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As lições do caçador

Há muitos eus dentro de cada um de nós. Não falo das máscaras, falo das faces de nossa alma. Dentro do caçador há aquele que sai, há quem retorna. O mesmo corpo, o mesmo espírito, talvez não o mesmo homem. Quem sai deixa sua vila para trás, um teto seguro, paliçadas seguras, refeições em hora certa, afagos e raivas de uma família comum. É como as muitas canções de pescadores – que nada mais são senão caçadores de peixes – que contam como vivem no mar e passeiam na terra. Para eles, estar em terra é razão de agonia, estar no mar é razão da saudade. O caçador passeia na casa, mas ele vive é na mata.

O caçador, quando sai de sua aldeia, vai ao encontro do próprio espírito sob as copas cerradas das árvores. Pois, antes que o primeiro pé ponha-se para fora da choupana, o espírito já está entre os galhos. Conquanto a alma deseje mais que tudo unir-se ao espírito que aguarda no mato, a mente tem função é no lar. Ele prepara tudo antes de sua partida.

Se o teto é seguro é porque há quem o construa, quem o proteja. Se há refeição em hora certa é porque há quem provenha, mas também quem prepare. E quem protege a paliçada da aldeia nutre-se da carne que o caçador apanha. Seu lugar é lá fora. E é por estar fora que ele é parte do todo. Não há desconexão, não há rompimento, seu isolamento é a expressão máxima de sua integração.

Quando deixa a aldeia, o caçador fecha-se em si mesmo. O silêncio é seu adorno não porque sofra com a partida somente, mas porque executa seus passos primeiro dentro de si. Os olhos e as mãos disparam e acertam apenas o que os pensamentos e o coração decidiram juntos.

O caçador deve estar presente. Este é o primeiro teste. O alívio do retorno ao lar traz a angústia de querer voltar à mata. O prazer de voltar à mata traz a saudade do lar. É preciso tornar-se senhor de seus passos, estar alinhado à terra que seus pés tocam, habitar o chão que pisa. As armadilhas são muitas na mata: o formigueiro, o ninho da cobra coral, a colmeia de vespas dissimulada atrás de um arbusto. Até hoje, Oxóssi rejeita o mel porque, em um segundo de descuido, sua flecha acertou uma destas casas de abelha. A doçura que conquistou cobrou o preço de mil ferrões. Ele aprendeu a calcular os riscos e a trazer sua mente para o aqui, seu coração para o agora.

Um passo de cada vez para que não  tropece na lama. O bom caçador toma a trilha e percorre-a até o final. A caça é o desejo do teu espírito, você caçará até o fim dos seus dias. Tu sabes que não aguenta ficar muito tempo parado e, em breve, procurará outro mato cheio de mistério e perigo em que se enfiar. Então, para quê mesmo querer correr todos os caminhos de uma só vez? Um caçador perdido é presa de sua própria caça.

Dentro da mata, a memória de seu lar é o parâmetro de quantas flechas deve gastar. O caçador sabe quantas bocas precisa alimentar e não deve nunca exceder-se ou a fartura de hoje é a promessa de fome amanhã. A gula não lhe serve. Cada flecha pousada ao arco e retirada da aljava é milimetricamente calculada para atingir o peito do pássaro, a barriga do cervo, os olhos do jacaré. Atirar para todos os lados é apenas desperdício daquilo que lhe dá poder. Este excesso é sua maior tentação. Não à toa, a terra escolhe seus guardiões. Curupira, caipora, quantos outros encantados a mata pariu apenas para regular a gula do caçador? Confundem-no, prendem-no, atordoam-no. O preço dessa gula é sempre alto. Portanto, o caçador deve ir fundo ao coração da floresta sem desviar-se da trilha que escolheu para si.

O bom caçador sabe que não é dono da mata, é apenas mais um predador. Há outros ali atrás de carne e todos têm garras e presas. O bom caçador tem apenas as armas que confecciona. De todos os bichos que procuram carne na selva, ele é o menos abençoado, portanto, é o que melhor prepara-se. Ele respeita quem compete com ele o prêmio de um estômago forrado.

Quando então conquista sua meta, o caçador retorna. Este não é o mesmo sujeito soturno que deixou a casa. Ele vem sorridente com o corpo do cervo pendurado sobre os ombros. Ele quer os aplausos pela sua conquista, o reconhecimento de seu trabalho. Este caçador é falador e expansivo, quer contar as novas histórias que colheu no arvoredo, quer ser ouvido e aplaudido pelo seu sucesso. O bom caçador não deixa-se levar muito longe por esse desejo. Encontrar o equilíbrio atiça a tentação, mas lembra-se das vezes em que a mata nada permitiu-lhe levar para casa recoloca-o em seu devido lugar.

Eis o valor do fracasso. Não há tempo para culpas. Falhar rememora que somos apenas mais uma estrela nessa vasta constelação, tão necessários e brilhantes como todas as outras. Humildade – humilitas – é colocar-se ao nível do chão. O chão de onde nasce a mata que tudo provê e tudo consome. O chão sobre o qual desaba a presa abatida. O chão sobre o qual o caçador arrasta-se na busca incessante, silenciosa, prudente e necessariamente astuta dos prêmios que nutrem seu corpo, seu espírito, sua alma.

 

Imagem: Òrisa Léwa; bloglabure.org

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