuidado é pouco nos procedimentos magísticos. Precisamos nos lembrar sempre de que cada ação (“presente”) tem uma reação (“preço”) proporcional, e a energia despendida requer uma compensação idêntica.Toda intenção mágica, seja ela boa ou má, traz consequências correspondentes, mas não necessariamente no mesmo nível ou plano.

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