Auto observância

Aturar a si é algo que deveria ser mais praticado entre todos, não como uma lambuza e brisa passageira, mas como uma forma de análise da mente e do que teu corpo pede, entendendo seus processos e caminhando com suas forças e fraquezas. Infelizmente tal instrumento de poder vive muito constantemente na tendência do outro; de olhar em nós, de avaliar o que somos, de afirmar o que deveríamos ter firmado muito antes de sair e ganhar vida aos demais corpos. Porque deveria ser do outro a obrigação de nos elucidar, se muitos de nós não sabem nem para onde estão andando, ou pior, talvez não saibam nem quem caminha consigo e ao seu lado?

Era tarde quando fui deitar por esses dias de outubro, não dormi. Não conseguia pregar os olhos e era ridículo o quão cansado eu estava, mas por situações que ignorei deixei acumular no lombo histórias de outras pessoas que nada tem a ver comigo, além das minhas próprias, e o peso disso pode ser leve, ou muito inconveniente quando se está só em um lar onde apenas tu descansa. Eu tive que lidar com todas essas informações. Veja bem, eu não fui correndo me banhar para purificar o resto de energia ou seja lá mais o quanto de erva pra borrar e limpar o que estava impregnado, não. Eu olhei para o que tinha, e procurei suas fontes. O simples quase sempre funciona quando tu não está fugindo do que fez e/ou acumulou. Entrar no seu limbo é pra quem tem estômago, e se foi algo que tu criou, aceite tua criança e saiba se deve mata-la ou alimentar em seu ninho – quase sempre tuas entranhas -.

Observar é ter e dar poder para algo naquele momento. É olhar para o que tem e não fantasiar a realidade. É renunciar (muitas vezes) algo que tu passa muito tempo ignorando. Renunciar a sua preguiça, renunciar o seu medo, renunciar um trauma, e encarar aquilo como deve ser observado, puxando pra realidade o que de fato ela é, e entendendo até onde a criação foi sua, ou implantada em ti. Olhar para dentro é um exercício de poder, pois é um daqueles exercícios onde ninguém fará por ti, ninguém irá pegar a tua mão e te guiar dentro da tua floresta, mas se algum dia o fizerem, pense se isso é poder, submissão ou fragilidade.

Entenda, não falo aqui de meditação, de acalmar a mente, de inspirar e relaxar a musculatura, ou observar o seu percurso sem interagir com ela; São praticas bem distintas, observar a si é, em um dado momento, fazer algo a respeito das tuas introspecções, das tuas fugas. Eu sei que tu alimenta teus demônios, não preciso ser um grande oráculo para perceber isso. É seguro deixar aí dentro, não é? É menos caótico quando se abafa uma guerra interna, até que não há mais sangue para derramar e teu corpo adoece. Faz sentido isso pra ti? Eu sei que faz. Ninguém é tão resolvido ao ponto de não travar suas confusões no subconsciente. Ninguém. Essa é uma das grandes dádivas de Ser Humano, é um brilho maravilhoso perceber um abismo e várias florestas nesses seres que borbulham! Quem os trás para fora, com seus símbolos e êxtase, é um bom caminhante (ou pelo menos um aceitável). Quem ainda não o consegue, permanece mais um dentro da grande massa, o que é normal, não há tantos por aí que assumem seus riscos. A loucura trabalha lado-a-lado com o caminhante, errante ou andarilho.  Olhar seu mundo é um ato de respeito a tua carne!

Vá pelo básico, seja no teu banho sentado enquanto rios são gastos batendo em queda livre na tua cabeça, seja andando de pés descalços pela tua casa, mergulhando no mar ou deitado na cama, não importa. Voe para dentro! Seja bicho, seja sombra ou chorume, ande no teu jardim e cave tuas tumbas em busca de respostas. Pare de fugir, assuma quem você é, lide com as tuas fraquezas e as torne teu poder pessoal, saiba buscar em si a própria erva de passarinho, seja a sua própria foice e ceife o que precisa ir, há muito mais para alimentar do que um sofrimento que nada vai te ajudar depois de anos que foi sofrido, não acumule ervas daninhas em teu corpo! Ceife o que for necessário, dói no começo, depois é libertação. E não conheço gozo mais psicodélico do que a liberdade de exercer quem se é.

 

Imagem: Zdzisław Beksiński

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