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Alguns rituais e preces a São Desfazedor

Charalambos foi um dos primeiros missionários e líderes cristãos a se estabelecer em Magnésia do Meandro, uma cidade fundada por colonos gregos, situada no interior da Anatólia, próxima à moderna cidade turca de Germencīk. Seu nome significa algo como brilhar de alegria, e a tradição sustenta que foi presbítero ou bispo da Igreja local. Ele viveu durante o reinado de Sétimo Severo (r.193-211), quando Luciano era procônsul na Magnésia do Meandro, e conta-se que foi denunciado às autoridades por impiedoso e agitador, já que sua atividade religiosa afastava muitos dos moradores locais dos antigos e bem estabelecidos cultos à Dindymene, Mãe de Cibele, de origem frígia, e à Ártemis Leukotriene, de origem helênica, que já havia suplantado o anterior em grande medida. Levado à juízo público, Charalambos recusou-se a oferecer sacrifícios aos deuses da cidade e do Império e confessou abertamente a sua fé cristã.

Apesar de sua idade avançada, foi torturado sem piedade como entretenimento público. Enquanto seu corpo era despido, suspenso em cordas, açoitado, queimado, lacerado com ganchos de ferro e sua pele era arrancada com pedras afiadas, ele bendizia e agradecia seus algozes. Conta-se que, ao testemunhar esta atitude, dois dos soldados que participavam da tortura, Porfírio e Bapto, declararam-se também cristãos e foram sumariamente decapitados por seus antigos colegas. O mesmo ocorreu com um grupo de três mulheres que assistiam ao sanguinolento espetáculo no teatro de Magnésia do Meandro. Enfurecido com o que acontecia, o próprio procônsul pôs-se a participar ativamente do flagelo, mas foi de pronto punido pelo Céu, tendo seus antebraços decepados e seu pescoço torcido por um anjo. Mais tarde se arrependendo e orando por misericórdia, e tendo sido atendido por intercessão do mesmo Charalambos, acabou sendo curado e tornando-se ele mesmo também cristão.

A lenda registra ainda um número incrível de torturas adicionais que teriam sido infligidas ao santo, depois do quê ele foi finalmente remetido a Roma, para ser apresentado como curiosidade diante de Sétimo Severo. Tendo confrontado o imperador por causa de sua fé, foi conduzido para fora da cidade para ser executado. Novamente despido, orou a Deus para que o local onde suas relíquias fossem instaladas jamais sofresse com a guerra, a fome ou a doença, e que seus devotos fossem beneficiados neste e no outro mundo por todas as boas coisas que fizessem em seu nome. Em seguida, o santo entregou sua alma e faleceu tranquilamente antes que a lâmina do carrasco tocasse seu pescoço. Narra-se que uma das filhas do imperador, Gallina, ficou tão comovida ao assistir tais coisas que se tornou cristã e providenciou ela mesma um sepultamento digno para Charalambos. A tradição assegura que ele foi martirizado em 202, e que então contava com a prodigiosa idade de 113 anos.

Depois de morto, o corpo do eclesiástico permaneceu durante certo tempo em Roma. Eventualmente a maior parte dele foi transladado de volta a Magnésia do Meandro e instalado em uma grande basílica construída, após a cristianização do Império Romano, sobre a ruína do antigo templo de Dindymene. Seu crânio é custodiado e venerado no Mosteiro de Santo Estêvão, em Meteora, ao lado das Montanhas Pindo, na região oeste da Tessália. Pequenos fragmentos e pó de seus dentes e dos dedos de suas mãos e pés foram difundidos pelas Igrejas Ortodoxas da Grécia, dos Balcãs e da Rússia e muitos milagres são tradicionalmente atribuídos a eles. De forma especial, ele parece ter se especializado em exorcismos, anulação de feitiços e curas de doenças causadas por elementos sobrenaturais. Este santo, considerado o mais velho de todos os mártires, é bastante querido pelos búlgaros e pelos gregos, inclusive na diáspora, e tornou-se um patrono dos idosos ao lado dos santos Joaquim e Ana, que a tradição diz terem sido os avós de Jesus Cristo. Nos Balcãs, sua festa é associada ao tempo da coleta do mel invernal, sendo ele especialmente louvado quando essa é abundante. Em algumas das Ilhas do Mar Jônico, sacrificam-se carneiros e touros nos adros das igrejas no dia da festa de São Charalambos, um costume que foi combatido, sem grande sucesso, tanto pelas autoridades eclesiásticas ortodoxas quanto pelos governantes muçulmanos do período otomano, que concordavam entre si a respeito de ser esta uma mal disfarçada sobrevivência pagã em moldura cristã. Tal festival é particularmente importante na vila de Santa Parascheva, na Ilha de Chipre, onde foi restabelecida por um grupo agrícola em 1774 e, conectado aos festejos carnavalescos que precedem o início da Quaresma, desde então é celebrado de modo ininterrupto.

Celebração em honra de São Charalambos em igreja paroquial de Blagoevgrad, na Bulgária, em 10 de fevereiro de 2021.

São Charalambos praticamente não é venerado no restante do mundo cristão, com uma exceção bastante significativa. Por motivo não muito claro, ele se tornou subitamente popular na Nicarágua, em Honduras, na Guatemala e em Chiapas, no sul do México, durante o século XIX e início do século XX. Talvez a presença espanhola na Sicília e no sul da Península Itálica, a ligação histórica desta região com o Oriente Cristão – além de, obviamente, sua proximidade geográfica com a Grécia, o Mar Jônico e os Balcãs -, e a circulação de espanhóis, hispano-italianos e hispano-americanos desde a Europa até a América, e vice-versa, antes e depois da onda das Independências, ajude a explicar esse inesperado desdobramento devocional, mas se está aqui no campo da pura conjectura. Seja como for, o fato é que o culto a São Charalambos, hispanizado em São Caralâmpio, está bem estabelecido na referida região a partir de um centro em Comitán de las Flores, cidade de tamanho considerável do Estado de Chiapas, localizada às margens da Rodovia Pan-Americana, entre a capital colonial de San Cristóbal de las Casas e a fronteira com a Guatemala. Estação de passagem no antigo caminho espanhol que ligava as extremidades leste e oeste da América Central colonial, o principal monumento da municipalidade é uma grande igreja dedicada a São Domingos de Guzmán, que fica de frente para uma grande praça arborizada. Aí também se encontra instalada uma imagem tridimensional de São Caralâmpio, que parece ter sido modelo das que depois vieram a ser instaladas na catedral de San Cristóbal de las Casas e nas igrejas paroquiais de Simojovel e Las Palmas.

De acordo com a memória local, a devoção a São Charalambos-Caralâmpio chegou a Comitán, na parte centro-oriental de Chiapas, no fim da década de 1840 ou início da década de 1850, graças a um livreto devocional, pobremente ilustrado, transportado sabe-se lá de onde por um soldado viajante de nome Otero, cuja exata procedência ninguém se deu ao trabalho de registrar. Tal documento muito impressionou um abastado morador do bairro de La Pila, Dom Raymundo Solís, que comprou o novenário em idioma estrangeiro, e ergueu primeiro um oratório doméstico e depois uma capela dedicada ao santo. Ele também mandou que se fizesse um belo quadro copiando e melhorando a capa do livreto comprado a Otero, instalando-o em sua fazenda em Tzeltón, perto da cidade, e designando-o por sua própria conta como o padroeiro do local. Conforme começaram a se registrar as primeiras graças atribuídas à sua intercessão, multiplicava-se também o número de frequentadores da igrejinha de La Pila e daqueles que desejavam fazer orações diante do quadro em Tzeltón. Quando a região foi varrida por sucessivas epidemias de cólera, malária e principalmente varíola, os moradores de Comitán invocaram São Caralâmpio como seu protetor e a cidade foi poupada de seus piores efeitos, enquanto as redondezas eram virtualmente despovoadas. A devoção ao santo estabeleceu-se então de forma mais firme e as autoridades eclesiásticas locais começaram a fazê-la render, passando a ter autorização oficial para realizar procissões e celebrar missas em sua honra a partir de janeiro de 1868. Seu culto posteriormente foi se espalhando, ou se tornando mais notável, e fortalecendo-se nas comunidades próximas aos dois lados da fronteira entre o México e a Guatemala.

No dia da comemoração de São Caralâmpio, 10 de fevereiro, pessoas de Comitán e dos campos da região reúnem-se antes do amanhecer na Colina de Chumís, fora da cidade, para iniciar os louvores ao santo com cânticos e orações e realizar a procissão que reconduz uma de suas imagens até a igreja em sua honra em La Pila. Precedendo o cortejo, à frente dos turíbulos, dos círios, da cruz e da tradicional banda de música, segue um grande grupo de homens mascarados que representam demônios, duendes, almas penadas, mortos-vivos, ogros, monstros indígenas e personagens assustadores de filmes do cinema e da TV, que vão sendo empurrados adiante pelo avanço gradativo do andor florido de São Caralâmpio. A procissão é recebida na cidade com o festivo repique do sino das igrejas, o estouro de fogos de artifício e o som ritmado de palmas, tambores, apitos, marimbas e palos. Depois da solene missa cantada, a festa prossegue durante todo o dia e noite seguinte, com danças, comidas e bebidas típicas, principalmente um fermentado de gengibre, cravo e canela bastante popular na região. Ela ainda se estende e se une à comemoração de Nossa Senhora de Lourdes, celebrada em 11 de fevereiro, também considerada uma curadora e protetora contra as doenças.

Alguns dos muitos “diablitos” participantes da procissão de São Caralâmpio. Comitán de las Flores, Chiapas, México, 10 de fevereiro de 2017.

A Igreja de São Caralâmpio em Comitán, construída em estilo neoclássico, é ricamente ornamentada em seu interior e exterior. O santo idoso, caracterizado por sua longa barba branca, está instalado no nicho central da abside, bem acima do altar principal, ajoelhado e com as mãos postas em oração, diante de uma imagem de um Cristo de mãos estendidas, sentado sobre uma nuvem. As esculturas de São Caralâmpio são ocasionalmente acompanhadas pelas de um soldado romano empunhando a espada de um carrasco. Esta figura nem sempre é colocada imediatamente nas proximidades do santo, e é eventualmente coberta, pois alguns dos fiéis acreditam ser o seu olhar causador de má sorte. Com base nesta representação tridimensional de São Caralâmpio, foram feitas pinturas e gravuras que representam o momento imediatamente anterior à morte do santo (ainda que curiosamente sempre omitindo o detalhe hagiográfico de seu prévio despimento), imagens que se tornaram bastante populares na cultural visual da religiosidade mexicana e centro-americana de um modo geral.

Veneração popular à imagem de São Caralâmpio em igreja paroquial dedicada à sua memória. Comitán de las Flores. Chiapas, México, 11 de feveiro de 2017.

Muito mais popular, contudo, é a gravura que o representa de pé, com as vestes de um eclesiástico bizantino, trazendo um Evangeliário na mão esquerda e a mão direita erguida em bênção, com ambos os pés sobre a barriga de um demônio de cor negra, azul ou verde escura, acorrentado e normalmente cuspindo uma chama. Esta imagem parece ser uma tradução modernizadora de um tipo iconográfico anterior, genuinamente oriental, de São Charalambos, mas não foi incomum que, a partir dela, tenham sido também produzidas esculturas. Ela é bastante difundida no Caribe falante de espanhol e na diáspora caribenha nos EUA, mas, contudo, neste contexto são muitos poucos aqueles que a utilizam para dirigir orações a São Charalambos-Caralâmpio.

No Vodou Dominicano e Porto-Riquenho – e muito mais raramente no Haitiano -, tal imagem é usada algumas vezes para representar Ghédé Zainá, que se afirma ser o mais antigo dos Ghédés, a primeira alma que desceu do Céu à Terra, usando uma escada de cordas mágica, que tomou para si um corpo de carne, e também, logicamente, que foi o primeiro homem a morrer. O Ghédé Zainá é um protetor contra as doenças da velhice e um espírito que concede aos seus devotos uma morte tranquila e a garantia de uma jornada sem sobressaltos ao outro mundo. Outras vezes, de modo bastante curioso, ela é utilizada para representar uma entidade de temperamento e atribuições bastante diversas: Baròn Zombì, o espírito de um congolês conhecido por seu brutal entusiasmo durante o massacre dos brancos ocorrido no Haiti entre o início de janeiro e 22 de abril de 1804, página extremamente sanguinolenta da história revolucionária de São Domingos, que acirrou os ânimos do debate abolicionista em todo o mundo euro-americano e resultou na morte de 3000 a 5000 civis, entre os quais grande número de mulheres e crianças. Morto este congo, ele teria conseguido de algum modo se desvencilhar dos anjos e demônios que lhe disputavam a posse e permanecido escondido na floresta, emboscando os brancos que por ali passavam, levando sua vingança contra os horrores da escravidão para muito além da duração de sua própria vida biológica. O Baròn Zombì é invocado à beira de túmulos abertos no interior de densos matagais para realizar vinganças violentas, e nenhuma pessoa com qualquer medida de sangue europeu com o mínimo de juízo deveria se atrever a trabalhar com tal entidade em qualquer momento de sua vida. Às vezes ele é descrito como trabalhando em conjunto com o Baròn Kriminal e como inimigo implacável de Baròn San Elias, enquanto existem aqueles que dizem o contrário, ou seja, que trabalha em conjunto com o Baròn San Elias e que é um inimigo implacável do Baròn Kriminal.

A referida imagem de São Caralâmpio também é eventualmente utilizada nos mesmos contextos do Vodou Dominicano e Porto-Riquenho para representar um loa Petro conhecido como Gran Zero, a quem se atribui o poder de desfazer qualquer coisa, positiva ou negativa, na vida de alguém. Ele se manifesta como um velho bokor muito exigente, conhecedor de todo tipo de oração e arte mágica, que adora gritar suas ordens sobre a assistência reunida. Suas possessões são exaustivas, violentas e raramente vistas, sendo mais comum que ele se manifesta de formas mais sutis, através de insights, de coincidências ou de sonhos. Sua especialidade são as limpezas, os desfazimentos e os banimentos, pois tem a capacidade de criar aquele espaço vazio, pleno de potencialidades, onde tudo pode vir a se manifestar. Ele também é conhecido por fazer amarrações poderosas com cordas, fitas, barbantes e nós de todo tipo. Muitos brujos invocam-no em rituais de amarração, e ele parece disposto a colaborar com todo aquele que lhe trate bem, obsequiosamente, e pague o preço devido por seus serviços. Nos últimos anos, há uma tendência a considerar o Gran Zero como uma figura andrógina e a representá-lo também com a imagem de Nossa Senhora Desatadora de Nós. A devoção à Virgem Maria sob este título é conhecido nas regiões católicas de língua alemã desde o início do século XVIII, mas só se tornou popular na América Latina a partir da década 1980. Isso se deveu em alguma medida ao fato de ter sido ativamente estimulada a partir de Buenos Aires pelo então pároco, depois arcebispo, Jorge Mario Bergoglio, agora Papa Francisco, que teve contato com ela enquanto realizava seus estudos de pós-graduação em Teologia em Frankfurt. Da Argentina a devoção passou ao Brasil, ao Caribe, ao México e à diáspora latina nos EUA e na Europa, atraindo todo o tipo de pessoas com problemas pequenos ou grandes. A rápida apropriação desta imagem no Vodou Dominicano e Porto-Riquenho evidencia a continuidade dos vínculos entre esta forma religiosa e o catolicismo ainda em nossos dias. Às vezes esculturas ou estampas de São Silvestre e de Santo Ambrósio também são utilizadas para representar o Gran Zero.

O mais comum, entretanto, sem dúvida alguma, é que a imagem de São Caralâmpio seja utilizada para designar a entidade conhecida nos países de língua espanhola da América Central como São Desatador ou São Desfazedor, “santo que tudo desfaz e recompõe”. Trata-se de um espírito capaz de ajudar seus devotos a desfazer-se de problemas com quaisquer tipos de más energias vindas de pessoas mal intencionadas ou simplesmente negativas, que a eles querem fazer dano ou mesmo que lhes realizaram trabalhos de magia negra. Ele é conhecido por romper laços, algemas, amarres e nós, em sentido literal, metafórico e espiritual, e é capaz de impedir que estes sequer cheguem a se realizar, mantendo livres os movimentos e abertos os caminhos daqueles que o invocam. Curiosamente, seja invocado como São Desfazedor, Ghédé Zainá, Baròn Zombì ou Gran Zero, a imagem é sempre servida com um copo de água ao qual se mistura uma colherada de açúcar fino e duas colheradas de sal grosso, velas negras (mais raramente roxas) e uma xícara de café com a adição de boa quantidade de gim.

Existem numerosos rituais de limpeza espiritual envolvendo a invocação de São Desfazedor. O ideal é que sejam realizados no dia de sua festa, 10 de fevereiro, ou ao menos no dia 10 do mês, preferencialmente no fim da tarde ou início da noite. Em um deles, bastante simples, colocam-se duas velas negras, ungidas três vezes, de cima para baixo, com óleo abençoado por um padre, em um prato branco nunca antes utilizado. Junto às velas deve-se colocar também uma imagem do santo e um par ou quarteto de incensos de mirra ou olíbano. Debaixo do prato coloca-se uma foto da pessoa a quem se quer proteger; no verso dela, o nome completo de batismo da mesma pessoa deve estar escrito três vezes em lápis de cor negra. Depois de feito o sinal-da-cruz, ambas as velas devem ser acessas ao mesmo tempo. Depois de pronunciada a oração adequada a São Desfazedor, deve ser feito um pedido breve e espontâneo, de coração, de que a pessoa por quem se roga seja liberta, purificada e protegida de todos os males. Terminada esta petição, ambas as velas devem ser simultaneamente apagadas com os dedos polegar e indicador das mãos direita e esquerda. Suas chamas não devem ser sopradas e elas não devem ser deixadas para serem consumidas até o fim em nenhuma hipótese. Terminado o ritual, que dura só alguns minutos, as velas devem ser envolvidas em um pano branco, limpo e nunca utilizado, junto com três ramos de yerba buena (hortelã ou hortelã-pimenta). O pequeno pacote assim preparado, amarrado com um pedaço de lã branca e um pedaço de lã negra, deve ser abandonado rapidamente em uma encruzilhada de quatro pontas, na qual aquele que realiza a petição não deve passar por um período de sete dias.

Outro ritual associado a São Desfazedor, pouco mais complicado, é chamado de revogação. Ele pretende não só eliminar um mal da vida de alguém, mas também devolvê-lo a quem eventualmente o tenha causado ou remetido àquela pessoa através de feitiçaria. Para realizá-lo, deve-se ter consigo um copo de vidro nunca antes utilizado, enchê-lo com água (melhor ainda se com água benta por um padre) e despejar nesta uma colher grande de sal grosso. Com o dedo indicador da mão direita, mistura-se o sal na água, dizendo: “Conforme este sal se dissolve nesta água, determino, por intercessão e poder do grande São Desfazedor, que qualquer obra maligna, feitiço, trabalho feito, fluido negativo, mau olhado, inveja, raiva, ressentimento ou mau pensamento que me cerca ou tenha sido contra mim enviado vá se dissolvendo e sumindo de minha vida.” Cobre-se em seguida o copo com um prato branco, também nunca antes utilizado, e vira-se prato e copo ao contrário, rapidamente e com cuidado suficiente para que a água misturada com sal não se derrame. Toma-se uma vela negra, ungida três vezes, de cima para baixo, com óleo abençoado por um padre, e acende-se ela sobre o fundo do copo recém transformado em seu topo. Recita-se a oração de São Desfazedor e pede-se a ele, breve e sinceramente, que elimine todas as coisas ruins e negativas que estão incomodando e que faça justiça caso estas tenham sido causadas ou enviadas por alguém através de feitiçaria.

Depois de fazer isso, o prato com o copo virado para baixo e com a vela acessa sobre ele deve ser posto no limiar de uma porta, preferencialmente uma que dê para fora de casa, durante vinte e quatro horas. Enquanto a vela negra se consome, é bom momento para realizar orações complementares ao Anjo de Guarda, à alguma invocação da Virgem Maria ou a outros santos de devoção que podem auxiliar na limpeza, proteção e justiçamento que se está pretendendo alcançar. Passado uma noite e dia inteiros, tudo deve ser levado para uma encruzilhada de quatro pontas que não seja perto da casa de quem ou para quem se está realizando o pedido. O conteúdo do copo deve ser estão despejado no chão, enquanto se diz: “São Desfazedor, deixo aqui todas as coisas ruins e negativas que me cercavam e incomodavam, e à tua intercessão e poder confio a justiça devida a este caso.” O copo e o prato devem ser quebrados. arremessados contra uma árvore ou parede próxima. Quem realiza o ritual deve retirar-se do local depois de executá-lo sem olhar para trás sob nenhuma hipótese até chegar à sua própria casa. Também não deve passar pela encruzilhada escolhida para sua conclusão durante pelo menos sete dias. Durante este período, uma vela negra de sete dias deve ficar acessa atrás da porta que antes se utilizou para a revogação. Esta vela deve ser acessa de cima para baixo, sendo um segundo pavio aberto em sua base com uma faca ou outra lâmina de qualquer tipo. A cada anoitecer dessa semana, diante da chama dela, deve ser repetida a oração de São Desfazedor.

Existem muitas orações conhecidas a São Charalambos-Caralâmpio-Desfazedor. Em sua festa litúrgica, canta-se na Igreja Ortodoxa: “(…) Tu te tornaste uma firme coluna da Igreja de Cristo, ó sapientíssimo Charalambos, uma lâmpada de eterna luminosidade para todo o mundo! Bem conhecido dos fiéis por causa de seu martírio, dissipaste por tua pregação e coragem a noite escura da idolatria. Intercede corajosamente a Cristo Deus, nós te pedimos, para que Ele salve nossas almas!” E também: “(…) Teus santos mártires, ó Senhor Onipotente, por seus inumeráveis sofrimentos receberam coroas incorruptíveis de Tuas Mãos, ó nosso Deus. Por terem a Tua Força consigo, abateram os seus adversários e destruíram a impotente ousadia dos demônios, inimigos dos homens. Pela intercessão do bendito Charalambos, salve-nos!” E ainda: “Tu te ergueste do Oriente como uma brilhante estrela, santo mártir Charalambos, e iluminou a todos os fiéis com o brilho imorredouro de teu testemunho e de teus milagres. Honramos, portanto, o teu sagrado conflito, hoje e sempre!”

Ícone doméstico representando o combate de São Charalambos contra um demônio, proveniente das Ilhas Jônicas e datado de 1728.

Uma prece a São Caralâmpio registrada em um folheto impresso em Valência na época de Carlos III de Espanha (r.1759-1788) em um gráfica especializada em exportações para os territórios ultramarinos diz o seguinte: “(…) Deus e Senhor Onipotente, em cujas mãos estão a vida e a saúde de todos os homens, pelos méritos e intercessão de vosso valoroso servo, o Bem-Aventurado São Caralâmpio, Presbítero e Mártir, a quem concedeste em prêmio de sua heroica fé e constância em defender Teu Santo Nome, que onde for que estivessem suas relíquias ou se celebrasse piedosamente a sua memória não haveria fome, nem peste, nem qualquer tipo de ar contagioso; a Ti humildemente suplicamos que, venerando a memória do martírio do mesmo São Caralâmpio, assim como as admiráveis virtudes por ele demonstradas cá na terra, mereçamos ver-nos livres de toda contaminação do corpo e da alma, e depois poder gozar no céu de sua ilustre companhia. Pelos méritos e autoridade de nosso Senhor Jesus Cristo, Filho Teu, que vive e reina contigo, juntamente com o Divino Espírito Santo, por todos os séculos dos séculos. Amém.”

Nos países de língua espanhola da América Central e na diáspora hispânica, a oração mais conhecida, entretanto, é a que segue, difundida em diferentes versões, cada qual com uma pequena e inevitável variação: “(…) Ó bendito e poderoso São Desfazedor, justiceiro divino contra a maldade, a inveja e a cobiça, hoje venho, humilhado a teus pés, para pedir-te permissão e autorização para que, conforme brilhe a chama desta vela, desfaça-se de minha vida toda a má obra promovida por meus inimigos e meus adversários, homens ou mulheres, visíveis ou invisíveis; que desapareça de imediato todo o mal que fizeram ou estão fazendo contra mim, contra minha casa, contra as pessoas a quem amo ou contra quaisquer das coisas que me pertencem. Ó bendito e poderoso São Desfazedor, divino herói contra o mal, a impiedade e a injustiça, quero e determino que, assim como eu venho hoje a ti, humilde e humilhado a teus pés, assim fiquem de pronto todos os meus inimigos e adversários, ☩ em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo. Amém. Pelo poder destes três benditos nomes, por estes três nomes altíssimos, por estes três nomes santíssimos, chamo e submeto os meus inimigos, para que se ajoelhem e se prostrem humildes e humilhados a meus pés, assim como foi Belzebu diante de ti, assim como foi Lúcifer aos pés de São Miguel, assim como foi Satanás frente ao lenho da Cruz de nosso Senhor e Salvador, Jesus Cristo. Que eles tenham olhos e não me vejam. Que tenham coração e este seja atado à minha vontade. Que tenham sentidos e não me sintam. Que tenham ouvidos e não me ouçam. Que tenham mãos e não me toquem. Que tenham pés e não me alcancem. Que tenham facas e não me cortem. Que tenham tochas e não me queimem. Que suas boca se encham de água e jamais me falem ou sequer sejam capazes de pronunciar o meu nome a quem quer que seja. Ó bendito e poderoso São Desfazedor, desfaz, livra e liberta de minha casa todo mal que nela por desgraça se encontre, convertendo-o em nada. Que todo aquele que pretenda dispor ou realizar qualquer coisa contra minha pessoa se desfaça imediatamente desta ideia e se recolha arrependido, ferido no mais profundo de seu coração e sua inteligência. São Desfazedor, santo de grande poder, desfaz de qualquer um que queira se colocar em meu caminho esta má ideia, amaldiçoando os ímpios e convertendo em nada todos os meus inimigos e adversários. Que assim seja, agora e para sempre, pelos séculos dos séculos. Amém.” Em homenagem a São Desfazedor, reza-se então três Creio em Deus Pai, dois Pai nosso e uma Ave Maria.

Imagem de São Caralâmpio localizada no altar principal de igreja paroquial dedicada à sua memória. Comitán de las Flores. Chiapas, México, 10 de feveiro de 2005.

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