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Os Mestres do Passado

“Em memória daqueles que um dia existiram, que não mais existem, mas que agora vivem novamente.”

 

A tradição Martinista, que carrega os genes do esoterismo francês em seu corpo iniciático, revela de modo mais claro o que muitas escolas de ocultismo parecem ou querer esconder ou que realmente ignoram: que a tradição é passada de pessoa a pessoa. Por isso, a figura da pessoa que transmite o espírito da tradição é valorizada, assim como também é celebrada a transmissão pessoal da chama.

Longe de ser um culto a pessoa, essa visão é uma maneira diferente de se encarar a ordem iniciática. Se, por um lado, uma das maneiras de se entender esse mecanismo passa pela despersonalização absoluta – que muitos entendem ser um atributo chave dos Rosa-cruzes (na minha opinião, muito mal compreendido), por outro, a evidenciação da pessoa que compõe o corpo da ordem revela, sem rodeios, que se trata de uma verdadeira igreja, no sentido de assembleia de pessoas. O mais surpreendente é entender que essas abordagens não são mutuamente exclusivas, mas sim, complementares.

 

O Anonimato é literal?

 

 

Por isso, se há a figura do filósofo desconhecido que gira o mundo de maneira anônima e se há as figuras dos mestres do passado – aqueles grandes iniciados que passaram a tradição adiante – é preciso compreender que elas se harmonizam. A despersonalização é interna e não externa. Em outras palavras, não se espera que um iniciado vista uma máscara e disfarce a voz literalmente. Espera-se que seus atos e que sua vontade de reintegração sejam desapegados do “eu” e, assim, que encontrem nessa mística o caminho para o divino.

Se a obra – grande obra – do iniciado é feita nesse espírito incógnito então a tradição é exercida e passada adiante de maneira desembaraçada e é preciso celebrar isso e a melhor maneira é lembrar. O respeito aos mestres do passado é como o culto aos antepassados, não estamos interessado em deificá-los ou em esquecer suas falhas, estamos interessados em nos harmonizar com eles no sentido de aprender e de rememorar. Não esquecer é uma excelente maneira de se seguir em frente.

 

Santos e Pecadores – Todos são Místicos

Nesse contexto é importante nos lembrarmos, como já escreveu alguém, que “Todo santo tem um passado e todo pecador, um futuro”. Esse é um dos graves perigos da personalização e essa armadilha pode verdadeiramente nos privar de lições e de experiências importantes. Os mestres do passado, embora fossem grandes iniciados, eram apenas pessoas. Nós, que estamos tentando achar nosso caminho de volta ao ponto de origem, certamente temos erros, derrotas e desvios importantes – mas nunca devemos nos esquecer de que nos momentos sublimes, naqueles poucos momentos nos quais conseguimos (se conseguimos) unir nossa vontade à da divindade, nada disso importa, pois passamos a ser exatamente como Ele.

Todos nós temos o potencial de conseguir essa união mística, todos podemos ser profetas e revelar coisas incríveis.  Esse é um equalizador universal. Não se despreza jamais a experiência de quem quer seja. A experiência fala por si só. A pessoa em si, é outro caso. Naquele momento que a inspiração se apresenta, acontece a maior das despersonalizações – que não tem nada a ver com necessariamente uma vida de ascetismo que rejeite mundo sensual, identidades e assim vai. Claro que esse é um dos meios. Um dos muitos, mas no momento que a divindade se descortina em nosso âmago, não importa como, importa o agora.

Assim, se você, eu ou se Gerard Encausse cometemos nossos pecados, tudo bem. Seria possível esperar algo diferente? Entretanto, quando lemos Papus, lemos o homem que toca o divino e a sabedoria. Com perfeição ele não o faz, com certeza. Novamente, não importa. Quando estudamos Samuel Mathers, estudamos sua genialidade e seu intelecto, no sentido de alcançar o mágico e o sagrado. Em nada disso influencia toda a sua vaidade e todos os seus prováveis problemas de saúde mental.

 

Perfeição não é Sucesso – É Fantasia

Todas as falhas e dificuldades desses grandes iniciados só vitimaram a eles mesmos. Nós nos lembramos deles e os celebramos pelo seu trabalho notável. Por terem, apesar de tudo, conseguido feitos incríveis, conhecimentos admiráveis e experimentado uma vida mágica. Hoje, nós os lemos e nós os estudamos com crítica e com a vantagem da perspectiva e levamos adiante seus trabalhos e suas contribuições em nossas tradições. Por isso, quando nós paramos para prestar nossas homenagens a esses mestres do passado, nós não podemos jamais fazer disso um culto – e sempre um belíssimo estudo. Como eu já escrevi em outros textos, os mestres nos ensinam por erros, acertos, genialidade e pela cegueira gritante que muitos tiveram em relação a certos temas. Mestres não são livros com gabaritos perfeitos, mestres são apenas aqueles que, antes de nós, tiveram algum sucesso e que dividiram isso com o mundo.

Dividir- eis a palavra com a qual eu gostaria de tentar encerrar esse artigo. Ninguém é obrigado a dividir absolutamente nada. Porém, fazer parte de uma tradição – seja ela qual for – necessariamente pressupõe o conceito de divisão. Passar a luz adiante, passar o conhecimento, ajudar outros a evitarem certas armadilhas – tudo isso é dividir. É preciso entender que dividir é aprender. Não nos esqueçamos de que os mestres do passado só são mestres, pois souberam e quiseram, com todos os seus problemas e suas falhas, dividir.

 

*Imagem de capa por Richard Revel.

*Imagem de mulher com o rosto pixelizado por Tumisu.

*Imagem de anjo por Pexels.

*Imagem de Vênus por Pasja1000.

 

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