Nove Nobres Virtudes? Para quem?

Ah, como eu tenho evitado esse tema. É um tema quase político, com extremistas (sim, muitos fascistas), religiosos em guerra e abastados sem causa, tenho plena consciência e sei que aquilo que for dito aqui pode causar ainda muito rebuliço e dores de cabeça, talvez incitando o ódio moralista dos mais novos, e mexendo com os “valores tradicionais” da velha guarda ranzinza.

Com a ascensão das bandas de Folk-Metal e outras ditas como “Nordic”, junto com os eventos televisivos dos últimos tempos evidenciando os tais “guerreiros bárbaros da antiguidade”, a curiosidade pelos caminhos espirituais/mágicos além das terras tupiniquins cresceu de forma absurda, e se em meados dos anos 1999/2000 tínhamos apenas um gato-pingado falando de espiritualidade e magia nórdica, hoje temos uma grande horda de jovens buscando tal senda, e com isso, vejo esse texto como um engate, mas não como uma solução.

Com alguns anos trilhando esse caminho, vi muita coisa, já li de tudo um pouco, e presenciei outros tantos ritos nesse vai e vem do globo – e com ele, os brilhantismos e as esquisitices -. Mas há um assunto que nunca perde pauta, sendo um dos tópicos que mais me deixa revirando os olhos: ver como um dogmatismo recente fornicou a mente de alguns Heathens que o reproduz sem nem questionar sua origem, valor e importância. Falo sobre as Nove Nobres Virtudes.

A saber, e com uma leve mudança em tradução, função e significados, temos a seguinte lista:

Coragem
Verdade
Honra
Fidelidade
Disciplina

Hospitalidade
Laboriosidade
Independência/Auto Confiança
Perseverança

Primeiro devo dizer que isso não pertence a um escopo de “tradição nórdica”, como o termo “tradição” remonta. Sim, tais virtudes não são tradicionais, não são passadas de geração para geração em um sentido social e/ou religioso durante anos. É algo moderno, tendo um de seus idealizadores mais conhecidos sendo John Yeowell (stubba) na tão fadada Odinic Rite (acusada de muitas coisas, entra elas de serem racialistas, racistas e extremistas)¹, e mais para frente reavaliada pela AFA (Ásatrú Folk Assembly). Alguns praticantes do Ásatrú reconhecem que tais virtudes são à base de sua religião e caminho espiritual, outros entendem sua importância e escolhem algumas delas para manter em suas praticas pessoais. Até aí, nada muito a dizer, o que cada um faz com o seu caminho não é problema meu. O problema é eleger tal dogmatismo e querer enfiar goela a baixo a todos os praticantes de tais “caminhos nórdicos”, e isso, meus caros, é uma masturbação mental que eu não compro, mas refuto.

Lá fora esse é um assunto já batido, e para muitos totalmente sem relevância, mas como quase tudo, temos um delay imenso em trazer bons escritos – que estão além de uma visão histórica – para nossa terra (e acredito que desde 2013 a galera tem se esforçado bastante para isso, traduzindo artigos e criando textos com informações consistentes e de peso. Muito obrigado ao trabalho duro de vocês!). No Brasil há um texto bem antigo onde o Goði Medhal Mikit Stór-Ljon Oddhinsson, Okimoto (já falecido), descreve sobre a importância das virtudes e extrai do Hávamál alguns versos/versículos para sustentar tais virtudes de acordo com sua visão.² Veja bem, o texto é de 1999, a Odinic Rite fundamentou tais virtudes nos idos da década de 70. Novo, não? E o que aprendemos com o que já foi dito? Não é tradicional.

Enfatizar que tais preceitos seriam então praticados pelos povos nórdicos/escandinavos é ainda um tanto arriscado, já que estamos colocando em pauta moderna o que eles seguiam como primor, quase como um cristianismo dogmático. E essa parte dói para alguns Heathens, aceitar que estão sendo tão ovelhas quanto o rebanho que eles acusam (e acreditem, há uma chacina de injúrias pregadas por membros assíduos contra os de crenças Abraamicas). A necessidade do ataque? Talvez fantasiar uma atmosfera de conquistas e retaliação, mas na época que estamos vivendo fazer o seu é mais importante do que se vangloriar da religião que tu não gosta, e se não gosta o pensamento é simples: Se afasta. Viver a nossa fé é uma construção diária em nós, vai além – muito além! – de ataques, política e discurso de ódio, o dever de casa deve ser feito e com ele não vem subscrito pregar suas palavras de gênero, raça e religião ao amiguinho, e vai por mim, quando se assume um dever e o faz bem feito, o resultado é gratificante. Spoiler: há muito de sincretismo cristão no que a grande maioria dessa comunidade pratica e faz vista grossa para ignorar, se isso é bom, vai depender da tua maturidade de assimilação.

O Hávamál, da onde tais Heathens extraem suas virtudes, não é um texto moralista, ele me soa mais como um conselho sábio que recebemos dos antigos, sejam avós ou outras pessoas com maior conhecimento, ele é um texto que deveria nos guiar em momentos de dificuldade, não nos repreender segundo uma ou outra virtude selecionada. Acontece que o Old Norse é uma língua de difícil tradução, e as tais nove foram interpretadas de maneira muito abstrata, algo que não era tão singular se tratando de uma língua com suas tantas variações e significados de interpretação em cenários e sentimentos. Não havia naquela época monges-tradicionais-vikings que ensinasse sobre esse apanhado de “9 virtudes nórdicas” a uma parcela de sua tribo para doutriná-los, e essa visão é tão sincrética quanto o que muitos de vocês, heathens, tendem a pestenejar (e de novo, há muito de trabalho sincrético em nossos ritos e calendários! Se é tradição que vocês buscam, comecem pelos o saberes de um povo, não a figurinha de um livro).

Sendo assim, para quem serve tais virtudes?

Obviamente, não para todos, e acredito que apenas uma gama de Heathens as segue. Clãs, Kindreds e algumas tribos assumem suas próprias diretrizes, e em alguns é possível notar que valores como “coragem” e “honra” são primordiais para o funcionamento daquela comunidade. Mas já vi outros casos, onde preceitos como “família”, como “sangue” (não no sentido folkish) e “fé”, são seus principais esmero. Caminhos também diferem, e quando falo “caminhos” eu digo de correntes, o Heathenismo não é formado apenas por Ásatrúar ou Vanatrúar, há uma lista imensa de outras vertentes, e muitas nem se quer ligam para o que seriam as tais 9 Nobres Virtudes, o que nos faz pensar: São essas virtudes tradicionais? Porque se estamos falando de diversas correntes, caminhos e espiritualidades que não se apoiam no Ásatrú, estamos entendendo que tais correntes seguem algo Nórdico, seja lá Escandinavo, Norueguês, Dinamarquês, Islandês e etc, e por principia, seguiriam também tal propósito tradicional dicotomizado pela Odinic Rite, não? Pensem nisso.

Em uma esfera onde estamos vivendo grandes quebras e ascensões de comunidades, é fundamental questionar o modus-operanti de certas práticas, tenho visto o vício nada pueril de membros dessa cansada senda se vangloriando por possuírem a tal da virtude da honra (muito diferente do que para os antigos nórdicos tal honra significaria), homens – em sua maioria – buscando o caminho do guerreiro achado em algum dojo do bairro, exercitando o corpo (essa parte eu acho boa! Mexam-se!) com a mentalidade de que ao morrerem, iriam para o Valhalla (aquele lugar chatíssimo onde apenas GUERREIROS mortos em BATALHA vão, sendo em sua metade migrando para o salão de Freyja). Amadureçam, e normalmente começar pelo básico funciona. E se em sua comunidade o básico vem através das 9 Nobres Virtudes, está tudo bem! Busquem, procurem, entendam aquilo que vocês seguem, seguindo tais virtudes ou não.  A sua honra depende dos teus feitos e do que a tua comunidade lhe dota, e aqui entram valores, sensibilidade, conquistas para os seus e entender que como Ser Humano, tu vai errar. Isso é muito diferente da masculinidade tóxica pregada por essa comunidade de espadas de madeira, com fortes influências marciais vindas de alguma filosofia asiática e pensamentos “puristas” de um “reconstrucionismo histórico”. Li recentemente algo que dizia: pare de olhar para a cultura nórdica com olhos religiosos, pare de apreciar apenas o quadro, veja a cultura e lembre-se que a cultura é preenchida por pessoas, é isso. Seja mais simples, não estamos mais em épocas de lendas, uma espiritualidade que lida com a terra precisa de saberes mais chão, precisa de menos vanglorias e mais gente, no sentido mais antigo possível.

1 – https://odinic-rite.org/main/what-it-means-to-be-folkish/
2 – http://www.fornsed-brasil.org/nnv.html

 

Imagem de capa: unsplash
Imagem no artigo: Odinic Rite

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