Mascarados: o desafio de ser vulnerável

O mês de Halloween é quando podemos nos fantasiar e ser o personagem que quisermos. É um ótimo momento de escolher fantasias ou personagem com os quais nos identificamos, aqueles que temos vontade de nos parecer, seja devido a personalidade, suas ideias ou valores que transmite. Mas será que apenas no Halloween buscamos nos fantasiar? Será que não fazemos isso também no nosso dia a dia? Não usamos máscaras para nos proteger e não mostrarmos nossa vulnerabilidade? Afinal, fomos educados a não demonstrar fraquezas, precisamos ser perfeitos, saber tudo, entender tudo, falar dez idiomas…

 

Tente perceber isso no seu cotidiano, veja como é cansativo não poder ser você em sua essência. Muitas vezes não fazemos nada devido ao nosso medo de nos arriscarmos, não nos permitindo explorar novas possibilidades, ainda que com isso sintamos várias frustrações. Temos inúmeras vozes em nossa cabeça dizendo que não podemos ser assim ou assado, caso contrário seremos julgados pelos outros. Mas isso não aconteceria de qualquer jeito? Não importa muito se fazemos tudo “perfeito” ou tudo “errado”, o julgamento vem. Então, será que não correr riscos vale a pena? Será que vale a pena deixar de demonstrar o que pensamos, sentimos ou até mesmo nossos costumes para agradar as pessoas?

 

Como falei em outros textos, a presença é muito importante para conseguirmos nos conectar às pessoas e a nós mesmo. Quando estou presente consigo perceber os gatilhos mentais que me passam a percepção de vulnerabilidade. As máscaras colocadas em diferentes situações nos servem como escudo, trazendo a ilusão de proteção ou invisibilidade.

 

Mas afinal o que é vulnerabilidade? Sabe quando você tem uma apresentação importante e precisa falar para um grupo de pessoas e bate aquela ansiedade? Você pode começar a suar frio ou talvez, como algumas pessoas, tenha até dor de barriga. Se expor é uma vulnerabilidade, afinal você estará sob o julgamento de pessoas. Falar eu te amo é estar vulnerável, uma vez que você está demostrando seus sentimentos, ainda que não saiba se está sendo correspondido. Isso causa uma sensação de insegurança, desconforto.

 

Vulnerabilidade, é tudo aquilo que nos tira da zona de conforto que nos faz conectar com os nossos desafios emocionais e intelectuais. É quando temos a sensação de que algo não vai dar certo. Ou ainda quando percebemos que está tudo dando certo, mas existe uma vozinha em nossa cabeça que insiste em dizer que tem algo errado, ela anuncia: “prepare-se que algum ruim vem aí”. É nesse momento, que buscamos ideias, fantasias, máscaras e até mesmo assumimos posturas que nos tirem da situação que está nos deixando desconfortáveis.

 

Ser vulnerável é bom então? Sim, quando assumimos nossa vulnerabilidade, nos permitimos arriscar mais. Compreendemos que não precisamos ser perfeitos, podemos errar, podemos nos frustrar, chorar, não estar bem todos os dias sem precisar se culpar. Não precisamos ter vergonha de quem somos. Podemos assumir responsabilidades perante os desafios que forem surgindo. E se não der certo? Tudo bem também. Não precisamos criar monstros ou assumir personalidades diferentes para não criar conflitos.

 

Para algumas pessoas que conhecemos, olhamos e pensamos: “olha, fulano é tão forte”. Mas será que você já parou para se perguntar qual foi o caminho que aquela pessoa percorreu e como deve ser pesado carregar a máscara do “estou sempre forte e bem”? Será que em alguns momentos esta pessoa não gostaria de simplesmente estar em sua casa sozinha, mas não pode mostrar isso? Quantas vezes foi preciso mentir por vergonha de expressar sua real necessidade naquele momento?

 

Ser vulnerável é ser autêntico. Mas, isso não quer dizer que precisamos deixar nossa vida como um livro aberto. Não precisa falar sobre seus traumas, medos ou qualquer coisa que não se sinta bem em compartilhar com qualquer pessoa. Ser vulnerável também é ter a consciência do porque estamos compartilhando certas informações com as pessoas. Qual a nossa necessidade por detrás? Será que quero atenção, ser acolhido, amado, ouvido? Ou talvez eu já esteja apto a contar meus antigos traumas como uma maneira de ensinar as pessoas que estão fora do meu grupo de pessoas que confio?

 

Muitas vezes quando expressamos nossas dores, não somos recebidos muito bem. As pessoas normalmente não estão abertas para entender ou ter uma escuta empática. Todos têm suas próprias feridas, seus próprios traumas e seus próprios gatilhos de dor. Isso tudo dificulta para que possamos traduzir as necessidades dos outros quando nos chegam através de sua vulnerabilidade.

 

Todos assumimos personagens ao longo do dia, porque precisamos nos proteger. Não fomos ensinados a nos comunicar com respeito ou empatia. Quando não expressamos o que de fato precisamos, assumimos muitas vezes posturas que acabam nos desconectando do outro. Por exemplo, uma amiga chega para falar sobre algo que para ela seria importante. Mas você está de saco cheio devido algumas situações que ocorreram em  seu dia, como não conseguiu comunicar suas necessidades, você acaba sendo grosseiro com sua amiga, seja por algo que ela disse e te conectou com os conflitos que ocorreram mais cedo, ou simplesmente porque você quer ser ouvido. Vozes da sua cabeça dizem: “ninguém me escuta”. Por isso, você pode assumir a roupagem de um personagem agressivo, ou até indiferente. E quando paramos para entender o motivo daquela reação encontramos a resposta ao nos perguntar: em que momento precisei ser vulnerável, porém assumi posturas que não gostaria?

 

Fazemos todo tipo de curso, mas poucos são os cursos para aprender a nos relacionar melhor com os outros, ou ainda para lidarmos melhor com nossas próprias emoções. Temos a impressão que inteligência emocional vem de berço. Muitas vezes pensamos saber nos conectar com nossas necessidades, mas na verdade, quando somos expostos a situações que nos fazem vivenciar memórias que nos causam dor, assumimos uma máscara. Tais situações já se tornaram um gatilho psicológico que aciona esta máscara toda vez que uma situação semelhante acontece.

 

Ao nos relacionarmos, é muito importante estarmos conscientes e presentes, para sairmos do modo automático. Desta maneira, conseguiremos lidar melhor com a nossa vulnerabilidade e os personagens que utilizamos podem tornar-se uma fonte de potencialidades. Isto porque quando eu entendo e dou um sentido àquilo, consigo ressignificar os gatilhos, me torno mais autêntico e posso mostrar minhas ideias sem medo.

 

Para podermos nos conectar com o outro, precisamos entender o que nos deixa vulnerável, quais são os personagens que usamos para não olhar nossas necessidades que precisam ser atendidas. E por fim, fazer o pedido, seja para nós mesmo ou para outra pessoa. O pedido é um ato de entrega a vulnerabilidade. Pedir o que de fato precisamos é um risco. Eu posso receber um não. Este simples fato pode nos deixar desconfortáveis, o que abre caminho para assumirmos uma atitude ora autoritária, ora submissa.

 

Por isso, para praticar uma comunicação clara, é importante olhar para nós mesmos primeiro, para depois olhar o outro. Até porque à maneira que vamos nos conhecendo e nos aperfeiçoando, passamos a olhar os outros de maneira mais clara. Verificamos que os falsos perfeitos são humanos como nós, e que podemos nos permitir assumir nossa própria e falível humanidade.

 

Quanto mais humanos nos tornamos mais fácil fica de sermos autênticos com a gente e com o outro e a partir disso passamos a ser mais coerentes com o que acreditamos, pensamos, sentimos e agimos.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *