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As lições do rei

Encontre-me de pé sobre a tênue linha da aparente contradição. Saiba que os ventos são mais ásperos aqui nas grandes alturas. Escute o ranger desta corda bamba e respire com calma. Os que perseguem a escalada tendem a ignorar a tentação da queda. Deixe que o peito incline-se contra o temporal e descubra que o equilíbrio nasce da tensão. Não há coroa que não tenha espinhos ou pés que não tenham nascido descalços. Não há sólido e elevado monte que não tenha sido gestado nas profundezas fluidas do mundo. Não há leve grão de areia que não tenha sido gerado de maciços rochedos. Não há endurecido coração humano que não tenha sido tenro. Não há brando peito que não possa enfurecer-se. O Tempo – sublime alquimista – tudo mastiga, tudo devora, tudo transforma e ensina. Os pratos podem equilibrar-se uma vez mais.

Enquanto reajusta-se, o rangido desta balança sussurra controversos conselhos. Prisioneira das perspectivas, a visão humana compreende apenas que há dois lados na moeda. E no entanto, de seu trono, o rei deve compreender o quadro todo. A tentação do orgulho é um doce veneno ardendo nas veias, a extrema exigência de si mesmo é quem ecoa ao fundo do crânio coroado. Aceita que és filho do tempo, aceita que o erro virá, aceita que tens mais a ouvir e aprender do que pensas saber executar, só então teu sangue descoagula.

Autoridade é este manto do qual tu não podes vestir-se, mas que podem vestir a ti. Que nunca confundam-na com o Poder. Ela é dada, ele é cultivado. É preciso saber despir-se da Autoridade. O Poder, uma vez aguçado, nunca será perdido. Aos que perguntam-se, pode haver um sem o outro? Bem, a cretinice de minha alma retruca com outra questão: pode Xangô reinar sem Obatalá?

Esta moeda que nos aprisiona as vistas, tome-a à altura dos olhos e permita-a girar. Nada movimenta-se na rigidez, nada flui na inflexibilidade. Deixe que a coisa corra, deixa que troque de pele, deixe que mostre a outra face, a face de dentro. Nenhum veredito se dá com sangue quente, nenhuma justiça nasce do orgulho ferido. A orelha de Obá é testemunha das minhas palavras.

É que a tirania é a corrupção dos altos. A ilusão da existência de qualquer altitude é a base desta corrupção. Se o lavrador não julga-se melhor que a terra só porque empunha o ancinho, por que um rei julga-se melhor que seus súditos enquanto verga seu cetro?

Somente no alto é que se experimenta a vertigem. Apenas quem muito sobe é capaz de cair. Os dois gumes do machado estampam a força desta dualidade e cintilam com a dualidade desta força. O reflexo destas lâminas espelha as duras verdades desta posição: de um lado, a imposição da vontade. Do outro, a hierarquia que mil corações legitimam. O rei samba entre as cortantes faces de seu domínio. Enquanto sua maior fragilidade oculta-se nas fendas entre as rochas, na dura escalada do saber impor-se, paira acima de sua fronte as sombras das asas daquelas inomináveis Senhoras que permitem que ele permaneça de pé. 

Enquanto cobiçam este lugar de regência, confundem ônus com bônus, encargo com privilégio, apunhalam-se os irmãos da aldeia, todos presos em seus sonhos de grandeza. Quando despertam, nada mais resta sobre o qual reinar. Os ouvidos tapados para a sabedoria dos que vieram primeiro caminham junto com a boca inquieta. Ela tem vergonha de assumir o que não sabe, ela brada que é a mais justa de todas, ela come o coração de Yemanjá, ela revela cada excesso, ela cobra o preço da forca. É na resignação, porém, que a coroa do Aláàfin ascende verdadeiramente. Depois de exceder no viver, é preciso aprender a morrer. Kawo Kabiesile!

 

Imagem – Xangô da coleção Busto de Orixás do Atelier D’Oxê. Peça feita em madeira de lei, totalmente entalhada a mão.

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