Espiritualidade e Psicodelia

Para muito além de nós mesmos

“Parte do que os psicodélicos fazem é descondicioná-lo de valores culturais. Isto é o que os tornam uma batata quente política. Desde que toda cultura é uma espécie de trapaça, o doce mais perigoso que você pode distribuir é aquele que faz com que as pessoas comecem a questionar as regras do jogo.”- Terence McKenna

Meu interesse por ervas de poder começou há cerca de 15 anos, quando me mudei para um sítio na Serra da Mantiqueira. Ele começou ali no meu quintal, sobre o estrume de uma vaca: vários cogumelos dourados que cintilavam sob o orvalho da manhã. Descobri logo que eram os pequeninos de Maria Sabina, a curandeira mexicana cuja abordagem xamânica mazateca foi ensinada por anjos em um transe induzido por estes cogumelos, ingeridos por ela quando ela era somente uma criança esfomeada procurando por alimento.

A vida e obra de Maria Sabina ganhou notoriedade no final dos anos 50 com a publicação de R.Gordon Wasson na revista Life intitulada “In Search of the Magic Mushroom”, e a partir daí houve um crescente interesse sobre psicodelia que marcou fortemente a década do movimento contra cultural Beat Generation dos anos 50 e voou livre durante o Flower Power americano, nas asas de Timothy Leary, nos anos 60 aos 70. Aqui no Brasil foram influenciados os grandes artistas que surgiram na Tropicália.

Eu encontrei os tais cogumelos e comecei a estudar. E quanto mais estudei mais me apaixonei pela matéria. Eu tinha, como muitos brasileiros da minha época, um bocado de preconceitos e até mesmo um receio com psicodélicos. Até chegar ao ponto onde minha espiritualidade teria que tocar necessariamente no tal “unguento de voo”, algo tradicional para quem cavalga na noite (e que expandi em outro artigo que você pode ler aqui).

Seria muito fácil assumir, diante da proibição e guerra às drogas, que ficar “doidão” é coisa de “vagabundo”. Este é o resultado das propagandas que têm sido disparadas há décadas pelas estruturas de poder – as mesmas estruturas que temem o questionamento dos modelos culturais estabelecidos. “Pense por si mesmo e questione a autoridade”[1], já dizia Leary, O exercício do pensamento liberto destas estruturas pré-programadas pela sociedade é um perigo ao establishment. Mas o que tem vindo recentemente à luz é que a própria fundação da filosofia ocidental é bastante baseada em psicodélicos, sendo Platão apenas um dentre uma série de pensadores que relataram suas experiências psicodélicas para a posteridade.

Em Phaedo, Platão diz que foi inspirado pelos Mistérios Eleusianos, uma cerimônia onde os participantes tomavam o kykeon, uma substância psicoativa. Thomas de Quincey[2], um dos maiores comentaristas de Kant, Platão e Schelling, e que expandiu a ideia de noumena[3], escreveu suas experiências no livro “Confessions of an English Opium Eater”. Arthur Schopenhauer[4] promovia o uso de intoxicantes para propósitos criativos[5], Friedrich Nietzsche[6], em seu “The Dionysian Worldview” declara que “…há dois estados no qual o homem chega ao arrebatado sentimento de existência, a saber, em sonho e em intoxicação”.

William James[7] e Humphry Davy[8] usavam oxido nitroso (gás do riso)[9]. Jean-Paul Sartre[10] relatou o que sentiu quando tomou mescalina[11]. Michel Foucault relatou em 1970, em seu “Theatrum Philosophicum” uma das suas muitas experiências com LSD.[12] Muitos outros estão nesta lista, que apresentei aqui só com uma função: a de desligar a ideia de que quem usa alucinógenos/enteógenos é “vagabundo”.

Pesquisas recentes[13] apontam que partes do cérebro ficam menos ativas durante as experiências psicodélicas, o que é o contrário do que se espera justamente quando se experimenta um aumento de consciência. Este achado mostra a complexidade de se explicar como a mente e o cérebro se relacionam e é o cerne de um dos maiores desafios filosóficos.

O êxtase religioso induzido pela experiência visionária tem raízes em virtualmente todas as culturas do mundo e sobrevive mesmo que na ilegalidade. Várias das “religiões da terra”, como são chamadas algumas das religiões anteriores à cristandade, usam alguma forma de “intoxicação sagrada”, como a jurema ou ayahuasca (dentre algumas outras) no Brasil, a maconha na Índia, o Iboga na África, o Peyote nas Américas, cogumelos em vários países, dos EUA à Europa, incluindo seu subproduto, o LSD (derivado do fungo Ergot), etc. Todas estas substâncias têm aturado anos de difamação e tentativa de controle, e mesmo assim passam pela prova do tempo e continuam sendo usadas pelos exploradores da mente, os psiconautas, as bruxas, os xamãs e neo-xamãs.

Ao mesmo tempo, é sempre bom alertar: psicodélicos precisam ser abordados com reverência e cuidado. Em um contexto amoroso, eles podem ser remédios para a alma, mas há uma porção de precauções físicas e psicológicas que as pessoas devem tomar antes de se aventurar neste mundo. Nas mãos erradas com intenções erradas, com orientações erradas e configurações erradas, psicodélicos são extremamente perigosos. Acredito ainda que a maior preocupação dos detentores das “medicinas da floresta” seja justamente o controle de danos, mais do que um protecionismo de algo que se mantém pelos seus próprios pés. É importante que estas substâncias sejam liberadas e estudadas sem preconceitos.

Com a nova alta nos assuntos da Psicodelia que estamos experimentando atualmente, existem aqueles que vêm o assunto sob a ótica maniqueísta de “profano x sagrado”, mas diante da experiência este argumento cai por terra, afinal, profana é a atitude numa vida que é, sem dúvida, sagrada.

[1] Timothy Leary’s track on Sound Bites from the Counter Culture (1989)

[2] 1821

[3] Uma realidade além de nossa experiência, inacessível aos meros humanos.

[4] 1788 – 1860

[5] “Pelo vinho ou ópio podemos intensificar e elevar consideravelmente nossos poderes mentais…” – Essay on the Freedom of the Will, ch. III

[6] 1844 – 1900

[7] 1842 – 1910

[8] 1778 – 1829

[9] “Oxido Nitroso e éter, especialmente oxido nitroso… estimula a consciência mística em um grau extraordinário… No transe do óxido nitroso temos uma revelação metafísica genuína…” – The Varieties of Religious Experience, ch. XVI

[10] 1905 – 1980

[11] Sartre by Himself, pp. 37–38

[12] “Podemos ver facilmente como o LSD inverte as relações de mau humor, estupidez e pensamento: muito rapidamente ele elimina a supremacia das categorias e então rasga o chão de sua indiferença e desintegra o sombrio espetáculo da estupidez; e apresenta essa massa unívoca e acategórica não apenas como variável, móvel, assimétrica, descentrada, espiroide e reverberante, mas fazendo com que ela surja, a cada instante, como um enxame de eventos fantasmagóricos.”

[13] https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC3277566/

 

Créditos da imagem:
Paul Sale / Design Pics

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *