“The Black Vampyre” – Obeah e Vodou nas páginas de um conto

Foi por meio do site da “Rede Vampyrica” e o do meu nobre amigo vampyro Lord A. que fiquei sabendo da história “The Black Vampyre: a legend of St. Domingo” de autoria do pseudônimo Uriah Derick D’arcy, publicada nos Estados Unidos em 1819*. Bem, para quem não pescou, “St. Domingo” é nada menos do que São Domingos, o Haiti. Por isso, mergulhei nas páginas de “The Black Vampyre” para ver se eu acharia alguma referência ao Vodou Haitiano no texto.

A história trata de uma viúva que anos após ter perdido o primeiro marido e encontrado apenas os restos de seu primeiro filho no berço, mora em uma plantação. Os anos não foram tão bondosos com ela, já que perdeu mais dois maridos e alguns outros filhos. A história da morte do seu primeiro marido é curiosa, já que ocorre após ele tentar sem sucesso matar um menino negro escravizado. Após várias tentativas de assassiná-lo se revelarem infrutíferas por uma persistência sobrenatural do garoto, o homem resolve queimá-lo vivo. Entretanto, isso também não dá certo e ele acaba sendo ferido pelas chamas e morre.

Quando encontramos novamente a viúva, ela é visitada por um distinto príncipe negro com ares árabes e um jovem menino aparentemente europeu. A viúva se apaixona perdidamente e eles casam na noite na qual se encontram pela primeira vez. A partir daí, a viúva é apresentada a um novo mundo, já que o príncipe é, na verdade, um vampiro. Mais do que isso não revelarei para não estragar a surpresa dos leitores. Porém, pode-se dizer que a história se revela muito mais íntima para a viúva do que ela jamais poderia imaginar.

Lord A. em sua resenha e comentário sobre o livro destaca muito propriamente que a trama apresenta inspiração na revolução do Haiti. Curiosamente, o Haiti, já independente à época da publicação da história (1819) e já batizado com esse nome, ainda é chamado pelo autor por São Domingos. Sabemos que apesar da independência Haitiana em 1804, muitos veículos e muitas pessoas continuaram a chamar o país pelo seu nome colonial.  É evidente que esse “hábito” nascia de uma recusa em legitimar a liberdade conquistada à duras penas por ex-escravos.  Reconhecer o Haiti pelo seu nome de batismo revolucionário seria o mesmo que atestar que o mundo imperialista e a supremacia branca estavam ruindo.

Mas e o Vodou?

A história não fala em Vodou, mas isso não é surpreendente. Lembremos que a história é publicada em 1819 e que Moreau de Saint-Méry vai publicar seu livro Description topographique, physique, civile, politique et historique de la partie française de l’isle Saint-Domingue em 1797. É nesse livro que aparece a primeira ou uma das primeiras menções à palavra “Vadoux”. o “Vaudoux” é atribuido a um culto que envolvia a adoração de serpentes pelos “negros Arada” na colônia. Logo, que um escritor norte-americano em 1819 não use um termo similar ao “Vodou” é completamente plausível.

O autor vai se referir às práticas religiosas dos escravos e dos Haitianos como “Obeah”. Este é um termo que abarca diferentes práticas espirituais encontradas em países Caribenhos. Para falarmos melhor de Obeah, precisamos citar necessariamente o livro de Nicholaj de Mattos Frisvold chamado “Obeah: a sorcerous ossuary”. As primeiras palavras do livro de Frisvold já deixam claro que entender Obeah não é fácil, ele escreve:

“Obeah é um culto feiticeiro, uma arte única e pessoal enraizada em pactos e tráfico com espíritos – assim sendo, é difícil explicar seus princípios de uma maneira uniforme”. 

Ou seja, o Obeah é diverso, muito diverso.

De maneira muito sintética, o Obeah é um tipo de feitiçaria que tem base nos poderes e espíritos da floresta. Aqui cabe lembrar que a floresta, como local isolado e liminar é o local por excelência dos mortos. Isto, pois os vivos não habitam a floresta. Ou seja, falar de matas e de árvores não é falar apenas de criaturas pacíficas, mas sim é falar do mistério de vida e de morte.

Frisvold nos diz que desde o fim do século XVII, Obeah era utilizado como um termo genérico para qualquer prática que Africanos ou descendentes de Africanos executem. Ou seja, quando o autor de “The Black Vampyre” fala de Obeah em São Domingos, ele fala das práticas específicas daquela ilha, pelo menos em teoria. É preciso deixar claro que embora o uso do termo genérico não denote imediatamente que o autor fosse ignorante quanto às práticas espirituais Haitianas, não encontrei nada na história supracitada que indique também que ele as conhecia bem – com exceção de uma passagem. Porém, tal trecho pode ser uma estranha coincidência.

Lobisomens, Zumbis & Vampiros

Zonbi por Wilson Bigaud, 1939.

 

A passagem em questão é aquela na qual apenas a pele, ossos, cabelos e unhas de um bebê são encontrados no berço. Essa cena terrível remeteu-me imediatamente aos Lougawou. Essas criaturas fazem parte da dimensão espiritual e folclórica Haitiana e se tratam majoritariamente de mulheres com poderes de feitiçaria. Essas “bruxas” conseguem assumir a forma de um animal e voam pela noite para beber o sangue ou devorar a energia vital principalmente de crianças. Se vocês acham que os Lougawou são apenas uma espécie de “bicho-papão”, estão terrivelmente enganados. Relatos muito recentes ainda revelam que mulheres acusadas de serem Lougawous são mortas no Haiti pela população enraivecida. De toda a sorte, um bebê morto e “seco” parece muito com algo que um ataque de Lougawou poderia ter provocado.

Não só isso, vemos como o Lougawou é uma espécie de vampiro por si só, embora a palavra, em tradução estrita se refira ao lobisomem. O vampiro que dá o título ao livro que ora discutimos, porém, não se parece em nada com um Lougawou. É homem e não se transforma em animais, por exemplo. Além disso, mais para o final do livro há certa revelação acerca da morte desse bebê que afasta a possibilidade dele ter sido vítima de algo que poderíamos identificar como similar à sede de um Lougawou.

Se não encontramos no Lougawou nada muito substancial, encontramos algo mais palpável, em dado momento da trama, na descrição de uma caverna repleta de adereços como penas, ossos, sangue, rum e terra de cemitério. A caverna, em questão, muito escondida, era conhecida por muitos poucos e certamente um lugar de refúgio. De certo que rum, terra de cemitério, ossos e sangue são elementos encontrados em diversos rituais de Vodou Haitiano. O fato desse cenário se encontrar em um local escondido e de difícil acesso parece querer comunicar que se tratam de ritos muito seletos e até proibidos. Não é difícil imaginar aqui um cenário similar a de uma sociedade secreta como a Bizango, por exemplo.

Existem diversas sociedades secretas ligadas à prática espiritual no Haiti. Elas geralmente se reúnem em lugares discretos e nada ou muito pouco revelam sobre suas práticas. Suas atividades envolvem geralmente o culto de certos Lwas e acabam formando um tipo muito próprio de Vodou. Lembram bastante a sociedade Kimpasi do Congo e suas “lojas”, que eram em locais ermos e escondidos e que mantinham suas atividades em segredo estrito.

De fato, o livro associa os mistérios do vampirismo à prática do “Obeah”, já que a trama estabelece que é em uma poção construída por meio dessa arte feiticeira que reside a cura para o vampirismo. Se a diferença do remédio para o veneno é a dose, é possível imaginarmos que o vampirismo do Haiti fictício do conto em questão seja também um artificio da magia dos Haitianos.

Evidentemente que todos conhecem a lenda dos zumbis do Vodou Haitiano. De acordo com as histórias, homens e mulheres seriam colocados em estado de catalepsia ou de morte e removidos e reanimados por meio de magia para se tornaram escravos irracionais de seus novos mestres. O zumbi ou zonbi é, de fato, um personagem do imaginário Haitiano e também do imaginário do Vodou. Porém, não é algo que permeie a prática corriqueira do Vodou. É evidente que, para além de qualquer coisa, tais histórias são utilizadas de forma irresponsável para reforçar um estereotipo indesejável e, francamente, sem o menor cabimento nos tempos atuais.

Porém, em 1819, o contexto era outro e o ocidente estava ainda descobrindo as exóticas práticas trazidas pelos Africanos ao novo mundo. Logo, o recurso de colocar uma história sobrenatural em um contexto de alteridade visando colorir a trama com elementos “bárbaros” e “selvagens” não era reprovável e de gosto duvidoso.

Papa Mandy, um Bokorpossuído por um Gede.

 

Assim, em “The Black Vampyre” é possível que o vampiro fosse obra de uma secreta e poderosa feitiçaria dos Haitianos. Bem, com isso vemos que o autor não erra tanto ao associar os vampiros a uma sociedade secreta, já que há mesmo a crença de que certos membros de sociedades secretas são Loupgawous e também Bakas (outro tipo de criatura fantástica com capacidade de se transformar em animais). Ainda, os relatos dos zumbis também os colocam como criações de feiticeiros envolvidos muitas vezes com determinadas sociedades secretas.

Além disso, pelos idos de 1820 é possível que história sobre as terríveis práticas de canibalismo que assolavam o Haiti estivessem circulando pelos Estados Unidos. Por exemplo, não muito distante no futuro, em 1864, oito Haitianos seriam julgados (e condenados à morte) pela morte e canibalismo de uma criança em uma cerimônia de Vodou. Obviamente, hoje se entende que a acusação e o julgamento foram manipulados para sacrificar bodes expiatórios com o intuito de demonstrar ao mundo ocidental que o Haiti estava combatendo as “superstições Africanas” e, portanto, modernizando-se.

Embora seja óbvio, que fique registrado: não há relatos de práticas no Vodou Haitiano que envolvam canibalismo e nem mesmo relatos sólidos do famoso processo de “Zumbificação”, apesar da insistência de Wade Davis. Portanto, não acreditemos em tudo que Hollywood apresenta.

Apesar de “The Black Vampyre” não estar preocupado em descrever as práticas espirituais dos Haitianos de maneira fidedigna, é interessante notar como nos provê material para uma discussão rica. Por fim, aconselho a leitura do conto, que é curto e um tanto apressado, mas que apresenta diversas passagens capazes de fazer o que histórias de terror fazem melhor: forçar a reflexão acerca da própria natureza humana.

*https://redevampyrica.com/vampirosnegros-encontramos-o-primeiro-vampiro-negro-na-literatura/

**Imagem de capa mostra uma tumba preparada para evitar a fuga do suposto vampiro enterrado.

***Imagem da pintura Zonbi e foto de Papa Mandy retirados de http://www.umich.edu/~uncanny/zombies.html

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