Corona, um curioso limiar

Coincidências são aquelas coisinhas estranhas da vida. Alguns acreditam que sejam portentos de augúrios ou mensagens do subconsciente. Outros descartam qualquer hipótese como fantasiosa. Mesmo assim é inegável o poder de nos intrigar.

O Coronavírus foi chamado numa primeira fase de 2019-nCoV, e não consegui descobrir quem foi que criou o nome popular “Corona”. Logo na confirmação da pandemia em território nacional cheguei a acompanhar atentamente a rádio estatal (sou dessas) e às vezes o repórter dizia “a corona” e outras “o corona”. Essa é uma questão interessante quando em nossa língua temos que lidar com os gêneros, e relevante se observarmos a atribuição recorrente ao que é negativo como automaticamente de qualidade feminina.

Levou uns dias para que achasse também pitoresca esta coisa toda, porque me fez lembrar a tradução imediata à palavra “corona”: coroa. Um símbolo máximo da mulher.

Alguns podem até discordar disso, afinal, quantas representações vimos de mulheres coroando homens? O que mais crescemos lendo e vendo foi uma sucessão de homens (?) em túnicas pomposas (?) portando o símbolo máximo da “santa madre igreja”, um símbolo cooptado e eternizado na história escrita e na cultura do populacho, que a tudo aplaudindo, aceitou se converter em rebanho do pastor máximo de Roma.

Subjugaram o natural, o selvagem e carnal porque nenhuma mulher possível é pura como Maria, e porque ninguém sofre mais bonito do que ela. Modelão hein? Foi aí que nos tiraram a coroa para botar na santa que sofre ali, fria e calada, cercada por eunucos em vestidos.

Mas vamos um pouquinho adiante para pesquisar sobre este símbolo e formar uma opinião a respeito, me aguentem mais um pouquinho.

A coroa foi frequentemente associada com “vitória”, desde a coroa de louros de Apolo à coroa maçônica (representando vitória sobre a morte). Então voltemos a Apolo para lembrar que a coroa era a ninfa Dafne, que preferiu ser transformada pelos deuses do que ser estuprada por Apolo. Poxa Adão. Não é não!

Este mito se relaciona à Corona Australis (a Coroa Austral), que mantém outro mito bastante curioso sobre Semele, amante de Zeus e mãe de Dionísio. Dionísio não só resgata sua mãe do mundo dos mortos como coloca a Coroa Austral no céu como homenagem à mulher que o gerou. A coroa é da mamãe. Simples assim.

Interessante também é notar que o termo para parir um filho seja justamente “coroar”. Uma mulher “coroa” um novo ser humano com uma dor equivalente a vinte ossos quebrados. A coroa é nossa, sim senhor! Ganhamos o direito à ela a cada ser humano que encarna. É nosso limiar de carne e sangue. Tomem essa na cara, meninos.

Vitória! Já podes respirar! Você está vivo!

Penso que estamos num limiar estranho agora. Corona está vindo para ceifar e para lembrar que o mendigo e o rei nasceram de uma mulher. Talvez saiamos da quarentena mais conscientes do desequilíbrio causado pelo roubo deste símbolo, desta trindade onde a imagem da mulher foi substituída por uma ave.

Ok. Sei que peguei pesado com a turma de Roma, mas acho que é o mínimo que as pessoas fariam se soubessem de toda a história feia que rolou por lá e por todo mundo graças aos pontífices de Roma. Hoje em dia dá para pegar mais leve porque o atual Papa pelo menos não é um completo babaca. Eu até simpatizo com ele. Mas talvez por ser menos babaca é que tenha tantos babacas tentando tirar ele para colocar outro babaca-mor mais afinado com a babaquice retrógrada.

Voltemos ao assunto: Em geologia planetária, uma “corona” é um acidente geográfico com forma oval. O que será que ele te lembra?

Em tempo, é relevante que a palavra “coronavírus” perca o gênero novamente, mas agora que me encantei com o retorno deste símbolo, já começo a achar que tanto faz. O nosso lucro a gente já levou.

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