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O Grande Hounfor dos Mortos

 
 
 
O templo de Vodou é chamado de Hounfour. Neste espaço nenhum elemento é acidental. Ali estão representados os pilares da cosmologia Vodou e o observador atento poderá aprender muito apenas observando o lugar de cada coisa. Entretanto, embora os constituintes do templo tenham suas individualidades, não estão solitários. Todos se misturam e interagem em fios que tecem a teia desta espiritualidade.

Estar no Vodou é estar inserido em uma gama de mundos que se encontram. O mundo dos homens toca e é tocado pelo mundo dos Lwa. Assim também acontece com o mundo dos mortos. As estradas pelas quais o Vodou se pavimenta todas são repletas de encruzilhadas – pontos de encontros, desencontros e de sabores múltiplos e cores distintas. Portanto, não é surpreendente notarmos que esses elementos simbólicos do Hounfour são refletidos em outras dimensões.

O cemitério é um espaço sagrado e geralmente vazio. Isto é, se nos recusarmos a enxerga-lo pelo que realmente é – o domínio dos que já se foram neste mundo. Pensando desta maneira, necessariamente concluiremos que o cemitério só pode ser dinâmico e agitado – repleto de personagens que estão ainda (mesmo que dentro de uma perspectiva ligeiramente diferente) dentro do mesmo contexto cosmológico que nós estamos.

Por isso, lemos estas palavras de um Haitiano ao se referir ao grande cemitério de Porto-Príncipe (e daqui em diante estarei me referindo principalmente ao artigo de Katherine Smith chamado “Dialoging with the Urban Dead in Haiti”): “Todo o cemitério é um grande Hounfour”. Pegando carona nessa revelação é Smith quem aponta – Há uma tumba inundada dedicada à Simbi, outra vistosa e imponente como uma igreja que é dedicada a Damballah. Há também um espaço dedicado à Erzulie Dantor e, claro, a grande cruz atribuída ao Barão. Acredito que Smith tenha se dado por satisfeita com estes exemplos, mas que uma investigação mais detalhada revelaria ainda muitos outros pontos associados a outros Lwas.


 

Cemitério de Porto-Príncipe, Haiti. (2)

 

 

Encontrar espaços dedicados a Simbi (um Lwa de água doce), por exemplo, em um cemitério parece não fazer muito sentido quando não consideramos o que apresentei previamente. É um informante de Smith chamado Antz que nos revela que no cemitério há mercados e tudo mais que há no mundo dos vivos, mas que as pessoas geralmente não conseguem perceber essas coisas.

Antz, por sinal, é uma figura curiosa. Ele está inserido dentro do Vodou, mas não é o que chamaríamos de um houngan tradicional. Sem ter recebido qualquer treinamento, ele foi iniciado e treinado pelos espíritos (coisa que não é tão incomum no Haiti) e, além disso, ele faz diversos trabalhos de mão-esquerda dentro do cemitério. Aliás, Antz conseguiu tomar para si um mausoléu que usa como escritório. Ele é o que se chama de malfektè – um feiticeiro que trabalha com djabs e com os (mortos). Um de seus instrumentos de trabalho mais comuns são os próprios ossos dos falecidos. É uma prática mágica e espiritual marginalizada, mas, sem dúvidas, que apresenta um mercado considerável.

 

 

O malfektè Antz. Na foto, Antz está diante de seu altar, dentro do mausoléu que usa de “escritório” e templo.
Uma das especialidades do malfektè, Smith nos explica, é a ekspedisyon – ou seja, mandar mortos perdidos realizarem trabalhos. Não escapa à Smith a similaridade do trabalho do malfektè com os do Palero de Palo Monte Cubano. Elementos como a manipulação de restos mortais e enviar mortos em tarefas ou feitiços são conservados nestas duas atividades. Assim, ela também percebe uma possível raiz congolesa nessa atividade. Seja como for, a existência dos malfektè é mais uma comprovação incontestável da riqueza do universo do Vodou e nos faz necessariamente nos perguntarmos: aonde querem chegar os que insistem em uma homogeneização desta espiritualidade?
 
Retornando ao ponto prévio: o cemitério – que Smith aponta perspicazmente que não pode se confundir com as tumbas rurais tanto pelo seu tamanho quanto pela mistura de ancestralidades distintas – é parte de uma dimensão que é estruturante e que faz parte do Vodou. Por isso, ao percebemos que Lwas como Simbi, Damballah e outros apresentam versões no cemitério ou estão também no cemitério, notamos que os intermediários entre Deus e os homens não são um instrumento que atende apenas aos vivos. Mais ainda, notamos que há relações complexas e intricadas entre aspectos de vida e de morte.
 
É Antz – conforme reportado por Smith – que nos dá um exemplo fantástico disso. Ele carrega um Lwa herdado chamado Gede Avadra – algo como Gede Vagabundo. Antz afirma categoricamente que Avadra é filho de Gran Brijiti e de Papa Legba. É claro que não podemos interpretar isso de maneira literal. Então precisamos entender que um Gede vagabundo, sem casa, é de alguma maneira um reflexo da natureza andarilha de Papa Legba. Assim, temos que as relações entre os ditos Lwas de morte (como Brijiti) e os Lwas de outras naturezas são íntimas e próximas. Não estamos lidando com dimensões radicalmente separadas, como estamos acostumados a pensar no ocidente.

Por isso, vemos uma infinidade de malfektè, bokors e mambos e houngans trabalhando dentro do cemitério. Devemos aqui nos rememorar de que os Gede são os espíritos que guardam os mistérios da morte e também da fertilidade e que, ainda, são fiéis protetores de crianças. Portanto, o cemitério longe de ser um local de adorações macabras, é um sítio de curas e de veneração. Neste local temos uma intricada rede de espíritos e de pessoas que fazem girar a belíssima roda do Vodou de maneiras surpreendentes.

Assim, Simbi, que é um Lwa também relacionado a curas e à feitiçaria, encontra um ponto de foco no cemitério. Há trabalho para Simbi ali. Trabalho para os vivos. Há curas, há quebras de feitiços e tudo mais nos quais os Gede podem trabalhar, mas também outros espíritos. É evidente, porém, que dentro do cemitério há a predominância e a primazia dos Gede, principalmente nas figuras dos Barões. Uma maneira melhor de tentar entender isso é a seguinte: para cada Lwa há uma maneira de se servir, de se lidar, ou seja, há verdadeiramente um tipo específico de Vodou – entretanto, nenhum deles está sozinho nesse multiverso espiritual.

Este aspecto do Vodou nos revela mais uma vez que este é um sistema muito vasto e que abarca uma multiplicidade de dimensões que bebem das mais variadas fontes de etnias distintas Africanas. Neste artigo apontamos – seguindo Smith – para um lado mais Congolês, mas se eu tivesse procurado, poderia ter apontado para outas ascendências. Com isto, fica claro que os cultos híbridos que se formaram nas Américas definitivamente apresentam pontos de contato estreitos. Não devemos nos furtar de compreender essas conexões.

Algumas fotos desse artigo foram retiradas de: http://www.thebohemianblog.com/2015/04/haitian-vodou-port-au-prince.html

Eu recomento fortemente que todos visitem a matéria acima e leiam. Nela, Darmon Richter dá diversos detalhes interessantes.
 

 Referência: Dialoging with the Urban Dead in HaitiSmith, Katherine.Southern Quarterly; Hattiesburg Tomo 47, N.º 4,  (Summer 2010): 61-90,217.Crédito das imagens: Fotos de capa e do cemitério, de Darmon Richter em seu The Bohemian Blog (http://www.thebohemianblog.com/). 3a foto, de Katherine Smith em seu artigo “Dialoging with the Urban Dead in Haiti”. 

 

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