O Pacto

Por Bruno Rodrigues

Revisão Allãn Gomes

 

“Não aceitaria jamais, ser largado daquela forma” – dizia para si mesmo André enquanto dirigia de volta para casa, após seu noivado rompido e ainda ter sido trocado pelo seu melhor amigo.

Ser trocado depois de seis anos juntos, incluindo namoro e noivado. Eles iriam se arrepender! Em sua mente só passava lembranças dos três crescendo juntos.  Dos planos que faziam para casar e montar sua casa. Logo seu melhor amigo, aquele em quem mais confiava no mundo.

Chegou em casa, ignorou sua mãe e foi direto para o quarto, ligou o computador e através de uma ferramenta de busca da internet procurou “como se vingar de um casal de traidores” e, após ver vários sites com sugestões, um chamou sua atenção. O site chamava-se “portões da Goetia” e tratava de magias e simpatias, além de ter alguns relatos de pessoas que se diziam bem sucedidas que ficaram ricas, mas o que lhe interessava era vingança. O site parecia um cardápio de demônios, tudo parecia muito simples. Você escolhia e invocava um demônio para realizar o seu desejo. O site tinha um passo a passo completo, e a moeda de troca era apenas uma garrafa de whisky que seria ofertada ao demônio.

Por fim, escolheu um chamado Beleth e prosseguiu com seu intento. Não acreditava muito nessas coisas, mas pensou, se nada acontecer ficaria por isso mesmo.

Assim que acordou no dia seguinte, saiu cedo e foi até uma loja de artigos religiosos e comprou tudo que precisava, algumas velas, giz, flores, incensos e bebida alcoólica. Foi para casa e se trancou no quarto, ali desenhou com giz no chão, um círculo e escreveu em volta as palavras que o site indicava. Ao redor, acendeu as velas negras. Na frente haveria um triangulo, onde o tal demônio se manifestaria e em cada ponta acendeu uma vela vermelha, no meio colocou um desenho, que de acordo com o site era o símbolo de invocação, também pôs suas ofertas de bebida, flores e a foto de seus desafetos.

Tudo pronto, começou a oração, embora não entendesse uma parte do idioma, sabia que aquilo não importaria, afinal, estava seguindo o passo a passo corretamente. A fumaça do incenso o deixou meio tonto, até que depois de muito repetir a oração, sentiu o ar ficar gelado e uma gargalhada muito sinistra ecoava por todo seu quarto. Sentiu-se com medo, mas não iria recuar. Até que finalmente a voz perguntou por qual motivo havia sido incomodado e trazido até ali.

André sentiu seu ódio pelo casal crescer e disse ao demônio que havia o invocado para que destruísse o casal cuja foto estava entre as oferendas. A voz ria e debochava de André, até que ele lembrou da advertência do site que não deveria deixar o demônio se sentir superior. Então, imediatamente começou a dizer nomes de santos católicos e agredir o ser sobrenatural, invocando o nome de Jesus Cristo, o demônio então pareceu mais obediente e disse que realizaria o desejo de André e pediu licença para partir.

Foi nesse exato momento que André pensou “consegui o que eu queria” e de tão empolgado que estava, saiu do círculo e então simplesmente tudo a sua volta escureceu e desmaiou. Quando acordou estava em uma sala gelada, com sua mão e pés acorrentados, as paredes eram verdes do lodo e à sua volta ouvia gemidos e lamentações.

Uma porta se abriu e nesse momento um homem usando uma túnica negra entrou e rasgou as vestes do prisioneiro, deixando-o completamente nu. Andre estava apavorado e envergonhado e então vários homens e mulheres vestindo roupas antigas e rasgadas entraram rindo alto e fedendo a bebida na sala, apontavam para o seu sexo e riam, cuspiam nele e com lâminas cortavam sua carne, até que uma voz grave e assustadora ordenou que saíssem.

Então, de cabeça baixa ouviu barulhos de cascos que lembravam cavalo dentro da sala, queria olhar, porém o medo era maior. “Achou que era esperto?” disse a voz. “Tenho mais de três mil anos, sei o quanto vocês são ansiosos e basta dizer o que querem ouvir que já se empolgam e nem terminam o ritual. Eu sou Beleth e agora seu dono, ao sair do círculo você infartou e será meu escravo por toda eternidade”.

O prisioneiro começou a chorar e rezar de forma errada e incompleta um pai nosso. O demônio ria mais alto, Deus não vai te ajudar, mas eu posso encerrar o sofrimento, assine esse contrato com seu sangue e eu solto essas correntes e terá uma vida eterna de paz e descanso.

André disse que não faria acordo com demônio algum. Logo em seguida, três homens vestindo roupas de açougueiro entraram pela porta e iniciaram uma nova sessão de tortura enquanto a estranha criatura assistia a tudo e ria.

Seu corpo era violado de todas as formas possíveis e muitas inimagináveis, se realmente estava morto, por que afinal sentia tanta dor?

Seu corpo não aguentaria mais tempo, sabia que assinaria o maldito documento em algum momento, porém uma voz interior, vinda de algum lugar, pedia que aguentasse firme, então começou a ouvir vozes que parecia de seus pais, choravam e rezavam. Outras vozes também rezavam em uma língua desconhecida.

E as torturas continuaram ao que pareciam meses e anos, até que sem dente algum na boca, pois todos foram arrancados, conseguiu balbuciar que assinaria o tal documento. O demônio fez então um corte na palma da mão de André e pediu que tocasse a folha, quando uma onda de luz muito forte invadiu a cela e um homem que emanava uma energia muito forte surgiu, ele tinha os olhos bem azuis como céu e cabelos muito negros.

 “Miguel vá embora, aqui é meu domínio!” – gritou o demônio

 “Você perdeu, o exorcismo acabou. Ele está livre e vou levá-lo comigo, não insista.” – disse suavemente o recém chegado.

André não conseguia entender o que estava acontecendo, pois, seu corpo estava muito ferido e sentiu apenas o homem tocando sua testa e dizendo: – “Vamos para casa meu filho, sua família o espera.”

Quando abriu os olhos, estava amarrado em sua cama, e padres vestindo roupas pretas estavam em seu quarto. Ao lado da cama seus pais estavam ajoelhados em prantos, todo o seu quarto estava apodrecido. O cheiro de fezes e urina era muito forte e vinha dele.

Conseguiu apenas perguntar o que estava acontecendo.

Os padres pediram que o soltassem, pois o ritual tinha terminado.

“Filho, você esteve possuído por muitos meses, a sorte que sua mãe, como boa católica que é, percebeu que algo errado estava acontecendo e conseguimos autorização imediata para o exorcismo.”  – disse o padre mais velho entre os presentes.

A última lembrança do jovem fora de sair do círculo mágico e agora estava deitado ali na sua cama. Seu corpo estava mutilado, sujo e nu. Mas sentiu alívio, tudo havia terminado, até que novamente ouviu a sinistra gargalhada e todo seu quarto começou a pegar fogo, as imagens do padre e de seus pais pareciam ter se congelado no tempo e agora derretiam como plástico. Viu que ali estavam, sua ex noiva junto de seu amigo rindo dele, com gargalhadas muito altas.

Até que ouviu a voz do demônio dizendo: ” – Achou que seria fácil? Que por uma garrafa de bebida barata eu me venderia, vocês são muito idiotadas, seu pacto foi assinado no momento que você me chamou e esqueceu que colocou um pouco de seu sangue em cima do meu símbolo, quase que perdi você para os padres, mas isso tem muito tempo. Prepare-se, ficaremos juntos por toda eternidade. Em breve suas feridas estarão cicatrizadas e poderemos abri-las novamente, por incontáveis vezes.” – disse a criatura com cascos de cavalo fechando a porta atrás de si.

One thought on “O Pacto

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *