Precisamos resgatar o Sagrado Masculino?

Muito se fala em Sagrado Feminino, ultimamente, devido ao merecido e necessário resgate dos saberes e divindades femininos que as mulheres e a sociedade tem promovido. O Sagrado Masculino, no entanto, não é muito comentado – seja porque, com esse movimento de resgate do Sagrado Feminino, falar em Sagrado Masculino cause certa ojeriza ou soe como um mecanismo de defesa do patriarcado diante da luta feminista (#iuzomi), seja porque a nossa sociedade está tão permeada de um arquétipo doente de masculinidade, que presumimos que já conhecemos tudo o que há para saber sobre o tema e – muitas vezes – o rejeitamos. 

As mulheres precisaram resgatar o Sagrado Feminino por conta dos milênios de degradação e ostracismo impostos pela nossa sociedade patriarcal. O Sagrado Masculino, no entanto, se perdeu no meio do que é profano, se diluiu. A imagem do homem tirano, matizado pelo domínio inquestionável da autoridade, violência e poder, é a que mais foi reproduzida na nossa cultura. Há milênios, somos ensinados que somos extraordinários e superiores em tudo, portanto tudo o que fazemos passou a ser encarado como sagrado. E se tudo é sagrado, nada é sagrado, né?

Sagrado Masculino na bruxaria

Esse distanciamento do Sagrado Masculino acontece mesmo entre os praticantes de magia, por incrível que pareça. Com frequência, nos ritos da tradição Wicca alexandrina e neo-pagã o Deus é relegado a um papel coadjuvante: se limita a fecundar a Deusa na Roda do Ano. Embora essa ênfase seja dada pelos praticantes, e não seja um fundamento da tradição em si, quem mantém a tradição viva são os praticantes! Por isso, cabe o questionamento.

Sim, a bruxaria é um ofício essencialmente feminino! E as mulheres foram altruístas o suficiente para compartilhar esse conhecimento conosco, o que é representado de forma equivocadamente pejorativa no Mito da Maçã na antropogênese judaico-cristã. Mas, enquanto magistas, precisamos caminhar na direção de um equilíbrio dessas polaridades, rumo ao Casamento Alquímico.

Afinal, o que é o Sagrado Masculino?

O Sagrado Feminino está conectado aos arquétipos femininos da donzela, da mãe e da anciã e trabalha com os mistérios da menstruação e da gestação, que fazem parte do ciclo de vida da mulher. O Sagrado Masculino, naturalmente, também está ligado às fases do ciclo de vida do homem e trabalha com os mistérios da semente. 

Na natureza, o masculino é representado pelo falo, que fecunda para gerar a vida. O falo também é um símbolo que representa divindades, como Shiva e Exu. Porém, não precisamos nos limitar a observar apenas o que é natural (o sêmen, a menstruação…), apesar dessa observação ser, de fato, importante.

Talvez, o caminho para compreender o Sagrado Masculino passe por resgatar os aspectos mais puros da dualidade primordial. O entendimento de símbolos como o Yang, a expansão primordial, e o Sol, irradiador, doador da energia vital, pode nos ajudar a nos reconectar com uma masculinidade mais pura e íntegra.

Sagrado Masculino na Umbanda

Na Umbanda, o aspecto masculino não fica relegado apenas à fecundação, como nas tradições neo-pagãs mencionadas anteriormente. A Umbanda – e outras tradições de matriz africana – apresenta arquétipos de masculinidade mais diversos: o guerreiro, o caçador, o curandeiro, o velho… Apresenta até uma natureza dual – ou até não-binária, se adotarmos um termo contemporâneo – em alguns orixás, como Oxumaré e Logunedé.

A primeira caçada

Os mistérios sagrados também estão muito ligados à transição entre esses arquétipos que representam fases do nosso ciclo de vida, enquanto humanos. Bem como à nossa função social em comunidade. São ritos de passagem, representações da travessia pelo Portal de Shin (ש). Para os homens, a transição entre a infância e a fase adulta se dá simbolicamente na primeira caçada. 

A primeira caçada é o equivalente masculino da menarca. É quando o menino precisa encarar a própria morte. É quando ele sangra! Esse rito é muito bem ilustrado no filme Alfa (2018) e também no início de 300 (2006), quando o rei Leônidas abate um lobo na floresta ainda criança e, na transição, a pele sangrenta do animal se transforma na sua capa vermelha de general. 

Mesmo que esses papéis tenham mudado ao longo da história, estamos simbolicamente conectados a eles. Da mesma forma que as mulheres conseguem acessar os mistérios do ciclo de vida e morte expressos no seu ciclo menstrual e na gestação sem ter que, necessariamente, se tornarem mães. Nós, homens, também somos influenciados por esses papéis arquetípicos, ainda que não necessariamente estejamos ligados, hoje, às atividades da guerra, da proteção e da caça. Ou ainda que não sejamos os provedores em nossas famílias.

No nosso contexto social atual, já não empregamos mais essa energia primeva de agressividade na guerra ou na caça, cotidianamente. Portanto, é preciso  o cuidado de transmutar essas energias no nosso dia-a-dia, pois não convém aplicá-las de forma desequilibrada no nosso trabalho e nossos relacionamentos.

E quais os caminhos para essa transmutação?

É justamente isso que debatemos em nossos encontros semanais do Arco de Ulisses. Ulisses é um herói arquetípico, que deixa o seu reino para uma jornada de aventuras e retorna para casa, para exercer o seu papel de autoridade. Nas reuniões, estamos desbravando esses caminhos, juntos. 

Por isso, você já pode encordoar o seu arco e vir engrossar as nossas fileiras! 

Aviso

Esse post é baseado nas minhas percepções pessoais e anotações sobre a reunião do Arco de Ulisses do dia 4 de outubro de 2020. Contém trechos da fala de outros participantes que me chamaram a atenção, mas não necessariamente reflete a opinião e os pontos de vista de todos eles, antes disso, são meramente a minha interpretação do tema e das suas falas. Convido os demais Arqueiros a compartilhar seus pontos de vista e complementar o conhecimento nos comentários, se assim desejarem. E convido os leitores a participar das nossas reuniões, para construir esses saberes junto conosco.

Arco de Ulisses

Os encontros do Arco de Ulisses acontecem por Zoom, todos os domingos às 19h BRT, exclusivamente para homens assinantes do Espelho de Circe no Catarse. As mulheres assinantes participam da Roca das Moiras na mesma data e horário. Quem ainda não é assinante, pode participar da Taberna dos Argonautas, todas as terças-feiras, às 20h BRT para conhecer o pessoal e ter a plena certeza de que precisa correr no Catarse para assinar logo!

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *