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Ensaios: O eremita e a sua ordália

Não há outro assunto a não ser a vacina que se aproxima e nos mostra uma luz no fim do túnel depois de um ano inteiro de revoltas, crises e lágrimas. Há um sentimento esperançoso de que no fim do dia iremos ver tudo como era antes, iremos olhar nos olhos uns dos outros, abraçar e sorrir pra mostrar os dentes como disse Charlie Brown Jr. Mas será que vamos mesmo? Será que nós ainda somos as mesmas pessoas que éramos antes de toda essa pandemia? E o mais importante, será que aprendemos mesmo o que deveríamos?

Cansei dos inúmeros discursos do meio místico onde se dizia que deveríamos agradecer os ensinamentos do COVID, que ele havia sido uma benção; de que como muitos já sabiam o que estava por vir por possuírem poderes dignos de uma produção hollywoodiana e sobre como deveríamos orar pela terra. Enfim, eu cansei da hipocrisia e da prepotência dos místicos do mundo de hoje; então, o meu primeiro texto de 2021 será sobre nossas almas, o que restou depois de um período bem complexo que ficará na história do mundo.

Em 2020 aprendemos sobre nós para com o mundo, tivemos que silenciar o barulho externo de uma vida urbana e olhar para o que de fato estava ao nosso redor; fomos ensinados, ou forçados, a ficarmos confortáveis com o quadrado que chamamos de moradia e a fazer disso nosso lazer, nosso porto seguro e nosso ofício, tudo no mesmo lugar. Digamos, então, que o Enforcado nos forçou em sua jornada e aprendemos a ver o nosso ambiente sob todas a lentes e ângulos possíveis. E assim sobrevivemos ao ano mais difícil da nossa geração. Nossa realidade virou de ponta cabeça para nos obrigar a olhar tudo minuciosamente, a vida se fez entender e nosso valores foram questionados; essa foi a ordália do Enforcado para conosco; e alguns de nós de fato se saíram muito bem.

A astrologia contemporânea está dizendo que esse novo ano terá uma regência venusiana e todos os assuntos acerca de beleza, autoestima e amor próprio estão bombando pelas mídias. Mas não nos esqueçamos que a força mais presente nos céus ainda é Saturno e sua interminável jornada de estruturas, abalos e recomeços. Com essa premissa podemos dizer que esse ano o Eremita irá impor a sua ordália para provarmos nossa valia perante a vida e à natureza. Quem somos nós ao olharmos no espelho? O reflexo nos encarando de volta é o reflexo que nós esperávamos? Nos reconhecemos naquilo que estamos vendo? Nos orgulhamos daquilo que estamos nos tornando?

A lanterna que sempre segue na mão do peregrino está sendo posta em bom uso? O autoconhecimento está sendo empregado com sinceridade ou apenas como enfeite de belos discursos externos? O manto cinza surrado está sendo bem interpretado? Humildade e mediocridade jamais serão a mesma coisa e consequentemente será que entendemos que somos mais uma formiga no formigueiro e se quisermos ser uma potência teremos que aprender a conviver em harmonia e comunidade?

E assim como o Eremita, a minha figura de linguagem para ilustrar Saturno em aquário; será que iremos nos esforçar o suficiente para alcançar a sabedoria e ao mesmo tempo em que compreendemos como preservar a independência convivendo com humildade e sincronicidade com o outro?

Que o mundo daqui em diante possa ser grato pelas melhorias que estão sendo apresentadas, mas que esse sentimento de esperança sirva de energia para continuarmos a melhorar e não um incentivo para voltarmos a velhas posturas que quase nos levaram à destruição. Que finalmente possamos fazer de Saturno um aliado, do Eremita um professor e de Vênus um modo de se viver.

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