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Onde vive a ancestralidade?

Deparei-me com esta pergunta há não muito tempo em uma aula da filósofa Katiúscia Ribeiro. Como é de se esperar, eu não tinha uma resposta pronta. O lar que me constituiu não preocupava-se com essas questões. O agora era travestido de muito mais significado que o ontem, mas, em verdade, os olhos da minha casa sempre buscaram o amanhã. Excesso de amanhã!
 
Quando nas conversas à sombra da mangueira ou à beira mar as palavras aproximavam-se desse tema, parávamos nas águas rasas de nossa ascendência, mas nunca mergulhamos no profundo rio da ancestralidade. Hoje, eu tomo bastante cuidado para não confundir a parte pelo todo.
 
A terra sobre a qual pisamos, com suas belezas e delícias, mal começou a lamber as feridas de seu processo histórico. A cicatrização de nossos traumas enquanto povo ainda é um sonho em disputa no horizonte. Há quem prefira ignorar nossas marcas enquanto a infecção das violências que nos formaram seguem adoecendo cada corpo, mente e alma que por aqui caminham. Eu preciso ser honesto. Pensar minha ascendência sempre foi muito fácil e muito confortável. Eu sei o porto, o navio e a hora do desembarque. Porém foram os deuses africanos, os fantasmas dos pretos e indígenas, os herdeiros de carne e osso daqueles reis e rainhas que resistiram ao açoite quem indicaram-me onde procurar o valor da ancestralidade. A comodidade permitiu-me o desencontro de minhas próprias raízes. Mas agora que sei disso, aquela pergunta não mais sussurra, ela rosna: onde vive a ancestralidade?
 
Retomei este questionamento porque recentemente – mas já há muitas eras se considerarmos a velocidade com que a internet produz novas polêmicas – trouxeram-me um curioso debate acerca de quem pode e quem não pode integrar-se a determinadas tradições. Este ponto, deixo aos adeptos. No entanto, achei curioso como os argumentos circulavam em torno de: “você não tem a ancestralidade necessária”. E sim, esta curiosidade provoca-me incômodos.
 
De repente esta palavra – ancestralidade – saiu do fundo dos terreiros e das lições sussurradas ao redor de fogueiras restritas e começa a ganhar espaço em clipes musicais e capas de revistas famosas. Isso tem seu lado bom. Nosso sangue está grosso de tanto individualismo. Somos educados a nos enxergar como ilhas. Ignoramos todas as encruzilhadas em que nossos caminhos pessoais encontram-se. Já não ouvimos para escutar, mas para responder. Cada um por si, Deus por todos e ninguém pela terra. É um respiro que busquemos nos orientar menos ao norte e mais ao sul, menos ao centro e mais à periferia. Porém, toda fúria deve ser temperada com prudência ou só o que faremos será correr atrás de nosso próprio rabo.
 
Em minha travessia é bem recente a consciência de que caminhamos sobre os ossos dos que vieram antes de nós. Outros com muito mais experiência de jornada que eu já falaram a respeito deste tema por aqui e em outros portais. Ainda assim, gostaria de adicionar minhas palavras a este círculo.
 
Até aqui tenho aprendido que não precisamos reinventar a roda, ela nunca parou de girar. Cada sujeito é uma continuidade. Saber disso torna qualquer pretensão de originalidade – no sentido mais amplo dessa palavra – algo tão nobre quanto a pretensão de uma folha seca. Se os vivos falam, os deuses escutam e os mortos respondem, continuemos nossa caminhada na luta para que os escombros de antigas prisões não sirvam de alicerce para novas paredes.

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