Precisamos falar sobre arquétipos

Adianto logo que a proposta desse texto não é defender qualquer ideia de pureza. Quando conversamos sobre religiões ou tradições espirituais, esse papo de que há algo mais puro ou mais próximo do original só serve para que uns possam se sentir superiores a outros. Deixa o coleguinha brincar do jeito que melhor funcione para ele e tudo certo. Cada um mexe a panela como aprendeu. Por outro lado, no campo dos debates é sempre proveitoso questionarmos algumas afirmações ou premissas. Essa é uma conversa sobre aplicabilidade.

A casa mais antiga de candomblé nagô tem inúmeras influências bantu em sua formação. A primeira tenda de Umbanda (aquela que primeiro utilizou este nome) sequer utiliza atabaques em sua ritualística, no entanto, os cruzamentos com o espiritismo kardecista são diversos. Thelema pode ser a doutrina revolucionária que transforma todos os rituais anteriores em algo obsoleto, mas o entendimento do tal Livro da Lei exige conhecimento das tradições cabalistas anteriores à sua formatação. Mesmo quando Deus supostamente resolve esticar as pernas de seu troninho para revelar-se à humanidade, a coisa toda não foge muito do meio em que floresce. Olhem para o Antigo Testamento e percebam o quanto do politeísmo fenício, kemético e babilônico está presente na forma como YHVH se apresenta a seus eleitos. O passado comunica-se com o futuro constantemente. Por mais que o senso comum adore destacar um ou outro sujeito como “à frente do seu tempo”, isso não existe. Somos todos filhos da era que compartilhamos.

É justamente por isso que, em uma época de amplo acesso a informações antes crípticas, novas costuras e interpretações estão sendo realizadas no âmbito da espiritualidade. Olha aí quanta gente resolveu colocar a filosofia dos orixás em acordo com a cabala, só para dar um exemplo. Isso é necessariamente ruim? De forma alguma. Somar conhecimento a conhecimento só pode resultar em algo, senão positivo todo o tempo, certamente estimulante. Mas eu sei que vocês estão aqui pela polêmica. Relaxem, eu já chego à minha crítica. Vamos passear um pouquinho pela nossa História recente, lá no século XIX, como não poderia deixar de ser.

Imperialismo bombando, uma série de povos na periferia do mundo submetidos à dominação das potências europeias e eis que surge uma coisa chamada Antropologia. De início, uma ciência muito preocupada em legitimar racionalmente a exploração dos povos tidos como inferiores pelos impérios, não demorou para que os observadores europeus começassem a perceber que o gênero humano produz infinitos símbolos e mitos em que há narrativas muito similares.

O ser humano teme o desconhecido. Lidar com uma percepção da realidade totalmente diferente da nossa pode ser bastante desconfortável. Daí nasce um equívoco tremendo, isto é, olhar para o outro e em vez de compreendê-lo pelo que ele é, projetar suas próprias convicções nele. Quando fazemos isso, em vez de aprender algo novo e expandirmos nossa percepção da realidade, só estamos apaixonados pelo nosso próprio reflexo. Eu sei, dá trabalho compreender o outro, mas quem fica satisfeito na zona de conforto tá na magia para quê? Vamos, meu povo, ousadia e alegria!

Coloco essa discussão sobre a mesa porque há momentos em que o cabalista hermético mais tradicional e o mago do caos mais iconoclasta parecem tropeçar na mesma pedra: o reducionismo. Olhar um determinado mito e dizer “Este símbolo está em Hod” ou “Esta imagem vem do arquétipo x ou y” e não utilizar isso como ponto de partida para uma interação mais madura com a força em questão é extremamente preguiçoso. Não é porque Oxum e Vênus têm similaridades que são a mesma coisa, portanto, não são substituíveis. Não é porque uma narrativa apresenta um mito solar que necessariamente evoca uma potência masculina. Quem foi que determinou que o Sol é macho? Há uma série de casos em que seja? Sim, pois estamos imersos no imaginário da nossa cultura, mas há outras possibilidades de interpretação. O ponto é: o diabo mora nos detalhes. Por que não dar às diferenças um pouco mais de foco do que às similaridades e nos permitir sacudir nosso lugar comum?

Gosto de imaginar que há tantos deuses e espíritos quanto há seres humanos vivos na Terra. Construir uma relação com cada um deles sempre será algo singular, pois cada um tem sua própria linguagem. No futuro vamos discutir um pouco mais sobre o que essa tal linguagem significa. Adianto que não é só sobre qual rótulo você coloca para um mesmo conteúdo único e universal. A linguagem influencia tudo. E é muito mais interessante aprender novas maneiras de comunicação a tentar categorizar a vastidão de nosso ecossistema espiritual em uma tabela que reduz o processo a algo mecânico.     

 

Imagem: Narciso, de Caravaggio

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