fbpx

Sobre a Ancestral que há no lar

Eu peço a atenção de toda
a sagrada descendência,
nobres e modestos
filhos de Heimdall;
eu fui requisitada, Pai dos Mortos,
para bem narrar
os antigos acontecimentos do mundo.¹

Aos 10 anos de idade minha imagística da bruxaria se resumia aos cultos domésticos em volta do fogão à lenha ou cozinha. Claro que não era tão bem definido como tenho hoje, pois em minha consciência infantil tudo o que eu entendia era que entre as panelas e a mesa aconteciam coisas incríveis, as pessoas contavam sobre seu dia, diziam sobre o trabalho, a escola, os parentes e a vizinha que acabou de pegar o marido a traindo com sua amiga de missa. Eu não tinha entendimento sobre o cozer, o de agradecer a trajetória de um alimento que passava pelos agricultores até chegar às mãos de minha mãe, que os preparava, dia após dia. Mas sentia que ali, naquela chama moderna em volta do fogão e mesa, coisas além do que se entendia aconteciam. O culto do nosso lar se iniciou com ela, que aprendera anteriormente com sua mãe, que por sua vez passou aos seus filhos, da melhor forma que pôde, antes de partir para além do mar. Ao recordar minha infância, abarrotada por sacrifícios de meus pais para nos dar o que nunca puderam ter, eu consigo entender o que me fez chegar até aqui. Ser um garoto livre desde pequeno, subir em árvores, cair delas, vomitar tudo o que havia comido das frutas duramente conquistadas (e batalhadas no topo dos galhos dos passarinhos!) ao ingerir, no mato, uma pequena bolota amarelo avermelhada conhecida como Joá -Solanum sisymbriifolium-, tudo isso moldou a pessoa que sou, e me faz hoje agradecer o meu caminho, as minhas raízes e memórias, me faz honrá-los.

Bruxaria é sacrifício, que tem sua dicotomia explicada em livros, mas ao ser vivenciada torna tudo muito brando. Se hoje podemos escrever e relatar para os outros o mundo que vemos, é porque lá atrás algo foi dado para que o conhecimento chegasse, e algo está sendo cobrado – de mim, ou de ti – para que tu possa daqui extrair suas sementes. Muitos sacrificaram anos de sua vida em meio ao “nada”, outros morreram tentando. O caminho que borbulha pede seu preço, que até hoje vi poucos pagarem, e deles, poucos são públicos. Não se trata de acumulo de livros, textos ou histórias. Borbulhar é feito ao longe das imediações seguras (mesmo que no lar), adentrando uma jornada, caindo no abismo, buscando em sua caverna o seu eu e aceitando o que de lá vir! Relatamos o que vemos para aqueles que não podem ver a sua frente, contamos histórias daqueles que vieram, honramos ou amaldiçoamos o nome daqueles que partiram e os chamamos para dançar ao gozo de unguentos, para que suas risadas sejam mais uma vez ouvida por entre esse véu.

Guardo comigo minhas visões de minhas avós e meus avôs. Guardo comigo a trajetória de meus pais e os povos antes deles. Caminho tendo a consciência que sou um ancestral vivo, tocado pelas senhoras e senhores de suas wyrds e, quando ergo bebida e sangue, é para eles que primeiro agradeço, e não para os deuses. Se estou onde estou agora, é pelo trabalho desses homens e mulheres que me fizeram e a eles guardo as maiores honrarias, em seguida, aos seres ao qual compactuo. Cada um com sua importância e devido respeito. Sou cordial, não ovelha.

Cabe aqui acrescentar que o conto bonito de ancestralidade tem suas rupturas e pincelo apenas algumas lacunas, outras não foram citadas – como o não ser saudável chamar certos ancestrais, seja lá de qual tempo, pois não eram pessoas ao qual te ajudaria, ou pior, poderiam lhe causar mudanças internas longe de serem saudáveis -. Também não cito aqui as mulheres estupradas, os homens gays que precisavam continuar sua linhagem e os filhos que nunca puderam conhecer seus pais e sua história, já que foram vendidos muito cedo.

Minha infância em meio ao mato, em volta de mulheres e suas artes, me fez um homem. Um homem que jamais será uma mulher, mas que por elas, e por conta delas, é capaz de acender em seu lar a chama que lhe foi passada, uma chama que não é masculina, que não trará descendentes nascidos de mim, mas que em meu universo se torna sagrada.

Que você ache seu propósito em seu mundo.

Dali provêm as damas
de conhecimento profundo
três do lago
que está abaixo da árvore;
Urðr uma se chama,
Verðandi a segunda,
– escreviam em uma tábua –
Skulð a terceira;
elas as leis ditaram,
elas escolheram as vidas
dos filhos da humanidade, 
os destinos dos homens.²

¹ Vǫluspá – Verso 1
² Vǫluspá – Verso 20

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *