O culto de María Lionza

 

Foi em 1945 no jornal El Universal da Venezuela que talvez a versão mais famosa do mito de María Lionza foi publicada. O mito dizia que os índios Jirajara-Nívar reconheceram um presságio acerca do nascimento da filha de um cacique que teria olhos de cor exótica de tal maneira que se ela visse seu reflexo no lago, uma enorme serpente aquática despertaria e destruiria tudo. Bem, a criança de fato teria nascido logo após a invasão Espanhola. A tribo implorou para que a menina fosse sacrificada, mas o cacique se recusou. Como é de se esperar, a menina foi até o lago, caiu na água e de onde ela despareceu saiu a serpente que destruiu a tribo e depois explodiu. A menina que se pode dizer até que virou a serpente era María Lionza. Afinal, porém, quem é essa figura e como funciona o culto a ela que atrai milhares de Venezuelanos?

Roger Canals em seu livro “A Goddess in Motion”, que é a fonte principal desse artigo, diz que parece claro que a menina é a serpente e que a explosão da serpente, cobrindo toda a terra ao redor é uma alegoria para o nascimento da própria Venezuela. Ou seja, ele liga inequivocamente o culto à identidade nacional Venezuelana.

Assim, ele destaca como o culto costura as faces distintas da Venezuela. Por exemplo, conta-se que a catedral de Valencia teria sido construída no século XVI exatamente sobre o ponto no qual a serpente explodiu. Assim, conectando o cristianismo ao culto nativo. Mais do que uma mera substituição da serpente pela igreja, Canals argumenta que isso seria como se a própria igreja tivesse usado as entranhas da serpente como material de construção.

María Lionza neste mito e em outros é uma mulher nativa. Geralmente ela é vista como muito bela e sedutora, o que a coloca no panteão dos espíritos do amor e do erotismo. Ainda, algumas lendas contam que ela vive como uma serpente durante o dia e a noite e cavalga uma anta pelas florestas. Em outras histórias ela é vista como uma mulher de origem mestiça e também como uma mulher branca.

A anta merece uma pequena explicação. Canals também explora essa relação, lembrando que o animal é um excelente nadador e que passou muito tempo imerso nas águas dos rios, o que o conectaria ao mito de María Lionza e o lago. Além disso, a anta é notívaga. Eu colocaria outra questão: o pênis da anta é surpreendentemente longo e grosso. Isso acontece, pois assim, por seleção, o macho consegue cruzar e inseminar a fêmea debaixo d´água. Portanto, a anta é um animal que representa a virilidade e o sexo de maneira muito gráfica. A imagem de María Lionza montada em um animal desses, seminua, portanto, é a representação da dominação feminina sobre o masculino ou ainda da fertilidade.

Em algumas outas histórias, María Lionza é uma mulher Espanhola, chamada de María Alonso que viveu na Venezuela e possuía muitas antas. Com sua morte, ela se tornou um espírito com o qual as pessoas podem fazer pactos. Nessa ideia ela seria a “mulher do diabo”, pois negocia almas. Sinto-me tentado a fazer associações com Maria Padilha, figura que Humberto Maggi e Veronica Rivas já exploraram muito elegantemente, mas essas associações dariam outro artigo.

Canals também cita que há representações da Lionza como uma mulher negra. Entretanto, não parecem haver histórias que a coloquem como tal. Nessa apresentação, Lionza é frequentemente associada à Iemanjá e à Oxum e também à Mami Wata.

 

 

                O Culto de María Lionza ou quibayo

 

Não é tão fácil começar a discutir esse culto. Por exemplo, alguns advogaram durante muito tempo que o culto era um culto nativo. Entretanto, o uso de elementos católicos certamente o coloca como um culto híbrido. Ainda, dentre os espíritos que são cultuados estão os espíritos de vikings (também daria um artigo à parte) e certamente não há e não houve vikings na Venezuela (embora a lenda diga que eles estiveram lá antes dos Espanhóis). Ainda, há elementos tipicamente de ascendência Africana no culto, mas estes vieram a se incorporar ao culto muito recentemente, depois dos anos 60.

Aqui cabe uma observação importante. Apesar do mito fundacional do culto estar localizado logo após a invasão Espanhola, não são encontrados registros deste culto antes de 1765 e certamente, nessa época o culto era muito diverso. Afinal, ele foi sofrendo diversas influências ao longo do tempo, sendo uma das mais impactantes a do espiritismo Kardecista no final do século XIX.

Bem, não precisamos definir o culto como “afro” ou “nativo” aqui. Deixemos isso para os antropólogos. O culto em si é uma expressão espiritual que envolve a interação com uma gama de diferentes espíritos, além de práticas de divinação, limpeza e cura, por exemplo. Um elemento chave no culto é a possessão espiritual. Ou seja, frequentemente haverá um médium incorporado por um espírito em cerimônias desse culto.

O culto é organizado geralmente em centros que usualmente apresentam diversos médiuns ou matérias que vão incorporar os hermanos, espíritus ou entidades. Há ainda uma espécie de auxiliar dos médiuns chamado de banco. Os centros se encontram em locais chamados portales onde há um altar com representações de Lionza e de outros espíritos e elementos católicos como crucifixos e também fotos de pessoas já falecidas.

Dentre as entidades cultuadas vemos mortos divinizados, deuses e até personagens muito curiosos como o Tarzan. Os espíritos são divididos em cortes que os classificam por etnia ou outra característica em comum. Curiosamente, María Lionza não é a figura mais poderosa do culto, esse posto pertence ao Deus e depois aos anjos. María vem, então, em terceiro. Os demais espíritos variam em nível de pureza e poder e podem ser negros, índios e mestiços.

 

(Foto por Kitra Cahana/ Getty Images)

                Práticas familiares

 

Para nós, Brasileiros, tudo isso que foi discutido sobre o culto de María Lionza parece extremamente íntimo. De fato, é notável a semelhança desse culto com expressões Brasileiras como as macumbas, Umbanda, Jurema e outros. Ainda, também vemos uma forte semelhança com Vodou e outros cultos Americanos. Ao mesmo tempo, não me abandona a impressão de que o culto de María Lionza é extremamente Venezuelano e único.

Gostaria de fechar esse artigo com uma informação curiosa, mas que aponta para a fluidez e a “vida” desse culto belíssimo. Há relatos de incorporações de Barão Samedi em cerimônias de quibayo. Sim, já vemos a incorporação de Lwas do Vodou Haitiano no culto de María Lionza. Isso é um testemunho da força dos Lwas e do dinamismo do quibayo. O que acontecerá no futuro e que outros espíritos de outros cultos darão as caras no culto de María Lionza é matéria para especulação. Hoje, porém, não há dúvidas de que esse culto se revela como uma expressão espiritual que merece mais atenção.

 

Referência:

Canals, R. A goddess in motion: visual creativity in the cult of María Lionza. 2017.

 

Para ver a incorporação de um viking no culto de María Lionza vá nesse link:

 

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