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O jardim de sombras

‒ Esperam-te do outro lado.

Fui deixado a sós na entrada do jardim. Às minhas costas, luzes douradas de antigos lampiões desvaneceram. Uma fina névoa cobria o tapete de folhas mortas no caminho penumbroso. O brilho prata da lua era coado pelas copas das árvores esticando-se sobre mim como dedos ressequidos de velhos famintos. Engoli em seco e caminhei.

Só uma noite, penso. Apenas uma noite. Eu não posso envergonhar minha família. Todos na vila passaram pelo mesmo. Todos foram e todos retornaram. É, mas nunca inteiros.

Os passos avançam porque os pés sabem que devem prosseguir. O coração começa a ribombar ao fundo da garganta. Um tambor soturno que faz o sangue fervilhar sob as bochechas e nas pontas dos dedos. Sinto frio, mas não porque uma brisa gélida provoque o farfalhar dos arbustos. Não! Ao contrário, tudo está absolutamente quieto, estranhamente parado, serenamente imóvel. Tenho vontade de gritar apenas para que a congelante quietude parta. Porém, falta-me a coragem. O máximo que faço é estalar os dedos que escondo nos bolsos do casaco conforme ando.

Às vezes, quando estamos caminhando pelo mato, salta aos olhos a curiosa visão de uma única folha tamborilando o ar enquanto todas as demais permanecem estanques. Ao fim da trilha daquela noite, um longo e fino galho coroado de verde fosco sobe e desce apontando para mim. Um convite inaudível para prosseguir. Mas não há vento.

Eu passo pela moita sem coragem para fitá-la. De soslaio, noto, ela parece acalmar-se. Talvez houvesse algum rato do campo pendurado aqui e fugiu. No entanto, nenhuma coruja pia, nenhum morcego sibila, nem mesmo insetos agitam-se. Eu suspiro longa e profundamente apenas para que o sussurro dos meus pulmões preencha o vazio que devora meus ouvidos.

Lá na frente, outro arbusto patrulha a esquina da trilha. No arbusto, outro galho move-se. Ele chama. Um gesto sedutor como das moças na boca das vielas à noite sempre tão dispostas ao prazer ou à vingança no golpe da navalha. É o preço, sempre tem um preço.

Eu caminho. Uma fina camada de suor cobre minha testa e meu pescoço. A boca está seca. Sinto a garganta arranhar e a língua cingir aos dentes. Eu hesito ao lado do arbusto. O galho não para de mover-se. Para cima, para baixo. Para cima, para baixo. Para cima… ele toca-me. Um arrepio atravessa meu couro sob os panos do casaco. Há alguém atrás de mim. Uma sombra estica-se sobre minha nuca e devora os meus próprios contornos espraiados sobre o chão pela lua branca. Eu não sou o único a respirar agora.

Só uma noite. Todos na vila passaram por isso. Todos foram. Todos retornaram. Eu não posso envergonhar minha família. Eu não posso envergonhar minha família. Só uma noite. Todos retornaram. Eu não posso envergonhar minha família. Só uma noite. Todos foram. Todos… E ainda assim dizem que sempre há uma primeira vez.

Eu cerro os olhos. As narinas às minhas costas sorvem o ar enevoado. Silêncio. Um sopro quente desce sobre o topo de minha cabeça. Minhas entranhas desmancham-se em água. Eu cerro os dentes e tento não pensar nas minhas pernas. O chão sob meus pés parece movediço. Por instinto, tento agarrar-me ao galho do arbusto. Meus dedos encontram uma pele fria e úmida, um tanto mole, esponjosa.

O mesmo ímpeto animal que agitou meus dedos agora manda que eu desprenda-me. Uma força mais poderosa e muito mais sutil, porém, leva-me a segurar com muito mais força aquele couro pegajoso. É um desejo estranho, não é meu, mas está dentro da minha cabeça. Quando minhas falanges pressionam a pele, ela chia como se deixasse escapar o ar.

O cheiro mudou. Os perfumes de terra úmida e madeira podre já não são os únicos presentes. Agora há outro odor, algo tão… tão… tão doce. Tão estranhamente doce. Tão intensamente doce! Eu curvo-me e o estômago expulsa tudo o que nele há. Abro os olhos. Pescoço curvado encarando o chão coberto de vômito. Eu não ouso erguer-me. A densa névoa que atapeta o solo não paira a esmo. A sombra às minhas costas parece drenar o espesso manto de neblina.

As narinas às minhas costas sorvem o ar mais uma vez. Silêncio. Um sopro quente desce sobre minha nuca. As lágrimas escorrem sobre minhas bochechas. A imagem do chão oscila como se enxergasse o mundo através das ondas do mar. Para cima, para baixo. Para cima, para baixo. Para cima, para baixo. Tudo repete-se. Por que estou aqui?

Porque todos na vila passaram pelo mesmo. Todos foram e todos retornaram. Não se preocupe, criança… é só uma noite. Todos foram e todos retornaram.

É a minha própria voz, mas ela ecoa de outro canto ao fundo da minha cabeça.

Então é assim que funciona.

Sim… e não. É assim que funciona para você. É assim que funcionará ao longo de toda essa noite, criança. Mas não se preocupe, todos na vila passaram pelo mesmo. E você não pode envergonhar sua família.

As lágrimas não cessam, mas não consigo soluçar. A voz que antes lutava para sair, para rasgar aquele silêncio maldito, agora agarra-se ao fundo da laringe e sufoca-me.

Todos vieram e todos retornaram, diz a sombra.

Mas nunca inteiros.

Não, ela sorve o ar. Silêncio. As narinas às minhas costas emanam um sopro quente sobre a base de minha coluna. Conforme expira, a sombra parece tecer um riso. Nunca inteiros. Você também não, criança. Você lembrará para sempre. Você me carregará para sempre. Mas eu esquecerei você, criança. São tantas. Todos na vila vieram.

Eu aperto ainda mais o couro esponjoso. Quero fugir, mas os joelhos malditos traem minha vontade. Eu caio sobre meu próprio vômito. O choro escorre e queima minhas bochechas. Entre meus dedos, o tecido daquela sombra aos poucos enche-se de calor. É pegajoso. Ela finalmente move-se, abraça-me. É muito maior do que eu e está em todos os lugares à minha volta. Em todos lugares e ao mesmo tempo. Eu enterro meu rosto na terra úmida cheia de névoa e folhas mortas.

Eu não posso envergonhar minha família, o pranto surdo começa a rasgar minha garganta. Eu cravo as unhas no solo e engulo o grito que fervilha ao fundo do esôfago.

Agora, não se preocupe mais. É apenas uma noite, criança. Você retornará. Assim como todos os que vieram. Será apenas uma noite.

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