Jean-Maine: um houngan na magia ocidental

Se eu disser o nome Jean-Maine em uma roda de conversa de ocultistas, provavelmente muitos não saberão de quem estou falando. Se eu fizer o mesmo experimento com o nome Michael Bertiaux aposto que o cenário seria outro. Bertiaux é famoso por seu experimentalismo, pela sua escrita complexa e por costurar tradições e ideias diferentes em sistemas que alguns consideram geniais, mas que outros desprezam como sendo “sem sentido”. Seja como for, é inegável que Bertiaux seja uma figura conhecida, o que não é tão sabido é que sem Jean-Maine não haveria um Bertiaux como conhecemos hoje. Afinal, Bertiaux é o descendente mais famoso de sua linhagem mágica.
 
Entretanto, eu não focarei aqui na relação de Jean-Maine com Bertiaux. Na verdade, Bertiaux aparece neste artigo como uma muleta. Sim, pois talvez sem a referência dele, muitos ficassem perdidos. Assim, uma vez que está estabelecido que há uma relação entre os dois, podemos passar a discutir propriamente o Jean-Maine (ou quase, pois teremos de fazer um breve desvio, como veremos a seguir).
 
Falar de Jean-Maine é falar, na verdade, de duas pessoas distintas. Lucien-François, o pai; e Hector-François, o filho. Entretanto, vamos manter a discussão no pai neste artigo. Porém, para começarmos a falar de Lucien-François Jean-Maine precisamos antes discutir ainda outra figura: Martines de Pasqually. Afinal, Pasqually é um elemento de conexão muito oportuno entre Jean-Maine e a tradição ocidental.
 
O local e ano de nascimento de Pasqualy são objeto de disputa, mas não nos importaremos aqui com detalhes biográficos além dos necessários. Interessa-nos saber que próximo de 1754, já Maçom, ele começa a se envolver com o esoterismo. Em 1760, Martines inicia seu projeto para reformar a Maçonaria, em uma tentativa de fazê-la retornar aos seus objetivos originais. Em 1767 ele funda a Ordre des Chevaliers Maçons Élus Coëns de l’Univers, uma organização com natureza teúrgica. Em 1768, Pasqualy conhece Louis Claude de Saint-Martin, a quem impressiona fortemente e com quem começa uma parceria importante. Finalmente, em 1772, Martines de Pasqualy embarca para a Ilha de São Domingos (futuro Haiti), mais precisamente para Leógâne, para tratar de heranças e lá morre em 1774.
 
Pasqualy se conecta com Lucien-François de duas maneiras. A primeira envolve a ideia de que Pasqualy fundou algumas ordens e templos dos Élus Coëns na colônia de São Domingos e que passou conhecimentos teúrgicos a determinados escravos. Estes conhecimentos foram integrados ao Vodou e passados para Jean-Maine no futuro. A segunda maneira dá uma volta maior: Papus. Como sabemos Papus foi fortemente influenciado por Saint-Martin (que, por sua vez foi influenciado por Martines de Pasqualy) e a história conta que Papus e Jean-Maine se encontraram em Paris, onde Papus conferiu a Jean-Maine diversas patentes e Jean-Maine, por sua vez, teria iniciado Papus ao posto de houngan de Vodou*. Este encontro ocorreu em 1910 e nele, Jean-Maine recebeu o grau X° da OTO de Reuss.
 
Temos então dois pontos de convergência entre o Vodou e a teurgia ocidental. Um segue direto de Pasqualy e o outro passa por Papus. Entretanto, ambos têm algo em comum: Lucien-François Jean-Maine. Já podemos notar que Jean-Maine, longe de ser uma personagem desprezível, é importantíssimo na trajetória do ocultismo.
 
É curioso notar que de acordo com a tradição, Jean-Maine recebe os ensinamentos da teurgia ocidental por duas vias, pelo menos. Por meio da tradição de Vodou familiar ele recebe essas tradições talvez já adaptadas e transformadas pela cosmovisão Haitiana. É possível também que ele tenha recebido os graus de Élus Coëns diretamente, pois havia templos desta ordem em São Domingos, fundadas pelo próprio Martines de Pasqualy. Seja como for, se pensarmos que o Vodou pode ter influenciado Pasqually, temos que considerar que os templos de São Domingos talvez não operassem como os templos Franceses. Coisa similar aconteceu, por exemplo, com a Maçonaria no Haiti que vai englobar diversos elementos do Vodou e que também irá doar ao Vodou alguns de seus componentes (Sugiro a leitura destes artigos aqui, aqui e aqui)
 
Também vemos que Jean-Maine recebe diversas iniciações e consagrações de Papus, inclusive na Igreja Gnóstica Francesa (e de outros, como Bricaud). Isso aponta para o fato de Jean-Maine possuir um repertório bem vasto de magia cerimonial. Verdadeiramente então se trata de um adepto de conhecimentos e talentos únicos e que vai exercitar sua criatividade e experiência na criação de um sistema plástico e que favorece a experimentação mágica.
 
Alguns anos após o encontro com Papus, Jean-Maine retorna ao Haiti e de posse de toda sua expertise funda em 1921 a Ordo Templi Orientis Antiqua (OTOA) e a La Couleuvre Noire (LCN) em 1922. Aqui vemos o início da consolidação do sistema ímpar criado por Jean-Maine. Não detalharei estas ordens aqui, para tal sugiro a leitura deste texto (e de outros textos do mesmo website**) escrito por Frater Selwanga, que, por sinal, é uma das referências de consulta para o presente artigo, que você poder ler aqui:
 
Além disso, Jean-Maine possivelmente teria trabalhado com discípulos de Paschal Beverly Randolph e da Fraternintas Lucis Hermetica entre 1899 e 1910. Ainda, como Frater Selwanga cita, Jean-Maine teria estudado os trabalhos de Maria de Naglowska. Aliás, há teorias de que a própria Naglowska teria sido iniciada no Vodou por discípulos de Jean-Maine. De fato, P. B. Randolph quebra paradigmas com seu trabalho, cujo título Magia Sexualis, que é publicado por Naglowska após sua morte, talvez seja o maior expoente. Assim, além de ser importante conhecer o trabalho de Randolph e Naglowska pelo seu valor próprio, é valioso apontar que há sim correlações possíveis entre as ideias destes e as de Jean-Maine. Deixo ao leitor interessado a tarefa de estudar estas obras e tirar suas próprias conclusões.
 
Após uma vida longa e frutífera, Jean-Maine morre em 1960 enquanto fazia um tour nos Estados Unidos, mais precisamente em Boston. É seu filho, Hector-François quem consagra Michael Bertiaux em 1963. Evidentemente Bertiaux recebe diversas outras iniciações. Entretanto, como estamos discutindo a linhagem direta de Jean-Maine, cabe dizer que Bertiaux herda o sistema construído pelos Jean-Maine e o transforma, gerando o sistema pelo qual hoje é amplamente conhecido. Para quem não conhece ou conhece pouco do Bertiaux, sugiro a leitura dos livros do Kenneth Grant e do “Vodoun Gnostic Workbook” de autoria do próprio Bertiaux.
 
Enfim, Bertiaux é sem dúvidas uma das figuras mais polêmicas e relevantes do ocultismo contemporâneo. Para compreendê-lo, entretanto, se faz necessário entender suas origens. Este artigo pode ser visto como um elemento de esclarecimento sobre tais origens, mas não é esse seu objetivo central. Para além de ajudar a elucidar a figura de Bertiaux, pretendi aqui principalmente revelar a figura de Jean-Maine, um ocultista repleto de recursos e muito habilidoso. É impressionante como certas figuras estão perdendo a relevância, mesmo que seus trabalhos continuem vivos pelos sistemas que são reapresentados e trabalhados por outras pessoas. Jean-Maine não é o único a sofrer disso. Os próprios Randolph e Naglowska aqui citados são ocultistas de importância vital e que não recebem o destaque devido. Parece-me que a comunidade anda girando em torno do próprio rabo, sempre lendo e citando as mesmas pessoas. Sem querer desvalorizar o trabalho de qualquer ocultista influente que seja, mas parece-me que não pode ser uma má ideia dar uma olhadinha em outros materiais.
 
Por tudo que foi discutido aqui acredito que o valor de se resgatar a figura de Jean-Maine é evidente. Além de ter sido um mago criativo que uniu diversas influências da sua construção pessoal em um sistema interessante, foi um houngan de Vodou. Um homem que certamente sabia como poucos não só explorar seus reinos internos, mas também se conectar ao invisível e viajar nele. Por outro lado, a história de Lucien-François Jean-Maine também é a história de como o Vodou recebe influências do esoterismo Europeu diretamente. Jean-Maine nos ajuda, então, a compreender para além de si mesmo.
 
Por fim, cumpre dizer que há dificuldade em se resgatar evidências históricas acerca de Jean-Maine. Não que isto seja uma surpresa. Muitas figuras envolvidas no ocultismo deixam pouco ou nenhum rastro histórico. Sabe-se que elas existiram muitas vezes por discípulos e trabalhos escritos. No caso de Jean-Maine, estes registros escassos renderam teorias de que ele não teria existido. Marcel Roggemans cita P. R. Koening, que afirma que Jean-Maine e suas ordens seriam criações de Bertiaux e de outros a partir de anotações de Marc Lully. Entretanto, apesar de escassos, os registros sobre Jean-Maine não são inexistentes e contradizem a teoria de Koening. Vejam, por exemplo, a fotografia de Jean-Maine no artigo supracitado de autoria do Frater Selwanga.
*Informação obtida por comunicação pessoal com o nosso Dr. Facilier, a quem agradeço por diversas informações contidas neste artigo.
 
** Recomendo a leitura dos artigos do site da OTOA-LCN Brasil, principalmente os artigos sempre esclarecedores e ricos do Frater Selwanga.
Arte por Michael Bertiaux.
Referências disponíveis:
Bertiaux, M. The Vodoun Gnostic Workbook. Weiser. 1988.
Roggemans, M. History of Martinism and the F.U.D.O.S.I. 2009.

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