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Este terreno tem dono

Paulo e Jessica haviam se casado fazia apenas um mês, no entanto, já moravam juntos há três anos e com suas economias conseguiram dar entrada em um financiamento numa linda casinha no interior do Rio de Janeiro. Mesmo juntando suas rendas, ainda assim não foi o suficiente para comprar a casa que sonhavam, mas depois de algumas pesquisas encontraram uma que estava a venda por um bom preço. O valor exigido pela imobiliária era realmente bom, pois embora a casa fosse pequena, o terreno era enorme e nos fundos era bem arborizado.

Jessica ficou encantada, poderia fazer seu pomar e uma pequena horta onde plantariam alimentos saudáveis. Antes da mudança, a casa precisaria de uma reforma, pois, além de suja, o mofo havia tomado algumas paredes.

Amor está feliz?” perguntou o marido abraçando sua recém esposa.

Não imagina como!” respondeu a jovem retribuindo com um beijo.

Na mesma semana contrataram um pedreiro para ajudar nas obras, o casal quando saia do trabalho se encontrava na casa e colocavam a mão na massa, queriam se mudar o mais rápido possível. O pedreiro Jorge perguntou ao casal se poderia dormir uns dias no local para adiantar alguns detalhes, o casal não se opôs, então ficou combinado que naquela semana ele dormiria na casa em obras.

Já na primeira noite, Jorge como de costume tomou seu banho e foi acender um cigarro e tomar uma cervejinha para relaxar, afinal estava quente e o dia foi exaustivo até que ouviu chamarem seu nome no portão, achou estranho, pois ninguém o conhecia na região. Foi até o portão e não havia ninguém, pensou “estou ficando velho”, mas logo em seguida ouviu um assovio e seu nome sendo chamado novamente, porém dessa vez foi dos fundos da casa e mais uma vez foi verificar e nada. Ao voltar, a casa estava escura, lembrava de ter deixado a luz acesa, e então entrou à procura do interruptor, quando sentiu um forte arrepio invadir seu corpo em meio a total escuridão, dois olhos vermelhos o encaravam. Nunca teve medo de nada, não acreditava em assombrações e fantasmas, mas naquele momento sentiu seu corpo paralisado, queria gritar, mas a voz não saia. Após algum momento, a luz acendeu sozinha, e a porta da cozinha se abriu como um convite de despedida.

Jorge pegou suas coisas e saiu da casa o mais rápido que pode, não ficaria ali mais nenhum segundo. Foi para a varanda da casa, cobriu o chão com uns jornais velhos e dormiu, assim que amanheceu, deixou um bilhete para os patrões dizendo que havia acontecido um imprevisto e não poderia concluir a obra, muito honesto que era, separou os dias trabalhados e deixou o resto do dinheiro junto ao bilhete agradecendo a confiança e que procurassem outro pedreiro. Decidiu não contar o ocorrido, por medo de o acharem louco ou até mesmo bêbado.

Nessa mesma noite, enquanto dormia, Jessica teve um sonho com seu falecido pai, os dois estavam na casa recém adquirida, ela parecia nova, muito bonita e o sonho era muito real, ele nada disse e com um olhar, pediu que a acompanhasse e foram caminhando até o fundo do quintal, o som dos pássaros era diferente, eles pareciam agitados e de repente ele parou de caminhar e ficou de pé entre as árvores e apontou para o solo. Ela se ajoelhou e removeu algumas folhas secas, mostrando que embaixo havia uma pesada tampa de metal fechada por um grosso cadeado. Imaginou que poderia ser um poço e quando olhou para cima seu pai havia sumido, levantou-se e olhou para a casa, todo o seu corpo se congelou de medo, pois ao redor da casa, havia várias sombras negras que emitiam um lamento, outras choravam baixo e na porta dos fundos uma figura imponente ria e fumava um cigarro, as sombras pareciam presas de alguma forma a casa e seus gemidos eram de gelar a alma.

Acordou gritando, eram duas da madrugada. Seu marido levou um susto e ela apenas comentou que havia tido um pesadelo. Ele disse para ela voltar a dormir. O que foi impossível, já que as terríveis imagens borbulhavam em seu pensamento, o dia já clareava, quando conseguiu pegar no sono.

Passava do meio-dia quando acordou e se assustou com a hora, “preciso trabalhar” disse ao marido. “Meu amor hoje é sábado, dia de descanso, por isso não lhe acordei, vamos almoçar e ver como está a obra, Jorge deve ter deixado tudo bem adiantado” Disse o marido bastante animado.

Ao chegarem na casa, foram procurar o pedreiro e ele não estava e havia levado suas coisas. Havia apenas um bilhete com uma quantia e uma breve explicação, “bom, ao menos tinha sido honesto” em devolver parte do dinheiro, de toda forma, o que faltava da obra era pouco, sendo assim, resolveram se mudar no próximo sábado, e até lá, finalizariam algumas coisas e terminariam, enquanto estivessem morando.

Então, durante a semana, assim que saiam de seus trabalhos, iam para a casa para fazer os reparos. Decidiram não contratar outro pedreiro e seguiram em frente. Realizaram a mudança que foi muito rápida, afinal eram recém casados e não tinham muitos bens. Quando o cansaço bateu perceberam que não haviam dormido. Apenas deitaram e minutos depois já estavam em sono profundo.

Com fortes batidas na porta, acordaram e já se passava das 19 horas, “afinal quem seria àquela hora em um domingo?” Paulo se levantou e ao abrir a porta, não tinha ninguém, deduziu que tivesse sido o vento, talvez o início de uma tempestade, pois as janelas do quarto e sala bateram logo em seguida, fechando-se de forma violenta, assustou-se com o barulho e foi fechá-las.

Continuaram desempacotando e limpando o que faltava, e quando finalmente terminaram tudo, já passava da meia-noite, teriam que trabalhar cedo, mas estavam sem sono. Resolveram ficar sentados na varanda apreciando a tranquilidade do local. Foi nesse clima que eles viram uma pessoa passar correndo pela lateral do casal, não identificaram e viram apenas o “vulto” da pessoa. Paulo imediatamente levantou-se e foi atrás, porém não tinha ninguém, a pessoa havia sido muito rápida.

A semana passou de forma tranquila e decidiram o que fariam no feriado, seria uma recepção com seus amigos para comemorar a nova casa, marcaram um churrasco e convidaram dois casais de amigos. Marcia e Flavio, amigos de Paulo desde a faculdade, também chamaram Lívia e Fernanda, amigas de Jessica desde a infância. As duas eram casadas e tinham adotado um lindo menino que hoje estava com cinco anos.

Quando Lívia e Fernanda chegaram na casa, a pequena festa havia começado, no entanto ao entrar no local, Fernanda sentiu uma tontura muito forte e teria desmaiado se não fosse sua esposa tê-la segurado.

“Amor você está bem? O que houve? Estou preocupada” perguntou Lívia.

                “Estou sim, acho que foi apenas um mal estar, não me alimentei bem durante o dia” – respondeu. Embora ela soubesse que tinha algo de errado naquele lugar e sensitiva desde criança, ela trabalha em um terreiro de umbanda como médium e estava acostumada a diferenciar físico do espiritual, ela confiava em Deus e eles entraram na casa.

Assim que entraram na casa, já havia alguns convidados sentados no quintal, Paulo estava na churrasqueira e disse para ficarem à vontade, e que poderiam pegar as cervejas no isopor. Todos conversavam animados, a noite estava quente e as duas se serviram imediatamente de umas cervejas bem geladas.

Enquanto o tempo passava, Fernanda se sentia apreensiva e não conseguia relaxar, pelo canto de seus olhos, conseguia ver alguns vultos negros, porém nada poderia fazer e apenas continuou bebendo sua cerveja e desejando que a hora passasse depressa.

Todos ouviram um grito, seguido do choro convulsivo de uma criança, Fernando correu, seu filho estava aos prantos e repetia quem eram aquelas pessoas na casa. Dizia que elas eram feias e estavam machucadas. Os convidados ignoraram a situação, afinal, criança tinha a imaginação muito fértil.

O churrasco continuou, como se nada tivesse acontecido, todos estavam animados, apenas Fernanda e seu filho estavam aflitos, queriam sair logo daquele lugar. Embora tentasse se segurar, chegou uma hora que não aguentava mais e pediu para usar o banheiro, pois tinha bebido bastante e estava um pouco apertada. Jessica disse que não tinha como errar, bastava entrar pela cozinha e o banheiro estava logo a esquerda.

Ao entrar na cozinha, um arrepio percorreu todo seu corpo e sentiu um frio na espinha, não iria se intimidar, foi até o banheiro e quando saiu, viu uma sombra preta parada na sala. Nunca tinha visto uma presença tão nítida, imediatamente iniciou o “pai nosso”, quando uma travessa de vidro que estava em cima do armário caiu sobre sua cabeça, apagando-a completamente. Os convidados ouviram o barulho de algo quebrar, correram para a cozinha e encontram a Fernanda desmaiada no chão com sangue escorrendo de sua cabeça.

Paulo pegou seu corpo no colo e Lívia as chaves do carro, partiram imediatamente para o hospital. Todos ficaram impressionados, como uma tigela de vidro poderia ter caído do armário, mas afinal acidentes acontecem. Imaginaram que ela poderia ter tentado pegar para colocar algum alimento e acabou desiquilibrando o objeto.

A festa acabou ali, os convidados foram para suas casas, e Jessica ficou sozinha esperando o marido voltar do hospital. Havia ligado, porém seu celular parecia desligado. Enquanto esperava, acendeu um cigarro, abriu uma lata de cerveja e ficou saboreando enquanto olhava para o fim do seu quintal, onde havia algumas árvores e lembrou-se do sonho, onde havia uma estranha tampa de metal e foi até lá.

No local de seu sonho, tinha apenas terra, não convencida voltou em casa e deixou na pia sua lata de cerveja e apagou o cigarro. Pegou uma pá e voltou, começou a cavar até que de repente bateu em algo sólido de metal e um medo indescritível tomou conta do seu corpo, como poderia ter sonhado com aquilo? Continuou cavando até que havia retirado toda a terra e havia uma pesada tampa de metal fechada por um grosso cadeado, deu algumas pancadas com a pá no cadeado, mas ele não cedeu. Um vento frio percorreu seu corpo em direção a casa e quando olhou para a porta da cozinha, podia ver nitidamente um homem negro parado, ele usava uma cartola preta e um terno preto com a gravata vermelha, fumava um charuto enquanto ria e debochava dela. Jessica queria gritar, mas a voz não saia, não conseguia se mexer tamanho era seu pavor, queria rezar, mas estava muito apavorada, não sabe precisar quanto tempo ficou ali parada, até que ao piscar de olhos a imagem sumiu.

Desesperada, correu chorando para a rua e ficou na calçada esperando seu marido voltar, não entraria sozinha naquela casa por nada. Enquanto esperava no portão, olhou para trás e nos vidros das janelas viu vários rostos, alguns disformes, outros pareciam machucados, porém em todas as janelas havia rostos que lhe olhavam, alguns de forma triste e outros com ódio no olhar. Nunca acreditou em fantasmas, não tinha religião, sabia que tinha bebido pouco e não poderia ser sua imaginação.

Depois de algumas horas, Paulo chegou e encontrou sua esposa sentada na calçada, não entendeu o que estava acontecendo, estacionou o carro e a abraçou, ela parecia em choque e chorava muito, pediu que fossem para dentro de casa, eram duas da madrugada e ela completamente transtornada gritava que não queria entrar.

Com muita calma, ele a conduziu até a casa e perguntou o que tinha acontecido. Jessica ainda chorando, em meios aos soluços, relatou ao marido, os eventos que havia presenciado. Ele tentou contemporizar, dizendo que ela estava abalada com o acidente da amiga.

Irredutível, Jessica pegou o marido pela mão e o levou até o fundo do quintal e mostrou a tampa de ferro, ele disse que deveria ser o esgoto. “porque então está fechado com um cadeado desse tamanho?” perguntou indagando.

Paulo foi até sua caixa de ferramentas e pegou alguns materiais, após serrar e bater, conseguiu quebrar o cadeado. A tampa era pesada e os dois juntos conseguiram abrir. O cheiro que saiu de lá, era insuportável, como carne podre e estava escuro, não dava para ver. Pegou uma lanterna e o que tinha no buraco o deixou apavorado. Havia vários ossos visivelmente humanos e uma espécie de vaso de barro, nele havia um estranho boneco feito de metal, pela cor, parecia que foi coberto de sangue.

Paulo correu para a casa afim de pegar o telefone e chamar pela polícia, porém assim que entrou, a porta imediatamente trancou. Tentou abrir e não conseguiu, sua esposa ainda estava ao lado do buraco e quando deu por si estava rodeada de pessoas, homens, mulheres crianças, todos machucados com correntes presas no pescoço e nos pés. Ajoelhou-se e entrou em pânico, pedia ajuda a Deus, porém nada acontecia e quando olhou para o quintal, havia centenas de pessoas flageladas, sabia que não eram pessoas de verdade, algumas eram disformes, outras faltavam membros, como braços, pernas e um deles estava em pé sem a cabeça.

Nenhum deles se moviam, apenas estavam virados em sua direção, até que uma sonora e alta gargalhada veio da casa e todos se viraram, ela podia ouvir o barulho das correntes se arrastando e recuperando-se do choque, levantou-se e correu até a casa, quando ouviu seu marido gritando e agitando a porta.

Paulo, ao olhar para trás viu o estranho homem de terno e cartola parado no meio do corredor e gritou: “quem é você?”, a presença apenas disse “sou o dono desse lugar e em breve vocês dois se juntarão, aos meus escravos”, Ainda com medo, porém precisando defender sua família, gritou com a presença que os deixassem em paz e como resposta, recebeu uma gargalhada.

“Essa casa é minha, paguei por ela, não vou deixar que nos intimide, seja você quem for” disse Paulo para a presença, que assim como apareceu sumiu. A porta abriu e sua esposa estava do outro lado. Se abraçaram e em seguida chamaram a polícia.

Os policiais chegaram pela manhã e ao analisarem o sinistro poço, constataram que se tratava de ossos humanos, ao todo retiraram mais de 200 ossadas de dentro do poço, porém, o estranho vazo de barro com o boneco de metal, estava preso ao chão. Os peritos pediram que não se aproximassem do local, pois fariam alguns testes. O casal disse que não tinha para onde ir, a polícia disse que eles poderiam ficar na casa, apenas não ultrapassassem a área isolada, pois pela aparência do material, aqueles ossos estavam ali há mais de 150 anos.

O casal foi para o quarto e tentou dormir, vencidos pelo cansaço, adormeceram e tiveram vários pesadelos, quando acordaram, passava das 16:00hs. Decidiram procurar a igreja local, na cidade havia apenas uma igreja católica. Padre José os recebeu de forma muito cortês e ouviu todos os relatos, quando terminaram, ele disse:

Eu já esperava que isso fosse acontecer.”

O casal ficou surpreso e nada disseram, então o Padre continuou:

“A casa que vocês moram, estava vazia há muitos anos, pois inúmeras famílias passaram por ela, algumas tiveram a sorte de sobreviver e outras nem tanto. O local, há 200 anos atrás, era utilizado por um culto satânico, vindo da Europa que sacrificava de forma violenta os escravos e ofereciam sua carne e sangue a um demônio chamado Makabiel Borol. Seus rituais envolviam torturas, mutilações, estupro e toda forma de crueldade em nome do demônio, os escravos eram os escolhidos, pois ninguém sentiria sua falta. Desta seita, participavam senhores de engenho e membros da realeza, que vinham até o interior em busca de poder. A cidade por estar ainda começando era o local ideal, pois assim não chamariam atenção. Muitas das famílias nessa cidade sabem dessa história, mas não acreditam, embora ninguém ouse sequer a passar na mesma calçada de sua casa. Garanto a vocês que a polícia não voltará, afinal, muitos nasceram aqui e conhecem as lendas que envolvem sua casa”

Paulo indignado, perguntou por que então haviam vendido a casa para eles, pois tinham investido todas as suas economias, e a imobiliária não aceitaria de volta. Sem forças, rendeu-se e entendeu o motivo de um terreno tão grande ter sido vendido por um preço quase de graça.

Logo em seguida, Jessica perguntou se poderiam fazer algo? Se o padre poderia realizar um exorcismo, abençoar a casa, afinal viam isso nos filmes, era só ele entrar lá e rezar que o tal demônio iria embora.

“Desculpe, mas nada posso fazer. Estou muito velho e não tenho mais forças para enfrentar um mal tão poderoso. Minha sugestão é, peguem suas coisas e vão embora o mais rápido possível”

O casal, saiu da igreja decepcionado, deveria existir alguém que pudesse fazer algo, foi quando lembraram que Livia e Fernanda frequentavam um lugar que mexia com espíritos.

Paulo ligou para Livia, e após ter notícias de Fernanda, que ela estava bem e teria alta no mesmo dia, relatou tudo o que aconteceu. Então Livia ligou os pontos e entendeu que Fernanda poderia ter sido atacada.

Infelizmente, disse que não poderia ajudá-los, mas tinha um amigo envolvido em algumas ordens ocultistas que poderia ajudar. Passou o contato e disse para ligar no dia seguinte pela manhã que ela conversaria com ele antes.

Jessica não queria dormir outra noite na casa, mas era isso ou dormir na rua, o hotel da cidade ficava longe e a diária não compensaria e gastaram muito dinheiro com as obras da casa. Então, sentindo o coração batendo mais forte que o normal, de mãos dadas, eles passaram pelo portão de entrada.

Assim que entraram, a casa estava silenciosa e nem parecia o cenário de filme de terror que havia presenciado na noite anterior. Tudo estava muito calmo, e talvez conseguissem dormir bem. Jantaram e como acordaram tarde, estavam sem sono, portanto as três da madrugada ainda estavam despertos. Quando ouviram a porta da cozinha abrindo, Paulo se levantou, foi até o local e a porta estava fechada. Sabia que não havia imaginado, pois ambos haviam escutado e retornando ao quarto, estava ao lado de sua cama parado, o tão temido demônio, sua esposa olhava para o marido com pavor e ele não sabia o que fazer.

Olhando para o demônio, Paulo se sentia impotente, não podia proteger sua esposa e sua casa, seus sonhos todos desmoronando. Seus pensamentos foram interrompidos pelo toque do celular, pensou “quem ligaria no meio da madrugada” e atendeu.

“Boa noite, desculpe incomodar, meu nome é Dimas, sou amigo da Fernanda e da Livia, elas me ligaram e relataram o que houve, sinto que vocês correm perigo”

Paulo só conseguiu dizer “ele está na minha frente e ao lado de minha esposa”, Dimas disse apenas “coloque imediatamente no viva voz. Rápido!”

Paulo obedeceu e do aparelho de celular ouviu um sino seguido de uma espécie de oração: “Kodoish, Kodoish Adonay Tsabaioth” e, após um silencio, a oração continuou: “Exorcizamus te, omnis immundus spiritus omnis satanica potestas, omnis incursio infernalis adversarii, omnis legio, omnis congregatio et secta diabolica.”

                O sinistro demônio desapareceu e Jessica se sentiu aliviada. Paulo agradeceu ao desconhecido no telefone, que deu as seguintes instruções.

“Hoje vocês não serão mais incomodados, mas amanhã, as seis horas em ponto, assim que o sol nascer, vocês devem lavar toda a casa com água e sal grosso. Pesquisem a oração de são Bento em Latim e de hora em hora, rezem em voz alta. Devo chegar aí, pelo anoitecer, estou um pouco distante. Já tenho o endereço”

                Paulo não sabia como agradecer aquele estranho e disse apenas “obrigado”.

“Não me agradeça e sim as suas duas amigas, devo muito a elas” e Dimas desligou.

O casal não dormiu mais e assim que o sol entrou pela janela do quarto, eles pegaram uma bacia, encheram de água e usaram todo o sal grosso, que tinham comprado para o churrasco. Com um pano, limparam toda a casa e pesquisaram a tal oração na internet. Durante todo o dia, de hora em hora a recitavam. Até que as dezenove e trinta a campainha tocou. Sabiam que era Dimas.

Ambos ficaram impressionados, ele não deveria ter mais de dezenove anos e esperavam um homem idoso, com peso da sabedoria nas costas.

“Me ajudem a tirar a mala do carro, temos muito trabalho até meia noite. A entidade deve ter um ponto de força, alguma coisa que a prenda aqui” disse o jovem.

“Não sei do que está falando” respondeu Paulo.

“Eu imagino o que seja” respondeu Jessica, e levou o estranho até os fundos do quintal, passaram pela faixa de isolamento e foram até o poço. Assim que ele olhou para a imagem de ferro, sabia que era aquilo que procurava.

“Esse objeto de culto é o que liga o demônio a casa, contudo não podemos simplesmente quebrar ou tirar daqui, precisamos quebrar a ligação dele, com este objeto. Temos que agir rápido. Vocês têm tinta branca? “O casal respondeu junto que sim”.

“Então desenhem esses símbolos em volta da casa, isso o manterá preso lá dentro, enquanto trabalhamos aqui”

O casal começou a realizar as pinturas e viram as sombras negras, em cada cômodo pelas janelas, não sentiram medo e continuaram a desenhar os símbolos. Enquanto isso, Dimas utilizou sal e enxofre para fazer um círculo em volta do poço. Riscou na terra alguns nomes e palavras em hebraico.

O casal voltou e disseram que tinham terminado.

“Perfeito. Agora iremos invocar o demônio e vamos aprisioná-lo dentro desse objeto de culto, aconteça o que for, não tenham medo, ele não poderá sair do círculo. Uma vez fora da casa, os símbolos que desenharam não permitirão que nenhuma outra presença entre. Traremos ele a força, até aqui. Entenderam?”

O casal respondeu que sim.

Dimas acendeu algumas velas, em volta do círculo e iniciou uma oração em latim: O Makabiel Borol, et non spiritus mali, quod tibi ostensum est in vobis ad iracundiam provocaverunt, sed ambulaveritis ex sermonibus contempto incantationem ineffabilis sunt nomina Deum verum, et tua mea fons et creatio, et requiem mundi, Et haec nomina cui potestas ab DECRETUM nulla creatura resistere potest, et de profundis tibi damnationem et abyssus manere donec exitium”

Um sinistro nevoeiro desceu, sobre o quintal da casa, foram ouvidos choros, lamentos e as correntes arrastando seguido de um grito ensurdecedor.

“Ele está no círculo. Preparem-se, pois, teremos que ser rápidos e retirar essa imagem”

“Ela não sai, a polícia tentou tirar e está presa” disse Paulo.

“Agora ela vai sair, me ajudem a descer” respondeu Dimas.

Então o jovem entrou no poço e com uma espécie de punhal, ele apontou para a estátua e disse algumas coisas que o casal não pode ouvir. Em seguida, moveu o pesado vaso e com a ajuda do casal, retirou do poço.

“Vamos para o carro. Rápido. Existe algum rio ou lago aqui perto? Que seja fundo o bastante”

“Sim, existe um córrego na entrada da cidade” Respondeu Jessica.

“Precisamos jogar a imagem lá, antes da meia noite. Depressa”

Entraram no carro e partiram rumo ao rio, que recebia o nome da cidade. No caminho, os três viam as almas que estavam presas ao demônio. Assim que chegaram, os três juntos retiraram o sinistro objeto do carro e atiraram ao mar.

Dimas fez uma prece em voz baixa e pediu que retornassem a casa, pois agora precisavam limpar o ambiente e expulsar as almas que ficaram no local, além de selar e proteger todo o quintal.

Uma vez no quintal, Dimas acendeu um maço de ervas que fazia muita fumaça e iniciou um canto que durou meia hora. Ele passou a fumaça, em todo o quintal e aos poucos escutava barulhos de correntes caindo no chão. Quando terminou, deixou a erva queimando no portão e desenhou no chão do quintal alguns símbolos, de forma discreta para que ninguém visse.

Assim que terminou tudo, disse ao casal.

“Vou embora, meu trabalho está terminado. Devo muito as amigas de vocês. Quando tinha 16 anos, meus pais me expulsaram de casa, alegando envolvimento com bruxaria, no entanto eles não aceitavam o fato de eu ser gay, morei na rua durante um mês, até que as conheci no centro espírita. Elas me acolheram, me ajudaram a conseguir um trabalho. Onde conheci meu mestre na Ordem que pertenço, estudei muito e me dedico as práticas ocultas”

“Obrigado, que Deus abençoe você” respondeu Paulo e estendeu a mão para cumprimentar. O rapaz ignorou e foi embora, sem se despedir ao menos. Entrou em seu carro e deu partida.

“Finalmente dormiremos em paz” disse Jessica.

E pela primeira vez, desde a mudança, o casal se entregou a uma intensa noite de amor.

As semanas passaram e não sentiam mais o clima pesado. Paulo foi promovido no trabalho, Jessica conseguiu um emprego novo em uma escola local como professora e suas vidas seguiam felizes.

Depois de alguns meses, Jessica acordou no meio da noite e Paulo ainda não havia chegado, achou estranho. Ligou e o seu celular estava desligado, porém quando eram duas da madrugada, ele chegou com forte cheiro de álcool e um perfume adocicado dizendo que saiu com os rapazes do trabalho. Assim se tornou uma rotina, todos os dias ele chegava em casa bêbado.

Jessica não dormia mais de forma tranquila, pois sempre que ele chegava bêbado ficava agressivo e algumas vezes chegou a agredi-la. Por conta de suas constantes faltas (algumas vezes, devido aos ferimentos, tinha vergonha de aparecer na rua), foi demitida do emprego e enquanto voltava para a casa, viu o carro de Paulo em uma rua próxima ao seu trabalho. Seguiu em sua direção e viu o esposo abraçado com uma mulher, ficou desorientada e nada disse. Foi para casa e sentada na cozinha, acendeu um cigarro, pensou, afinal nada fazia mais sentido, olhou para o poço no fundo do quintal. A polícia nunca mais voltou, disseram que fariam testes, mas, afinal “testar ossos com mais de um século?” Pensou.

Levantou-se, foi até o armário e dele retirou uma faca, foi até o poço e ficou em pé na beirada, em sua mente passava as imagens de tudo que viveu nesses últimos meses naquela casa e o quanto sua vida foi infeliz, lembrou-se das surras que levava de seu marido, da traição e seu emprego, então de forma rápida, cortou sua garganta e caiu no poço, sentia a vida indo embora, enquanto seu corpo se debatia e o sangue cobria todo o chão do poço.

Paulo, após deixar sua amante em casa, foi para o bar como de costume e bebeu até fecharem as portas, na volta, dirigindo completamente bêbado, atropelou e matou algumas pessoas que saiam da igreja após a missa da noite. Seu carro invadiu a calçada e ninguém sobreviveu. Ele tentou fugir, mas por efeito do álcool não conseguiu correr. A polícia chegou rapidamente e o prendeu.

Dimas estava junto de seu mestre, quando o noticiário anunciou na tv a tragédia que se abateu sobre a família, ele não conseguia entender o que tinha acontecido.

Seu mestre lhe disse “no dia que você me ligou contando a história dessa família e o demônio que eles enfrentavam, eu lhe disse para não se envolver, pois você não estava preparado. Mas contra minha orientação e por soberba, você foi até lá e realizou tudo que aprendeu, mas pelo visto você errou e agora o sangue dessa família está em suas mãos. Lembre-se que você ainda é um neófito e o fato de ler os livros dos altos graus, não faz de você mais sábio”

Dimas nada respondeu. Seu celular tocou, era Livia. Ele sem hesitar derrubou a ligação, ele sabia exatamente o que Lívia iria falar, porém seu orgulho e arrogância falaram mais alto. Mesmo sabendo que sua falta de experiência acabou gerando consequências ruins, a morte de um jovem casal. Seu orgulho não o deixou reconhecer seu erro e nem tão pouco admitir o peso da culpa. Repetia para si mesmo que o casal estava condenado desde que entrou naquela casa. Perdido em seus pensamentos, Dimas apenas acendeu um cigarro e vagando em seus pensamentos “afinal, preciso estudar mais. Errando que aprendemos” e continuou degustando seu cigarro. Assim que virou para dentro de casa, viu sua imagem refletida em um espelho antigo guardado na sala. Dimas estremeceu, ao ver atrás dele uma imagem que se fundia junto ao seu reflexo, um homem negro, com um terno preto e gravata vermelha, segurando a cartola na mão.” Dimas neste instante entendeu que o casal não havia sido os únicos a colher os frutos de seu ritual inconsequente, infelizmente para ele também era tarde demais.

 

One thought on “Este terreno tem dono

  1. Bianca Nascimento says:

    Maravilhoso, a história e interessante e vai te pretendo. É tão típicos finais felizes mas nesse acreditei seria, me surpreendeu. Simplesmente esplêndido.

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