As lições do ferreiro

 
“Você está fazendo, é mais do que antes. Continue errando até acertar”. Disse o ferreiro e deu-me as costas retornando ao trabalho. O treino mágico andava falhando. Quinze dias parado diante de uma vela acesa, sem piscar, sem mover-me, observando a chama até o alarme soar. Esta é a lição. O maior desafio é conseguir realizar sua simples tarefa um dia após o outro. Caminhei três dias. Falhei. Retornei a zero. Mais dois dias. Falhei. Retornei a zero. Quando penso que enfim saltaria aquela barreira auto imposta, falhei. Retornei a zero. O ferreiro então olha para mim, diz suas palavras com a delicadeza de um martelo e abandona-me para que eu continue a jornada. Acordei.
 
Constância é a virtude do carvão. Este elemento na encruzilhada entre o fogo (espírito) e a terra (materialidade). Este é o signo de qualquer um que queira começar a jornada para tornar-se um magista. As escolas são muitas, disciplina é a exigência de todas elas e a constância é a base dessa disciplina. O carvão sintetiza todos esses mistérios. O carvão alimenta o ofício do ferreiro.
 
Contam que Ogum foi o primeiro. Ele forjou as primeiras ferramentas que permitiram a Oxalá cultivar o inhame e alimentar seu povo. Ogum trabalha na forja e sabe utilizar as ferramentas que cria. Em muitos terreiros brasileiros, o ancestre de Ire passou a vestir armadura e capacete romano. Em diversas tendas de Umbanda, os espíritos a seu serviço chegam batendo continência, transformando os braços de seus filhos em lâminas vivas e dançando em círculos, cortando demandas, trotando como corcéis de batalha. O ferreiro africano coloca seus falangeiros para marcharem. Um passo após o outro, todos marcados pela cadência do martelo contra o ferro quente. Movimento. Ritmo. Disciplina. Constância. Às suas filhas e filhos, diz: “Acorde cedo. Arrume a cama. Alimente-se. Lave a louça que sujou. Prepare-se, o dia está para raiar.”
 
Ogum toma banho em sangue mesmo tendo água em casa, ouvi por aí. Sim, muitos adoram propagandear sua fúria, sua paixão pela guerra. Ele é impecável quando o sangue ferve e escolhe atender ao desejo de colocar absolutamente tudo ao chão. No entanto, enquanto caminhantes ao longo da estrada que Ogum abriu, como direcionamos seu fogo? Há momento para a fúria, há momento para a têmpera.
 
O senhor do ferro corre em nossas veias. Em cada molécula de hemoglobina, seu elemento vibra com poder. Cabe a nós decidir o que escolhemos defender, o que escolhemos derrubar, o que escolhemos construir. Ele não é apenas pulsão de morte e destruição. Antes que sua lâmina ponha abaixo o que nos atravanca o caminho, é preciso forjá-la. Antes de forjá-la, é preciso depurar o metal. Antes de depurá-lo, é preciso extraí-lo. E sem o ferro para rasgar a primeira mina, Ogum abriu caminho em direção ao centro da terra com as próprias mãos, ou assim permito-me imaginar. Suor. Trabalho. Disciplina. Constância.
 
O ferro é um elemento temperamental. Isso não é um elogio. Se não for bem trabalhado, ele quebra-se antes mesmo de curvar. Uma espada que se parte no meio da batalha é uma arma inútil, um arado que se rompe no meio do campo não serve para nada. O ferro superou o bronze porque é mais duro, mas o aço venceu o ferro porque permite-se dobrar. Penso eu que, talvez por isso, a primeira vez em que meu corpo experimentou a incorporação de um falangeiro de Ogum, sua presença fez-se perceber porque curvou-me. O guerreiro não precisa ostentar seu peito de aço, mas o ferro no meu espírito precisa sim ser dobrado, aquecido, amalgamado, fortalecido, finalmente então, utilizado. Ainda estou na forja. O processo repete-se de tempos em tempos com disciplina, com constância.
 
Que eu me recorde, ouvi falar do ferreiro era ainda uma criança nos bancos da igreja. A parábola dizia que éramos a espada a ser forjada. Por isso, experimentamos a descida à sanha ardente das brasas, então os golpes incessantes e impiedosos do martelo e, só então, o frescor das águas. Ainda não encontrei melhor metáfora para o mistério do décimo arcano.
 
A vida é dura, alertaram-me. Será difícil e exaustivo, então aproveite cada segundo de trégua para gozar do conforto, pois em breve tu retornarás àquela pressão infernal. Disseram que isso ocorre, pois “o Senhor escolheu-nos para sermos fortes”. Sinceramente, hoje eu penso que não fomos escolhidos para absolutamente nada. Por outro lado, podemos sim ser os agentes ativos desta oração. Retomamos o processo. Subimos e descemos. Contraímos e relaxamos. Sofremos e gozamos. Um momento de cada vez, sempre com disciplina, sempre com constância, não mais sendo forjados, mas trabalhando sobre nós mesmos.
 
Ainda não há beleza aqui. Outro notável ferreiro é Hefesto. De tão repugnantes as suas feições aos olhos caprichosos da própria mãe, ele foi atirado de cima do monte. No entanto, Afrodite ganhou-o para (ou foi condenada a) levá-lo como consorte. A beleza despreza a deselegância do trabalho, seu refinamento quer esquecer a exaustão do ofício, ainda assim, não há um sem o outro. A deusa então flerta e trai seu marido com Ares. Se quisermos falar de arquétipos (é apenas uma escolha, nada obrigatório) Ogum sintetiza ambas as potências atreladas neste mito à deusa do amor. Talvez o que os yorubá perceberam, mas que os helenos cismaram em desunir, tenha sido o sutil e profundo poder contido em duas palavras comuns ao ritmo da marcha e à cadência que repica na bigorna. A essa altura vocês já sabem quais são. Sim: disciplina e constância.
 
Enfim, há uma outra imagem do ferreiro que gostaria de citar, outro mito a ser encarado, mas bem brevemente. Este é bem menos difundido por aí. Tubalcaim, herdeiro do primeiro assassino, é também um civilizador e o consorte da primeira feiticeira, Naamah. Sua história marginal fecha este ciclo. Nossas artérias transportam ferro, as artérias de Tubalcaim transportavam o sangue do Diabo. Sim, este gênio de rebeldia e poder: poder que só nasce da constância, rebeldia que só gera efeito através da disciplina.

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