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Encontros com a bruxa: a bruxa da mata

Justo eu, que te procuro a vida inteira, quantas vezes já não te encontrei em momentos em que eu menos esperava? Na teoria a gente sempre espera que esses encontros sejam especiais, rebuscados e mágicos, mas quando olho para trás percebo que foram momentos curiosos, oníricos e até desavisados; pelo menos nos que pude vislumbrar um pedacinho que fosse de suas faces. 

Às vezes bastou um olhar, uma sensação, uma palavra, e esses momentos marcaram. Esse é o primeiro de três pequenos causos: frames pontuais que no fantástico ou na banalidade que se apresentaram me catapultaram para novos caminhos interiores. Três breves encontros, com três misteriosas mulheres e suas principais fases.

Crescente

– Pode falar se você estiver mentindo, tá bem?

Eu balançava a cabeça dizendo que não. Eu não estava. Eu realmente não estava, mas experimentava naquele momento o desconforto de sentir pela primeira vez  aquela estranha sensação. Porque ela duvidava de mim?

– Ela me deu um presente!

Ela parecia preocupada e eu não conseguia entender o motivo.

– Ela é boazinha! – disparei na intenção de sossegá-la.

 

Tudo aconteceu há muito tempo atrás e viveu em minha memória como um conjunto onírico de imagens e sensações. Talvez tenha alguma coisa a ver com o fato de que quando a encontrei pela primeira vez ainda sequer sabia escrever o meu próprio nome. Era uma manhã de calor, como todas as outras naquele pedaço de país distante, quente e pouco habitado. Hora do recreio. Eu andava sozinha pela borda da floresta quando vi algo se mexer para dentro da mata. Tive medo, mas a curiosidade falou mais alto e em um lapso de coragem atravessei a linha das árvores: e lá estava ela, de pé olhando para mim. Era jovem, tinha a pele morena, os cabelos escuros e lisos, usava pouca roupa e parecia não se importar nenhum pouco com isso. Tinha penas decorando seu corpo, como nas fantasias que às vezes vestiam na gente na escola. Ela parecia livre e alegre. Me viu chegar e fez uma espécie de reverência engraçada: 

– Salve, pequena. Em mim você tem uma amiga na floresta.

Ela também sabia ser séria quando queria. A palavra amiga me fez fechar a cara. Respondi tentando mascarar meu encanto:

– Você não é uma amiga. Você é uma estranha!

E eu sabia que não deveria falar com estranhos.

– Sou mesmo? Olhe bem! Observe com cuidado…

Mesmo contrariada, olhei bem fundo em seus olhos de jabuticaba. Não sei bem o que procurava, talvez uma espécie de garantia de que poderia confiar nela. Me levou alguns segundos para encontrar, porém – inegavelmente – lá estava! Aquela sensação de pedacinho de casa. 

– Tem razão! – disse eu abrindo novamente o sorriso – Tinha esquecido! É uma amiga! Então posso chamar meus outros amigos também?

Ela refletiu por um segundo.

– Não sei que bem isso te faria… Pode guardar só para você?

Abaixei a cabeça, desapontada. Qual era a graça de ser amiga de uma índia de verdade se eu não poderia contar para ninguém?

Ouvi alguém chamar meu nome de longe. Eu precisava ir, mas antes que pudesse tomar qualquer atitude, ela disse:

– Vá, eu volto! Até mais, pequena amiga!

E saiu mata a dentro.

 

No dia seguinte, no mesmo horário, estava de volta na beira da mata esperando a minha índia voltar. Dessa vez, apesar do conselho dela, eu tinha levado reforços: colegas de classe, meus favoritos. Quando ouvi algo se mexendo na folhagem, guiei o grupo alguns metros para frente e paramos em uma área já bem encoberta pelas árvores. E lá estava ela de novo. Ela sorriu quando viu as outras crianças. Se ajoelhou na minha frente e manteve os olhos na altura dos meus enquanto dizia:

– Você, pequena, tem um certo dom para encrenca.

– Mas eles não acreditaram em mim! – disse apressada, tentando um pedido de desculpas.

– E muitas vezes ainda não vão acreditar, você vai?

Ela pegou algo do solo. Abriu a mão e me mostrou. Era muito pequeno, parecia um inseto mas tinha um brilho estranho. Aquilo saiu rastejando de sua mão e passou do braço dela para o meu iluminando seu caminho até a minha boca. A índia balançou a cabeça – me encorajando – e eu, com a inocência de uma criança e a certeza de quem sela um pacto, engoli o bicho inteiro. O sino já tocava e as outras crianças se viravam para correr de volta para o pátio. Ela olhou nos meus olhos uma última vez. Tive a sensação de que pedia para que eu não me esquece-se dela.

 

– Eles disseram que não teve nada. Nenhuma festinha nem nada! E que ali naquele bosque não entra ninguém. Mas sabe o mais curioso? Conversei com as mães das outras crianças e algumas disseram ter visto essa índia também… estranho né?

Ela falava com pressa enquanto ele fazia a barba. Seu rosto estava coberto de espuma branca e ele reagia interessado a cada parte da história.

– Uma joaninha!

Entrei gritando pela porta do banheiro, empolgada por ter recuperado um pedaço de uma memória que agora já parecia ter saído de um sonho. 

– Ela me deu uma joaninha, mãe! Uma joaninha que brilhava!

Ela interrompeu a conversa e se virou para mim.

– E cadê essa joaninha filha?

Minha fisionomia de empolgação foi aos poucos se transformando em um rubor envergonhado.

– Eu… comi.

Os dois se olharam e depois caíram na gargalhada, relaxando um pouco a atmosfera de preocupação que antes tanto me incomodava. Ela me pegou no colo, me abraçou e me disse que estava na hora de ir para cama. Já era tarde. Me deixei embalar em seu carinho, mas ainda assim uma lágrima solitária fez seu caminho dos meus olhos para os ombros dela. Algo havia despertado dentro de mim, algo de infinitos potenciais e de prováveis desencantos.

– Eu acredito sozinha. Murmurei baixinho me lembrando da índia e tentando assegurar de que seria capaz de manter a minha palavra.

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