A noite na qual fiz minha própria morte.

No jazigo, meu nome em letras douradas e uma foto particularmente inspirada minha são as únicas coisas que consigo enxergar. A escuridão do cemitério misturada à dormência que toma conta do meu corpo não me deixam perceber os detalhes da tumba. Encosto as mãos no mármore e tomo um susto. Não sinto o gelado da pedra. Puxo o ar e ele não vem. Finalmente. Finalmente.

A mente explode em imagens e sensações. Estou velho. Meus filhos são desinteressantes. Minha esposa é uma deprimida de merda. Já tem mais de quinze anos que eu apenas existo por existir. Estou velho fraco decrépito infeliz amargurado. Sou um estorvo torto num sofá assistindo televisão. Eu respiro, mas não sinto nada.

Uma agonia ardente se espalha pelo meu peito. Do bolso da calça tiro uma caneta marcadora. Esse é meu túmulo e eu vou escrever meu próprio epitáfio e quem passar aqui verá minha letra trêmula e arranhada e saberá que um homem morto ele mesmo rabiscou esse jazigo e as palavras que eu aqui deixarei marcadas para sempre assustarão todas as almas que por aqui passarem. Escutem! Escutem! Escutem o balbuciar demente de mãos que nada sentem… tenho pouco tempo.

“Pai nosso que estais no céu, santificado seja o vosso nome…”. A voz do padre das missas de domingo da minha infância invade o ambiente.  Eu não consigo respirar!  “Ave Maria cheia de graça”. “Eis a história de Lázaro, morto e ressuscitado por Cristo”. Ressuscitado? Que o diabo me deixe ser pó e apenas pó!

Um calafrio me toma de assalto e meu corpo treme descontroladamente. A caneta salta e corre por entre as ruelas da necrópole. Está perdida na escuridão dos mortos. Morreu meu epitáfio, meu testemunho último para esse mundo pobre. Minhas pernas fraquejam. Perco o equilíbrio, meu queixo bate na quina da pedra. O sangue jorra e mancha a tampa de mármore branco.

Minha mãe me ensinou a não desobedecer. Minha mãe me ensinou a rezar toda a noite. Minha mãe me ensinou a não colar na prova. Eu colei, roubei, menti, não rezei. Minha mãe morreu achando que sabia quem eu era. Minha mãe não está aqui agora comigo. Onde está minha mãe?

Sangue sangue sangue rubro seiva escarlate que do útero salta para a terra negra do retorno final antes de tornar-se coágulo no meu corpo podre pode ainda fazer-me vivo eternamente com tua cor de rubor e de verdade. Mergulho minhas mãos na ferida. Dói como nada que eu tenha sentido antes. Meus dedos repletos de sangue. Ele pinga. Pinga e mancha o chão de concreto queimado. Com os dedos ensopados, começo a redigir minhas palavras.

O sino da capela do cemitério bate três vezes. No meio da madrugada o sino bate. Não há ninguém no cemitério senão eu… escrevendo com sangue em meu próprio túmulo. A lua parece brilhar mais e mais e quanto mais eu tento puxar o ar mais o sangue salta do meu corpo e mais a noite fica escura e mais a lua aumenta e mais e mais e mais e mais eu escrevo e as letras se juntam em palavras que montam frases sanguinolentas e tudo que eu queria ter dito com meu coração vivente eu digo no leito da morte iminente que me ataca me consome e meus dentes rangem como a porta da capela que não era para estar aberta.

Minhas pernas bambas ganham forças misteriosas e arrasto-me por entre as tumbas deixando meu sangue e meu tempo. Está terminado meu trabalho. Está terminada minha vontade. A capela parece repleta de pessoas e eu sei o que está acontecendo ele estão velando meu corpo e falando das minhas virtudes e alguns até choram e outros se desesperam e há quem se alegre em saber que meu desespero teve fim e meu corpo frio e machucado está envolvo em flores em um caixão de madeira barata que está fechado no meio daquela capela decadente e eu sei que se eu chegar lá agora eu consigo testemunhar meu próprio enterro e quero ver a surpresa nos olhos de todos quando lerem as palavras em vermelho que deixei gravadas no alvo jazigo.

Vejo de cada vez mais perto a capela e reconheço as pessoas lá dentro. Meu caixão está saindo. Meu irmão e meus amigos queridos me carregam até o carrinho do coveiro e o carrinho vem percorrendo as ruas e a lua brilha tanto que não vejo mais a noite e tudo é claro como sempre foi e ouço até os pássaros cantando.

Volto seguindo a procissão fúnebre de mim mesmo. Como um espectro da minha própria morte eu os sigo e me sigo. O sangue caindo, as pernas fraquejando, o corpo tremendo e a cabeça girando e girando e as cruzes aumentando e diminuindo e as árvores se entortando e grandes galhos se aproximando de mim como garras de monstros que querem despedaçar-me por inteiro. Eu, esta coisa nem viva e nem morta…uma vida inteira de amarguras…não suporto mais…que me despedacem todos os horrores e que eu seja livrado de tudo!

Ouço os gritos e o choro desesperado. Os coveiros fazem o sinal da cruz. No mármore, em sangue seco e borrado, meu recado está estampado para todos: “O útero dispensa a todos a mesma sentença: uma vida miserável e uma morte deplorável. Nascer é maldição. Volto para o nada aliviado.”

Finalmente, meu corpo desaba. O chão arranha meu rosto. Vejo as cruzes girando…

Abro os olhos. Estou sentado envolto em velas vermelhas e pretas. Meu iniciador me observa sereno. Sinto o sangue brotando do meu queixo. Meu rosto está todo machucado. Minhas pernas estão sujas de areia e minhas mãos manchadas de sangue seco.

– Eu não sei o que você viu, mas você tem uma escolha. Viver para ter esse fim ou acabar com tudo agora mesmo.

Ele me passa uma faca e se levanta.

– Amanhã eu volto ou para te enterrar ou te consagrar.

Quando ele bate a porta do casebre, a luz das velas parece ganhar força e a lâmina prateada brilha em minhas mãos. Enquanto eu passo o fio pelo meu pescoço e dilacero pele, carne e ossos minhas veias se desfazem em pedaços molhados e o sangue volta a banhar minhas mãos. Com os dedos embebidos no meu sangue eu apenas apago as velas e deito-me na escuridão completa esperando para sonhar pela primeira vez.

 

Imagem de Seth0s por Pixabay.

 

 

 

 

 

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