O Círculo Mágico

O círculo mágico é uma prática antiga entre os magos. Stephen Skinner argumenta que já nas atividades descritas pelos Papiros Mágicos Gregos havia o uso desta ferramenta, embora fosse suprimida regularmente, já que se tratava de algo “básico”. Seja como for, hoje em dia é muito comum falarmos do círculo mágico, principalmente em práticas de contato com espíritos, como as milhares de vertentes goéticas. Por isso, uma discussão acerca deste tema sempre é relevante.

Claude Lecoutex mostra em seu livro “Demons and Spiritis of the land” que a circumbulação, ou seja, o ato de demarcar um espaço a partir do movimento circular ao redor de um ponto fixo era utilizada para demarcar posse de um determinado local. Isso era especialmente relevante já que era preciso “banir” os espíritos do local para que se pudesse, então, de fato, tomar propriedade. Isso não “destruía” esses espíritos, que frequentemente davam as caras novamente e precisavam ser manejados com ofertas ou até mesmo por meio de métodos mais duros. A ideia era apenas marcar um território dominado e impor a regência sobre tal espaço.

 

Círculos na prática

 

A circumbulação é outra prática mágica muito difundida e, no fundo, ela também desenha um círculo mágico. Nos rituais da Ordem Hermética da Aurora Dourada, por exemplo, há circumbulações na abertura e no fechamento dos trabalhos. De maneira similar, levantar um círculo mágico também é algo que deve ser feito no início de uma determinada prática. Que o círculo mágico e que as circumbulações são maneiras de se delimitar um espaço mágico não é novidade.

As teorias da razão dessas ferramentas são muitas. Apresento rapidamente algumas:

– Para a circumbulação: movimentação de energia; disparo de energia; dissipação de energia; demarcação de uma fronteira entre o mágico e o regular; proteção.

– Para o círculo: demarcação de fronteira; proteção do mago; construção de um ambiente propício para a manifestação espiritual.

 

Será que pode haver algo a mais?

 

Fazendo o paralelo entre o demonstrado por Lecoutex, parece que o círculo e a circumbulação podem ser, mais do que simples demarcações, movimentos e declarações de posse. Explico. Ao traçar seu círculo, o mago está além de banindo tudo que ali estaria, fincando seus pés sobre aquela área e se proclamando o mestre dali. Dentro daqueles limites, o mago teria total domínio (teórico) sobre tudo, inclusive os espíritos que por acaso ali entrarem.

Assim, além de uma fronteira clara, o círculo e a área demarcada pela circumbulação são emblemas claros de autoridade mágica. Isso não quer dizer uma abordagem hostil, pois, novamente, se fizermos um paralelo com o que Lecoutex revela, veremos que mesmo após tomar a posse de certos locais, os homens tinham que lidar com os espíritos dali e muitas vezes, um acordo amigável era muito favorável.

Podemos repensar os ritos mágicos a partir dessa perspectiva?

 

 

Acredito que a ideia de posse dá uma visão diferente aos ritos mágicos. Por exemplo, ao fazer um círculo mágico estamos não só “limpando” o local, como definindo que ali somos, de fato, quem mandamos. Isso dá uma camada extra à ideia de proteção e oferece outras perspectivas. Estar com um espírito dentro do círculo mágico talvez não se pareça tanto como estar preso em uma jaula junto de um animal selvagem como alguns argumentam, mas talvez seja algo mais próximo de receber uma visita em sua casa. Isso não exime o mago de cuidado. Todos sabemos que os piores crimes ocorrem em ambientes familiares e são geralmente cometidos por pessoas de trato íntimo.

 

 

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