Deus, Deusa, deuses… Para que mesmo?

Diz-se que a crença numa força criadora superior é algo codificado em nosso DNA. Que sempre tenha sido assim a partir do momento em que o ser humano observou fenômenos que ele não conseguia explicar. Deuses que justificassem a fúria dos raios, dos vulcões, dos terremotos, desertos e furacões. Deuses que tivessem piedade dos humanos, que lhe enviassem chuvas, filhos e a sorte de boas caças e colheitas.

Da ideia destes deuses primais surgiram os primeiros mitos e com eles as primeiras regras de convívio social. No entorno das fogueiras os seres humanos trocavam estas informações do que podiam observar na Natureza, a principal expressão da vontade divina.

E como a Natureza carregava – e ainda carrega – mistérios!

Por mais que a ciência tenha avançado a limites que em outros tempos seriam considerados milagrosos (e até mesmo heresias), um observador atento da Natureza sempre se depara com algum fenômeno inexplicável e imprevisível. Há sempre um espaço para o genuíno maravilhamento, que carrega a sensação de termos testemunhado algo oculto e vislumbrado um pedacinho da matrix divina.

O processo de materialização desta experiência pela palavra ou até mesmo pela arte é um processo tremendamente complicado, pois nenhuma criação humana vai expressar exatamente o que foi presenciado com a mesma grandiosidade. Pelo contrário, sempre vai refletir a experiência individual do que é milagroso e assim, confinado ao reino do interpretável pelo humano. E esta materialização sempre vai tocar em algo que já está lá.

Explico: Se estou consumindo um gomo de limão na sua frente, sou capaz de fazê-lo salivar porque você conhece o limão e você consegue associar o limão com sua reação na boca. Contudo, se estou consumindo uma fruta que você nunca experimentou, o máximo que despertarei em você é a curiosidade.

Deus do deserto no Brasil?

Boa parte das pessoas já não olha sequer para o céu para contemplar a lua e as estrelas, ou param para ouvir o canto das cigarras e dos pássaros, ou sentem o cheiro da terra molhada após a chuva refrescante. E olha que estas são experiências geralmente gratificantes… eu nem falei daquelas que geram outros sentimentos menos desejáveis que justificariam este distanciamento. Calçada, gente, asfalto, gente, celular, poste, gente, prédio, tv, celular. Observe seu dia, observe para onde os seus olhos estão olhando. Em que fase da lua estamos? Você sabe?

A civilização está se removendo cada vez mais da Natureza e assim, ela procura os “milagres” dentro dos próprios humanos: nas regras sociais, nos desvios e correções de comportamento, na sorte e no azar próprio ou do próximo. Os deuses se apequenaram tanto que hoje são responsáveis em fiscalizar o traseiro alheio, e se prostituíram tanto que precisam de testemunhas, profetas e despachantes. De gente gritando para convencerem-se ainda mais. De gente que precisa de um décimo da miséria dos pobres para fazer o milagre do carrão do pastor.

Deuses tão pequeninos e tão cheios de picuinhas vaidosas que nos apartam de tudo e de todos. Deuses que nos mantém infelizes porque não são capazes de nos amar quando estamos contentes.

Quando o divino regride ao tamanho do que o homem pode conceber, ele deixa de ser milagre. Ele é previsível, explicável e replicável. Deixa de ser Mistério. Passa a ser Ciência. Coisa de cão de Pavlov mesmo.

O milagre alimenta a fé e a fé, o milagre. E o milagre é Mistério.

A promessa de paraíso ou inferno pós morte é a neura do humaninho que não parou para pensar que se depois da morte não há carne, não haverá dor física nesta ameaça de se queimar no mármore do inferno. Observando a evidente mudança climática ninguém vai precisar morrer para fritar facilmente num mármore, o que pode ser bem pior do que virar alma condenada ao inferno. E oras, se temos do lado de cá um paraíso (por enquanto) para experimentarmos com todos os sentidos, porque haveria de esperar perdê-los para os vermes que irão consumir nosso corpo quando partirmos para o outro lado da vida?

Por quê precisamos de mais gente castrada? Por quê estamos incapazes de aceitar a alegria e a sorte alheia? Por quê precisamos mudar o outro se falhamos miseravelmente em nos mudarmos? Com o que estamos mesmo perdendo tanto tempo com…os outros?

Deus, Deusa, deuses… Perguntemo-nos antes, para que mesmo?

Céu ou inferno é o que estamos fazendo. Aqui e agora. Com cada pensamento, palavra e ação. Em aceitação ou negação.

Que tal voltarmos nossos olhos novamente à nossa volta? Que tal retornarmos à realidade edênica da Natureza, onde luz e sombras colorem os cenários para os Mistérios mais profundos? Retornemos à glória da divindade expressa no todo, encontremo-nos na fogueira, novamente, para contar.

Voltemos ao básico, por favor.

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