De vermelho e negro, vestindo a noite, o mistério traz…

 

Saudações, crianças!

O titio continua se divertindo muito na terra de vocês!

Um dia desses, bateu uma vontade de molhar a garganta e arejar um pouco a cabeça, pois andara mergulhado em minhas pesquisas incessantes para encontrar a legítima cartomancia brasileira e, confesso, estava muito frustrado. Frustradíssimo!

Nas muitas mãos deitadoras de cartas que conheci, deparei-me com baralhos de Tarô, do Petit Lenormand, das Sibilas Italianas e até mesmo do Kipper alemão, mas nada de encontrar o verdadeiro baralho brasileiro. Seria possível que esse povo tão místico, tão mágico, não tivesse desenvolvido o seu próprio método cartomântico? Essa pergunta me fazia a cabeça latejar e tirava meu sono…

Não conhecendo quase ninguém nas bandas de cá, saí andamento a esmo à procura de um lugar para sacudir um pouco o esqueleto e me livrar, ainda que por algumas horas, dessa minha obsessão. Andei por becos e vielas por quase uma hora até que, numa rua estreita e escura, ouvi o som de tambores. Não era nada parecido com o jazz de New Orleans, onde nasci e me criei, mas certamente estava a ouvir o autêntico samba brasileiro. Ou não…

Fui entrando na casa, cujas portas estavam abertas, e ninguém pareceu se estranhar com a minha aparência, minhas roupas escuras e, confesso, um tanto sinistras… A sala principal estava iluminada apenas com velas nas cores preta e vermelha. O som dos tambores (depois soube que são chamados de atabaques) era ensurdecedor. Havia homens e mulheres dançando e dando gargalhadas gostosas. O clima era de festa, mas parte dos presentes, ao invés de dançar e também rir à solta, estava sentada em bancos, cadeiras e tamboretes, como que a esperar algo ou alguém.

Logo me dei conta de que estava sendo celebrada alguma espécie de culto e as pessoas que riam e brincavam encontravam-se em transe profundo, exatamente como os chevals ou chwals do Voodoo sulista que me era tão familiar. Alguns dos homens em transe vestiam capas pretas ou vermelhas, portavam cartolas e fumavam charutos, enquanto as mulheres trajavam belos vestidos rodados, cujo colorido não passava de variações do mesmo padrão preto e vermelho. E tudo regado a muita bebida!

Sem saber como me comportar, coloquei-me num canto e me pus a acompanhar o ritmo animado com palmas. Aos poucos, fui me sentindo à vontade, em casa mesmo eu diria, até que uma bela mulher fez um gesto para que eu me aproximasse. Eu a ajudei a servir-se de champanhe e acendi o seu cigarro, indagando o nome daquela que me oferecia tamanha honra. “Maria Rosa”, ela me respondeu, “e estou aqui para lhe mostrar o que tanto vem procurando.”

Quando dei por mim, a luz de um novo dia começava a brilhar muito timidamente e, um a um, os espíritos foram se retirando dos corpos exaustos dos seus cavalos, inclusive a minha bela senhora, que, ao partir, deixou atrás de si apenas uma moça fatigada e nem um pouco interessada no meu papo. Mas eu aprendera os mistérios que vinha buscando e é a ela, a rainha da rosa, que ofereço estas lembranças e as que se seguirão.

Ela passara a noite me ensinando um sistema de cartomancia que praticara quando seus pés ainda pisavam esta terra, sem ter que tomar emprestado um corpo vivente. Memórias de um Brasil que ainda tinha um imperador, onde as mulheres não tinham vez, nem voz, mas no qual ela fez o que bem quis, cuidando sempre do próprio nariz. A nenhum homem pertencia, pois nascera dona de si mesma, mas esquentava as camas de quantos marmanjos quisesse. Preceptora de meninas bem nascidas, permitia-se, à noite, correr macumbas e calundus, candomblés e canjerês, aprendendo as artes feiticeiras e aperfeiçoando a arte de deitar as cartas, que ela usava não somente para complementar a renda, mas, sobretudo, para aconselhar suas clientes a tomar o mesmo caminho de liberdade que ela trilhara desde sempre.

O carteado de Maria Rosa era formado por 40 cartas do baralho comum (naqueles tempos, conhecido como baralho francês). Excluíam-se as cartas 8, 9 e 10 de cada naipe, preservando-se as de Ás a 7 e a corte. Esse método, contou-me ela, era difundido em segredo, de boca a ouvido, nas cozinhas e nas salas de costura. Seu sucesso devia-se à facilidade com que os significados das cartas podiam ser rapidamente rabiscados num pedaço de papel, no verso de um envelope ou mesmo num rasgo de tecido. Ao contrário dos sistemas cartomânticos simbólicos, baseados em figuras e imagens, esse método era semântico: palavras-chave muito curtas que exigiam perícia e criatividade do adivinho para se abrirem numa profusão de significados e formarem frases, períodos e histórias completas.

Mas como sabia que eu não me contentava com pouco e gostava de virar e revirar tudo o que me caía nas mãos, antes de partir, ela me deixou uma chave para os meus aprofundamentos futuros, formada por tão só duas palavras: São Cipriano.

Na semana seguinte, um novo mundo se abriu aos meus olhos. Descobri que havia uma autêntica tradição feiticeira no Brasil, preservada e difundida pelo nome desse homem da antiguidade, meio santo e meio diabo, cujos feitos e façanhas conferiam à sua vida um sabor de lenda impossível de se separar da realidade. Padroeiro de uma tradição ibérica de feitiçaria, São Cipriano chegou ao Brasil juntamente com as rezadeiras, parteiras e feiticeiras de Espanha e Portugal já no século XVIII. Ou até mesmo antes disso. Muitos e muitos livros atribuídos ao santo-bruxo foram impressos às escondidas e ainda hoje são encontrados muito facilmente nas livrarias das mais populares às mais classudas. Orações, receitas populares, magias simpáticas, feitiços tenebrosos, pactos, tudo isso e um pouco mais pode ser encontrado nos livros de São Cipriano, que sempre se fazem acompanhar de um método ibérico de cartomancia, que há séculos tornou-se também bem brasileiro: a cartomancia cruzada de São Cipriano. Uma beleza!

Ainda assim, as cartas benditas e malditas do Santo da Cabra Preta estão sendo esquecidas… É mais chique jogar tarô, abrir a mesa do Lenormand pronunciado com um sotaque bem francês ou usar um Kipper novinho em folha, importado diretamente da Alemanha. O titio, que vem de fora e consegue olhar as coisas sob uma ótica estrangeira, tem a impressão de que vocês, brasileiros, não valorizam a riqueza cultural da sua própria terra e estão sempre a esticar o pescoço somente para o que vem de fora…

Mas não tem importância. Nesta e nas duas crônicas que se seguirão, ensinarei tudinho sobre a cartomancia de São Cipriano, na esperança de retribuir tudo de bom que aqui aprendi e mostrar-me grato à dama da rosa que me ensinou sua arte.

Então, mãos à obra! Se quiser aprender, a primeira coisa a fazer é arranjar um baralho comum, barato e, preferencialmente, de papelão. Arranque uma folha de um velho caderno ou escreva nas próprias cartas os seus significados. Pense neles. Brinque de fazer associação de ideias e tome nota de tudo que lhe vier à cabeça, pois essas palavras soltas são como frutas desidratadas que precisam ser colocadas na água para assumirem sua real dimensão.

Na próxima vez que eu escrever a vocês, vou aprofundar esses significados, ensinar o método de jogo e como você poderá consagrar seu baralho se assim quiser… Mas, não se iluda: se a sua intenção é mergulhar nesses saberes, saiba que terá de fazer do Santo da Meia-Noite seu amigo e companheiro!

 

Arte por @vivoquadro

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