Ao Mago

Olá, magus brasileiro. Aposto que está um pouco incômodo esse lugar aí, detrás do seu altar e mesa de trabalho cósmico; a mesa deste ser humano esclarecido, que imprime sentido e direção à sua própria realidade de forma cada vez mais consciente… esse, esse magus mesmo, que sai do deck Waite-Smith num salto direto para o século XXI, ano de 2020, no Brasil, com sua espada, sua taça, sua varinha e seu pentáculo dourado.

Aposto que está um tanto incômodo aí. A instabilidade das formas e multiplicidade mista de experiências é tanta, que talvez já não seja tão fácil confiar nas ferramentas que você tem à mão para manipular a existência, não é mesmo? Será que essa bagagem forjada em clima temperado dará mesmo conta de transformar uma realidade composta nos trópicos? Um dia essa dúvida precisava surgir, na minha humilde e marginal opinião.

Dada a brevidade do tempo, o tamanico do espaço e a amplitude dos mistérios que eu abordo aqui – como quem fuça um trem muito maior que si mesma, um verdadeiro desbunde -, atenho-me então a uma ferramenta só, optando pela minha preferida: a espada.

A espada do mago, como a entendo, é afiada pelas visões de mundo que seu intelecto alcança, através de diálogos com Outros que, digeridos pelo ego, imprimem cada vez mais elementos à sua bagagem de pontos de vista, ampliando as possibilidades de síntese, de entendimento do universo e tudo mais, e por fim tendo multiplicada sua capacidade de ação nele. Confesso que o blues que tá tocando – criado por uma galera afroamericana que entende o mundo de um jeito diferente do meu – ajuda muito mesmo na execução desta escrita; e não digo isso à toa, como espero conseguir demonstrar nas linhas a seguir.

No início dos meus estudos sobre magia, ou, pra dizer algo muito semelhante, no início do meu estudo consciente sobre as ferramentas que tenho para experimentar a minha realidade, das mais densas e materiais às mais sutis e astrais, eu fui o que hoje chamo de candidata a magus brasileiro. Pra mim, o ser brasileiro é um ser que, dada a característica do sufixo -eiro, que o define como um tipo de profissão que se exerce comercializando uma árvore, é muito diferente do que seria o que chamo de magus brasiliano, aquele que é indivíduo desta terra, filho dela e não seu explorador por oportunidade histórica. Hoje, busco (e por vezes falho miseravelmente) me aproximar dessa segunda perspectiva, a do magus brasiliano, não tanto por idealismo social, mas principalmente em busca de maior coerência epistemológica e expansão real da minha visão de mundo partindo de um lugar como o Brasil. Explico.

Comecei bem nova forjando minha espada da magia (uia!) com a leitura dos grandes filósofos europeus e ocultistas que me eram apresentados. Sobre os filósofos, muito ouvi e li de Sócrates e Aristóteles, curiosamente pouco de Antístenes e Zenão. Já começava a afiar minha espada só de um jeito, só pra um tipo de batalha, num tipo de geografia. Continuei: Allan Kardec, John Dee, Crowley, Baudelaire, Rimbaud, Mallarmé. Vocês já veem onde quero chegar. É como se houvesse uma enorme viseira guiando meus olhos apenas para dialogar e aprender com intelectos forjados na experiência europeia, branca, masculina, enfim… a narrativa dos caçadores, como naquele ditado africano que a gente de humanas adora repetir: enquanto não ouvirmos dos leões a narrativa da sua história, os caçadores parecerão sempre os vencedores nas histórias de caça.

Contudo, ainda que a natureza temperada europeia responda muito bem aos encantamentos desse magus brasileiro, esse indivíduo que aqui chega munido apenas do olhar estrangeiro e pulsão exploratória que mora no -eiro, jamais alcançará performance mágicka equivalente. Ele precisará topar o desafio de dialogar com os trópicos e aprender com eles, tornando-se assim magus brasiliano, se de fato magia e natureza dançam tão coladinhas como me parece. E olha, eu não estou falando aqui do gringo que vem tomar caipirinha e dançar com a mulata; estou falando de nós, aqui nascidos mas de bagagem cultural quase que só europeia, feita por europeus e por brasileiros que só lêem europeus, tentando com essas ferramentas epistemológicas dar conta da multiplicidade de experiências e visões de mundo dos brasilianos que todos nós somos dentro. Essa multiplicidade está na atmosfera, inspira pra você ver. E ela não está só no Brasil não, famoso por sua multiplicidade cultural… mas não sei se estamos preparados pra essa conversa.

Se o brasileiro é aquele que, com seu sufixo de explorador, vem de fora para usar do que há aqui nesta terra, o brasiliano que acho que ainda não somos seria aquele que sabe-se resultante de, no mínimo, nativos americanos, africanos diaspóricos e europeus. Sabe-se, entende-se assim, não apenas em teoria mas na prática. Esse magus brasiliano que ainda não somos, e para o qual muitos de nós ainda sequer se candidatam, constitui a sua cosmovisão não só no diálogo com a cultura europeia e sua assimilação, mas também o fazendo com as culturas ameríndias e africanas. Não como a concessão de uma benesse, mas como um exercício vital para afiar uma espada mágicka que atue sem tanta dificuldade in brasiliana natura. Sem isso, e com o perdão da piadinha, seguimos dando murro em ponta de espada, perplexos frente a um altar que oferece muito menos possibilidades alquímicas do que o esperado.

Demorei um tempo para entender que não se faz um país de fora para dentro, apenas. Filósofas e filósofos do nosso país e de outros países pós-coloniais têm me ensinado isso. E eles me parecem, no momento, infinitamente mais habilitados a me ensinar sobre a seara da multiplicidade cultural em que vivo do que qualquer atávico teórico europeu. Compreender o espectro material, emocional, mental e espiritual do povo brasileiro talvez viesse sendo tão difícil para mim porque eu estava usando as ferramentas erradas; uma espada forjada com as visões de mundo de apenas uma parte dos envolvidos: filósofos, teóricos da cultura, magistas e cientistas europeus, ou no mínimo europeicamente formados. Bacana demais, mas sabemos que uma liga de metal forte pede muito mais que só ferro. Aliás, o óbvio às vezes também precisa ser dito: não se faz liga nenhuma de um metal só. Onde estavam os intelectuais cujas vozes ecoavam a partir de outros lugares, para me ajudarem a formar a minha liga brasiliana? De onde vêm os conceitos que compõem para mim aquele ser que chamo de “intelectual”?

Foi aí que eu, que curto muito filosofia, magia e história da arte, em especial da arte literária (sem ser especialista em coisa alguma, já vou dizendo), comecei no meio da faculdade a ler teóricos de outras partes do mundo, com uma sensação de vaidade ferida de que a minha espada por demais europeia era um tanto cega para pensar as literaturas de Angola e Moçambique, que já começavam a me encantar. Assim, e tentando resumir uma jornada bem longa e ainda inacabada, cheguei a dois pontos que queria dividir com vocês, candidatos e candidatas a magus que podem estar um cadinho angustiados também, frente às limitações dos métodos epistemológicos que usam para enxergar a realidade brasiliana de vocês e transformá-la: o primeiro ponto são os Sonas, e o segundo ponto é o conceito de poética da relação, do filósofo martinicano Édouard Glissant. Pensando bem, acho que neste texto só vou conseguir falar do primeiro, então talvez Glissant fique pra próxima.

É muito comum ouvirmos dizer que em África as culturas são ágrafas, e eu acho que entendo o motivo. Na visão do homem europeu, existe apenas o binário grafia e agrafia, sendo grafia a escrita com unidades de sentido chamadas letras, que juntas formam palavras que transmitem com permanência uma ideia. Quem faz isso tem grafia, quem não faz não tem. Mas, e quem faz uma terceira coisa, com elementos de uma e de outra, e talvez muitos elementos mais?

A imagem que ilustra este texto é um lusona, um tipo de escrita que é parte da tradição dos sonas. A tradição dos sonas, que tem sido chamada pelos ocidentais de Geometria Sona, é muito mais que uma geometria. Pode ser que seja uma forma de grafia, que desafia e transforma o sentido que nós, formados na maioria pelo conhecimento e pela cosmovisão europeia, damos a esse conceito. A tradição sona pertence à cultura dos Cokwe e de povos relacionados, como os Luchazi e Ngangela, que vivem no Leste de Angola e em zonas vizinhas do Noroeste Zâmbia e do Congo (Zaire). Eu conheci a tradição dos sona quando estudava literatura angolana para o mestrado.

Observadores ocidentais descreveram os Iusona como: “grafos na areia” (Pearson, 1977), “desenhos na areia” (Baumann, 1935; Centner, 1963; Fontinha, 1983), “escrita na areia” (Hamelberger, 1951), “pictógrafos e ideogramas” (Dos Santos, 1961), e “ideógrafos” (Kubik, 1987)*. Mesmo o autor europeu do livro que aqui cito, cuja referência está no fim do texto, define a tradição sona como uma Geometria. Não podemos culpá-lo, carecemos da mesma visão limitada das coisas, espécie de “raio europeizador” (pros versados em História, “raio romanizador”) que traduz o mundo sempre a partir desses olhos, a tal espada de ferro sem liga nenhuma.

Fôssemos um tantinho mais abertos a aprender com o Outro angolano, em lugar de tentar explicá-lo pra ele mesmo, aprenderíamos com o escritor e ex-Ministro de Cultura de Angola, Boaventura Cardoso, que dada a sua cosmovisão cultural específica, nos explica o sona em termos muito mais amplos: o tem como o sistema profundo de comunicação que é, performático, oral e gráfico, ao mesmo tempo. Ele diz:

“O Homem, na sua relação com a Natureza e no seu relacionamento com o outro, conseguiu inventar formas diversas para exprimir os seus pensamentos, os seus sentimentos, as suas emoções, as suas preocupações e também as suas angústias e seus desejos. Nesta evolução, encontramos hoje uma das formas de expressão dos Thucokwe ou Cokwe, que utilizam o chão úmido arenoso para se comunicarem de forma escrita, porém não perene, uma vez que passos sobre a terra podem desmanchá-la. Uma grafia semi-perene, parte de uma linguagem que é a um tempo voz, escrita e performance corporal do Griot. Uma forma extremamente sutil de comunicação, reservada a uma determinada classe da comunidade Cokwe.”

Para os Cokwe, o sona era o desenho que o griot desenhava com graveto na terra, enquanto contava as histórias do povo ou ensinava a contar, ou fazia as duas coisas juntas e sabe-se lá quantas coisas mais. Esses desenhos, feitos com linhas e pontos, contribuíam com a memória do griot, porque em si traziam a alma da história a ser contada, do conhecimento a ser ensinado. Eram, pois, parte da cena de uma comunicação que se dá com o corpo do griot, com sua voz e com os símbolos que ele traça. Nós, de cosmovisão geralmente forjada no binário de que “escrita é escrita” e “oralidade é oralidade”, dificilmente conseguimos compreender a complexidade de uma comunicação assim, que se dá não só com fala ou escrita, mas com uma performance completa do comunicador: a magia perfeita.

O sona que você vê na imagem, por exemplo, é ferramenta de comunicação do griot, junto com sua voz e seu corpo em performance, para ensinar a dividir e multiplicar, ao mesmo tempo em que ensina lógica e simetria, enquanto conta variações da seguinte história:

Sambálu, o senhor coelho (posicionado no ponto b), descobriu nzôngua riá môngua, uma mina de sal-gema (no ponto a). Imediatamente, o leão (no ponto c), a tchisenga (onça, no ponto d) e a tchimbúngu (hiena, no ponto e) vieram exigir a sua posse e afirmar o seu direito de mais fortes. Então o coelho teve a esperta ideia que logo realizou: fazer uma vedação e isolar a mina de todos os usurpadores.”

Essa fábula, dentre muitas outras informações que traz, ensina sobre o direito inviolável dos mais fracos e o recurso intelectual que compensa sua falta de força, na cosmovisão Cokwe. De fato, analisando o lusona você perceberá que só do ponto b, o coelho, se pode ir até o ponto a, a mina, sem ultrapassar a linha que representa a vedação, os limites, a delimitação dos caminhos possíveis dentro da cosmovisão daquele povo.

Para aprender com os Cokwe, é preciso ouvir dos Cokwe sobre os Cokwe, queiramos ou não. Persistir em apenas interpretar o mundo com o nosso olhar, ou com o olhar daqueles conhecimentos e conhecedores já reconhecidos como tais, é condenar-se a repetir para sempre, como ignorantes, que a África é feita de culturas ágrafas, sem jamais descobrir essa linguagem que fala não só com o som e o risco gráfico, mas com uma infinidade de outros recursos que o corpo tem, a natureza humana tem, a magia tem, sem dividir em duas a nossa comunicação, sem precisar dizer se é escrita ou oral.

Essa riqueza é só um pedacinho mínimo de toda uma cosmovisão que poderá compor a magia do magus brasiliano que com sorte estamos gestando; esse ser plural, que se abra sem medo à pluralidade como enriquecimento das possibilidades de ser, de agir, de sentir. Ele lerá intelectuais mulheres, diaspóricos, afrobrasileiros, ameríndios, marginalizados culturais de todas as vertentes, e se permitirá conhecer cosmovisões que pelo sangue ancestral já o compõem, pela atmosfera brasileira já o afetam, afetam sua magia, quer queira, quer não. Ele reconhecerá no blues uma mundividência outra, de um ser que nasce do enfrentamento do exílio de África, que não gera só dor não, gera novos conhecimentos também, novas formas de experimentar a realidade, que nos enriquecerão caso nosso ouvido colonizador se permita ouvi-las, aprender com elas e não apenas “sobre” elas.

O que não faria um ameríndio com sua visão de mundo integrada à natureza, nômade e descentralizada, aplicada através da tecnologia atual, diariamente manipulada quase que apenas pela visão eurocêntrica? O que eles não poderiam nos ensinar? Perco o sono pensando não só nas dores e mortes causadas pela falta de diálogo a nível mundial, mas também na ignorância que criamos com isso, as viseiras que não param de tornar obsoleta a nossa espada do intelecto, e minar nossa habilidade de constituir uma realidade mais harmônica.

Ando em busca de pessoas versadas em si mesmas, em seu ambiente, e não tanto no conhecimento que vem de fora delas. Creio que elas podem me ensinar os mistérios dos outros metais que desconheço, que enfim criarão a liga necessária para uma espada que melhor funcione nesses trópicos.

Foi assim que chegou Édouard Glissant e a poética da relação dele. Mas aí já é outra história.

Todas as histórias que vivi fazem-me quem sou hoje, mas insistir somente nas negativas é superficializar minha experiência e negligenciar as muitas outras que formaram-me.

A história única cria estereótipos, e o problema com os estereótipos não é que eles sejam mentira, mas que eles sejam incompletos. Eles fazem uma história tornar-se a única história. A consequência de uma única história é essa: ela rouba das pessoas sua dignidade, dificultando o reconhecimento de nossa humanidade compartilhada, enfatizando como nós somos diferentes, ao invés de como somos semelhantes.(…)

Quando rejeitamos a única história, e percebemos que nunca há uma única história sobre lugar nenhum, nós reconquistamos um tipo de paraíso. – Chimamanda Ngozi Adichie

* do livro Geometria Sona de Angola – Matemática duma tradição africana volume 1, de Paulus Gerdes.

 

Créditos da imagem: sciencesource

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