A narrativa espiritual como estruturante do invisível

 

 

Hoje eu me lembrei do que disse Max Beauvoir sobre Papa Legba ser diferente do Legba Africano. Em breve eu revelarei o que ele disse, mas antes quero dizer que o objetivo deste pequeno artigo não é discutir Papa Legba, mas discutir a beleza da narrativa espiritual. Ora, encanto-me todas às vezes das quais me lembro das palavras de Beauvoir. Na verdade, encanto-me quanto escuto as mais diferentes histórias das mais variadas religiões, pois todas tem algo em comum: objetivam tocar a alma.

Antes que me acusem de ser misterioso demais, vejamos o que Max Beauvoir diz sobre o Papa Legba Haitiano ser um senhor de idade, curvado e que anda com bengala, contrastando fortemente com o Legba africano, que é viril e enérgico:

“Em uma entrevista com Max Beauvoir, este Houngan esclarece um pouco acerca do que ocorreu com Legba. Beauvoir conta que Legba envelheceu por conta da longa viagem da África ao novo mundo. Durante todo este tempo, manter a comunicação com a África se revelou uma tarefa muito cansativa. Ainda, Beauvoir diz que Legba ´perdeu´ seu poder sexual já que sua fertilidade é Africana e o Haiti não é a África”. (Retirado de: https://www.otoa-lcn-brasil.com.br/post/um-estudo-de-caso-com-legba)

Esta explicação é de uma simplicidade tocante e de uma beleza que realmente é capaz de me deixar sempre atônito. Não poderia haver explicação mais direta e que fizesse mais sentido. Uma viagem longa envelhece a pessoa. Ela se cansa, ela demora tempo. Ainda mais quando se tem um trabalho exaustivo a ser feito. Todos já vimos pessoas sofridas que pelo estilo de vida sacrificante parecem muito mais velhas do que são. Geralmente são pessoas simples. Trabalhadores que encaram o sol todos os dias e se dedicam a um trabalho braçal que é fisicamente desafiador. Como é curioso notar que Papa Legba não é tão diferente da gente batalhadora do Haiti.

Vejam que ele sai de sua África para o Haiti, mas se mantém sempre indo e voltando, mantendo as duas ligadas. A África passa a ser a velha casa e o Legba envelhece junto dela. Legba e África nunca se dissociam completamente. Longe de sua casa, Legba perde parte de sua jovialidade e perde também seu poder criador. A terra é o substrato da vida. Longe da sua terra, Legba, agora Papa Legba, não é mais o falo ereto – embora sua bengala e outros elementos ainda façam alusão a sua força sexual.

Isto me lembra da conversa (estou me lembrando de muitas coisas hoje) que tive com Patrick Bellegarde-Smith na qual ele me disse que quando os Haitianos morrem eles voltam para a Guiné, para sua casa, e deixam o Haiti – que é a casa dos nativos (Tainos, Auraques e Caribes). Há aqui também um nexo com tudo isso que a história que Max Beauvoir conta sobre Papa Legba traz. Vemos que a ferida do deslocamento forçado não se fecha jamais. A violência da diáspora Africana não parece ceder espaço a um sentimento total de pertencimento.

Comecei, porém, esse artigo dizendo que eu falaria de narrativas espirituais. Agora que já contei a história de Papa Legba (nosso exemplo), posso explicar o que eu queria dizer com aquele parágrafo introdutório. Nessa história de Legba, assim como em outras, vemos um reflexo do que ocorre com o próprio povo que a conta. A narrativa espiritual, mais do que tentar passar uma moral ou um ensinamento, ela parece colocar claramente as estruturas e as bases da cosmologia na qual está inserida.

Por exemplo, no antigo Reino do Daomé (salvo engano meu) os Reis observavam uma série de proibições. Uma delas era a de comer em público. Uma das razões para isso talvez fosse manter certo mistério e promover a sacralidade do Rei. De toda a sorte, temos que a maneira como quais os reis eram tratados era refletida ritualisticamente na maneira como os Voduns eram tratados. Isso parecia ter um objetivo muito claro, ou melhor, isso comunicava uma ideia muito direta: o mundo invisível é o reflexo do mundo visível e vice-versa.

Assim, eis a razão pela qual a narrativa espiritual é parte do sustento de qualquer cosmologia tecida por uma religião: ela materializa no visível e nos conta através de ideias que podemos entender o que se passa no invisível e assim nos chama a apreender melhor coisas sutis.

É claro que Legba não veio em um barco tumbeiro com os escravos da África para a Ilha de São Domingos, mas, por outro lado, é claro que ele veio. Não havia um Legba de verdade lá, mas, na verdade, havia um Legba de verdade sim. Percebam que eu não estou me contradizendo, pois o mito é sempre verdade. A narrativa espiritual é sempre verdade, mesmo que não seja a verdade material que conhecemos e experimentamos no cotidiano dos sentidos.

Lembrei-me (para não perder o costume nesse texto) de uma passagem maravilhosa da irregular série de TV “American Gods”. Orlando Jones interpretando Anansi (uma figura que daria um artigo maravilhoso, eis uma ideia) aparece em um tumbeiro após um escravo rezar para ele. Anansi aparece totalmente deslocado, vestindo terno e gravata e fazendo referências a eventos futuros. Essa “destemporariedade” de Anansi nessa cena é o testamento da imortalidade do mito (e também do poder de diversas deidades aracnídeas de ir e vir pela teia da existência). Anansi (que ganha vida na força da interpretação de Orlando Jones) discursa e inflama os escravos a se revoltarem. No fim, o tumbeiro pega fogo e todos morrem no mar. Melhor morto do que exterminado, talvez tenha sido essa mensagem de Anansi.

Essa cena da série (que não me lembro de estar no livro, mas, confesso, odiei o livro) revela bem o que eu disse há dois parágrafos atrás. Anansi não estava lá, mas estava, claro. Tanto estava que a rebelião acontece. Assim, é com Papa Legba, que por estar no invisível não está necessariamente óbvio no visível, mas como o visível e o invisível são completamente interligados, ele sofre as mazelas que o visível também tem que aguentar.

Há beleza em percebemos que esses dois mundos estão intimamente ligados e são a mesma coisa em perspectivas distintas. Como diz uma lenda Bantu: O primeiro homem era idêntico ao Deus, mas se revelou irresponsável e, por isso, Deus fez dele o mero homem que conhecemos hoje. Entretanto, Deus foi bondoso e criou a morte para que os homens pudessem lentamente ir voltando ao Deus.

Deus criou a morte, pois ele foi bondoso.

Essa ideia também sempre me faz ficar atônito. Mais do que isso, ela me faz perceber que eu não preciso esperar por essa oportunidade para viver o invisível. Se o visível e o invisível são faces da mesma moeda, eu quero viver a minha vida de maneira mais plena o possível – e, por isso, não posso jamais ignorar o invisível.

Todas as noites eu tento (já na cama) parar e pensar em como meu dia foi mágico ou espiritual. Tem sido um exercício interessante e revelador. Esse exercício me veio num sonho. O patriarca de uma Ordem Mágica da qual eu faço parte apareceu para mim e me sugeriu que fizesse isso. Gostei da ideia e aderi. Como não acho que isso seja um grande segredo, estou aqui sugerindo que vocês façam também. A razão? Talvez nos ajude a quando chegarmos na hora das nossas mortes podermos falar para Deus – olha, eu já conheço alguma coisa disso aí que rola no invisível. Ou com sorte, nos ajude a viver melhor essa nossa vida aqui, o que já me parece uma excelente coisa.

 

  • Imagem de Devanath por Pixabay.

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