Reze com os que já partiram

Guilherme de Brito e Nelson Cavaquinho escreveram, Cartola deu o papo: “vivo tranquilo em Mangueira porque sei que alguém há de chorar quando eu morrer.” É essa a sagacidade da boemia carioca que foi ensinada dos griôs aos pretos velhos e que os antigos nunca esqueceram. Os antigos mesmo! Gilgamesh e Enkidu trocaram ideia sobre o assunto. Na terra dos mortos, quem partiu deixando um só filho chora amargurado; quem partiu deixando dois filhos, come; quem partiu deixando três filhos, bebe água fresca; quem partiu deixando quatro filhos, seu coração alegra-se como quem possui uma junta de burros; quem partiu deixando cinco filhos, adentra o palácio; quem partiu deixando seis filhos, tem a felicidade de um lavrador. E quem partiu deixando sete filhos? Este senta-se em trono como se fosse irmão mais novo dos deuses. É que quanto mais filhos, mais pessoas se lembrarão de ti após a morte. É isso, afinal, só o que os mortos querem é a dádiva da memória. Eu, que nunca entendi muito bem o conflito no coração de Aquiles, compreendi melhor quando Vernant explicou: é que o homem comum só é lembrado pelos seus familiares, o herói que tem estátuas em praças públicas, este viverá para sempre no eterno presente da memória. Heróis! Heróis e suas pretensões! Aqui só tem gente comum e gente como a gente só quer ser feliz mesmo. Por isso, lembre-se dos seus mortos!

Cabe uma rápida advertência aqui – como coube a mim a ouvir quando comecei a aproximar meus olhares na direção das almas. Elas são um pouco intensas. O compromisso que firmar com elas, honre. Se tu tem algum problema em atrair mortos para dentro de casa, experimente fazer isso à sombra de uma árvore na praça, em uma igrejinha ou no cruzeiro do cemitério. Só o que vai precisar é de um terço, desses que quase toda vó costuma pendurar no varão da cama. Entendam, meus antepassados são todos católicos, não há porque tentar honrá-los com uma egrégora que os ofenda. Família é família mesmo quando morre, é bom evitar estresses desnecessários. E vamos lá, à heresia nossa de cada dia!

  1. Acenda uma vela. Segure o crucifixo, faça o sinal da cruz e reze o Credo (é pelos seus mortos, meu xêro, não pelo Santa Madre Igreja pipipopo). Dedique então o terço:

“Aos que vieram antes de mim, em nome do divino Jesus, eu… vos ofereço este terço, meditando nos mistérios da nossa relação. Sob a Divina Trindade e por intercessão da Virgem Maria, Mãe de Deus, concedam-me uma caminhada graciosa sobre esta terra que seus corpos adubam e que seus ossos pavimentam. Pai, dai-me as virtudes necessárias para bem rezar este terço.”

  1. Na primeira conta grande, um Pai Nosso.
  2. Nas três contas pequenas seguintes, um Ave Maria.
  3. Recite o Glória ao Pai.
  4. Anuncie o primeiro mistério. O Mistério do Perdão, pois toda relação com os antepassados deve ser norteada pelo perdão. Todo mundo faz merda, todo mundo já fez merda. Mesmo as merdas dos seus antepassados contribuíram para que você chegasse onde está hoje. Não arraste as correntes da sua família. Aprenda a perdoá-los. Agora reze um Pai Nosso.
  5. Reze dez Ave Maria nas contas seguintes.
  6. Recite o Glória ao Pai outra vez.
  7. Anuncie o segundo mistério. O Mistério da Comunhão. Você está chamando seus antepassados para caminharem contigo e acompanharem sua jornada. Peça-lhes prosperidade e fartura, afinal, as graças que alcançarem-te serão compartilhadas com eles. Reze os dez Ave Maria e recite o Glória ao Pai.
  8. Anuncie o terceiro mistério. O Mistério do Respeito. Você não vai amar todos os seus parentes. É difícil com os vivos, não exija isso com os mortos. No entanto, seus ossos pavimentam o caminho da sua jornada. Estabeleça inclusive limites na sua relação com eles. Reze os dez Ave Maria e recite o Glória ao Pai.
  9. Anuncie o Mistério do Amor. Sem respeito, ele não florescerá. Reze os dez Ave Maria e Glória ao Pai.
  10. Anuncie o último mistério. O Mistério da Compaixão. Lembra do perdão? Então, a compaixão fecha este ciclo. Reze dez Ave Maria e recite o Glória ao Pai.
  11. Reze uma Salve Rainha.
  12. Faça um sinal da cruz. “Em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo. Amém.”

 

Deixe uma oferenda para trás. Pode ser algo simples, como pão e vinho ou café doce. Em datas especiais, como Natal ou Finados, é de bom tom compartilhar algo mais interessante com eles. Lembre-se, os espíritos comem o que você come. Se eles estão abençoando sua caminhada, não custa nada separar um pouquinho para eles daquele mesmo alimento que tanto tem lhe trazido prazer. Eles só querem ser lembrados. Segunda feira é o dia tradicionalmente associado às almas aqui no Brasil. Defina uma regularidade para este pequeno ritual tendo em mente que a relação com qualquer espírito é construída. Seja fiel ao compromisso que estabelecer. E principalmente, seus mortos não são os meus mortos, seus familiares não são os meus familiares, adapte o rito como quiser.

 

Referências:

 

BRANDÃO, Jacyntho Lins. Ao Kurnugu, terra sem retorno. Descida de Ishtar ao mundo dos mortos (pag. 92-93).

VERNANT. Jean Pierre. A bela morte e o cadáver ultrajado.

E OUÇAM CARTOLA!!!!

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