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As lições do velho

Pise devagar no passo do velho e acompanhe esse ritmo firme, sereno, mas decidido, de quem sabe aonde quer chegar. Anciões e ancestrais caminham sem pressa, pois quem tem nos ombros o fardo da sabedoria dança ao sutil compasso em que oscilam veneno e cura, praga e benzimento, acolhimento e remorso, enfrentamento e dissimulação.

Silêncio! Silêncio que ele está entre nós! Silêncio, pois quem fala é quem sabe! Silêncio porque há vozes demais cheias de nada e aprendizado o bastante no eco que reverbera ao fundo do crânio quando já não há som algum.

Aproxime-se apesar do medo, mas não sem ele. É sábio temer o desconhecido e há no mundo diversas questões que não devem ser desveladas. Um segredo pode ser concedido ao ouvido, mas o mistério é o que é pois permanece inalcançável. Ele não corre, mas está sempre adiante. Certos nomes são impronunciáveis. Certas visões são inatingíveis. Certos desejos são irrealizáveis.

Contam aqui e acolá que somente terror há para as vistas que espreitam sob o manto de palhas. Quem vê o que não deve ser visto morre, queima, sofre. O sol que a tudo ilumina não admite ser diretamente contemplado. A lua que todo o tempo seduz e convida à admiração nunca mostra-se por inteiro. Embora nem tudo caiba aos olhos, e menos ainda à língua, não subestime o poder que há nos ouvidos. Escuta. Caminha com o velho no ritmo lento de sua procissão e inclina os ouvidos sobre o seu manto ressequido e dourado. O uivo dos cães, seus ganidos ou rosnados, não abafam as duras lições que estes lábios pustulentos sussurram. Quem desde cedo convive com a dor aprende com ela. Ouça! Neste exato momento, o velho está falando.

SOUL OF AFRICA MUSEUM COLLECTION
Photo and copyright by Markus Matzel / SOA Museum
Umbanda Lazarus figure made in plaster with a fiber robe from Brazil.

 

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