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Os Três.


Lucas acordou no meio da madrugada, estava acostumado a esse comportamento, mas dessa vez tinha sido diferente. Foi acordado por um barulho de objeto caindo na cozinha, seguido de passos, e novamente objetos caindo. Pegou o celular, olhou as horas, eram três e vinte da madrugada. Ia levantar-se quando novamente um barulho de panelas caindo se fez ecoar por todo o seu apartamento. O que faria? Chamaria a polícia?

 
Levantou-se e foi até a porta do quarto, para sua surpresa, não havia ninguém na cozinha/sala do seu pequeno apartamento no centro do Rio de Janeiro. A única impressão de algo vivo era uma vela vermelha acesa, diante da imagem em gesso, de um demônio mistura de bode com anjo e grandes chifres.


Sim, Lucas era adepto às práticas de magia e gostava de experimentar rituais e feitiços que via na internet ou livretos que comprava. Sua última experiência foi um ritual chamado “pacto da riqueza com os três”, que havia encontrado em um velho livro de São Cipriano, comprado em sebo próximo ao seu apartamento. Não acreditava naqueles rituais, que na sua opinião, eram bobos e não davam resultados, mas ainda assim resolveu realizar esse que havia lhe chamado atenção.


Precisava de algumas velas vermelhas, pregos retirados de um caixão, algumas ervas, três taças, uma boa bebida, charutos e papel. O ritual deveria ser realizado quando a lua estivesse cheia no signo de capricórnio e consultando alguns sites, descobriu que seria em um mês. Foi ao cemitério, passeando entre as lápides, encontrou um caixão recém retirado pelos coveiros, que descansavam a sombra de uma árvore, e por alguns trocados, eles permitiram que retirasse os pregos. Por fim, juntou tudo para realização do ritual.


Como havíamos dito, seu apartamento era pequeno e com ausência de moveis, portanto, não foi difícil encontrar espaço para a realização do macabro ritual que prefiro não descrever e foi encerrado assinando uma carta com seu próprio sangue, queimando-a em seguida numa das três velas acesas, junto das taças.


Terminado o ritual, foi para seu quarto e dormiu. Sendo acordado pelos barulhos que foram relatados acima. Agora olhando ao redor, percebia que não tinha ninguém, talvez tivesse sido sua imaginação, portanto voltaria a dormir. Ao caminhar para o quarto, sentiu um vento gelado atravessar seu corpo, e um forte arrepio na espinha, queria gritar, mas sua voz não saia e não conseguia se mover, sabia que estava iniciando uma crise de pânico. Focou seu pensamento em outras coisas e conseguiu se acalmar.

 
Entrou no quarto e deitou-se, afinal era um mago, um bruxo, por que teria medo? Então conseguiu dormir. Acordou, e ainda estava escuro, porém desta vez havia três sombras ao redor da sua cama, sentiu um calor e percebeu que estava se urinando, não tinha controle sobre seu corpo.

 
Não havia rostos e nem olhos, mas Lucas sabia que aquelas três presenças olhavam para ele, e o medo tomou conta do seu corpo, um desespero que beirava a loucura e uma vontade de chorar. Sempre realizou seus “feitiços”, mas jamais presenciou uma manifestação como aquela e a única coisa que conseguiu dizer foi: “Meu Deus, me ajude!”


As três presenças riram em uníssono, o que causava mais pavor no jovem deitado na cama. “Você nos chamou. Então viemos! Somos educados e aceitamos seu convite” – disseram os três juntos com uma voz metálica, pausada e que impunha poder.

Tentando dizer alguma palavra e só proferindo gaguejos, Lucas desistiu e pôs-se a chorar. “Fraco! Não mexa com o que não está preparado. Iremos embora, mas voltaremos. Vamos deixar um presente para você”
E as três presenças sumiram. Então, Lucas sentiu algo mexendo em suas cobertas, ao tirá-las havia vários tipos de insetos e começou a gritar. Porém, ao piscar de olhos, todos sumiram. Passou a escutar sons de risadas, choros de crianças, pratos quebrando e passos por onde quer que fosse, e todos os dias, sempre por volta das três horas da madrugada, as mesmas presenças vinham visitá-lo, levando dia a dia o pouco de sanidade que lhe restava.


Tentou converter-se a outra crença, buscando um tipo de proteção sobrenatural e nada adiantou. Passados seis meses da primeira visita das macabras entidades, Lucas foi diagnosticado com esquizofrenia grave, com desejos suicidas (pois em seu corpo havia vários ferimentos marcados com o número três) e internado em um sanatório do governo. Após algumas tentativas fracassadas de suicídio, passou a ficar atado à cama e recebendo todas as noites a visita das três presenças, sempre no mesmo horário.

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