A Luta pela Justiça

A justiça era uma divindade romana representada com os olhos vendados com uma balança em uma das mãos, mas não podemos chegar à conclusão de que o que ela coloca em seus pratos sejam somente leis, a moral ou a ética criadas pelo homem. Naturalmente, existe em sua forma o peso de uma palavra contra outra, mas no núcleo a Justiça é uma faculdade da razão que leva a uma interpretação das causalidades de situações, eventos e reivindicações factuais. A luta pela justiça é sempre uma reação a alguma injustiça percebida, mas essa luta geralmente ocorre em um campo muito limitado de ressonância e retórica, com o objetivo de tomar o culpado da injustiça cometida.

Quando a luta é contra os opressores violentos isso gera contra-movimentos violentos, e devemos perguntar se Jean Genet não estava certo quando observou que “quando nos comportamos como os outros, nos tornamos os outros” e isso é parte integrante da prática da violência. Como podemos esperar resultados não violentos quando a violência é combatida com mais violência?

As reações contra a injustiça costumam aparecer como uma reação agressiva, que vem das entranhas e do superaquecimento do sangue. Raramente, há razões e cálculos envolvidos em como acabar com a injustiça e, muitas vezes, a injustiça tende a ser maior pela reação violenta, porque ninguém gosta de ser chamado à atenção com gritos e condenação e, como tal, a luta pela justiça por meios violentos leva à violenta defesa daqueles que cometeram a agressão e, em vez de trégua, introduz justificativas e ferramentas de poder como a lei na forma da lei escrita ou da intervenção da polícia e, em casos extremos, das forças armadas.

O apelo à justiça e a luta que nasce disso também chega com certos elementos ideológicos e, com muita frequência as pessoas na barricada estão tão cegas para estes elementos quanto a própria Dama Justiça. Entendo como seja provocativo o neoliberalismo gerado pela abstração do dinheiro em 1972, que criou um mundo em que apenas o dinheiro e a capacidade do ser humano em produzir mais dinheiro se tornaram o único significado de valor. O espírito do mundo tornou-se muito sombrio e muito materialista muito rápido, e este ‘fim dos tempos’ que estamos testemunhando que faz com facilidade o sangue ferver e a raiva assumir a liderança neste mundo que está matando rapidamente o indivíduo, a criatividade, o pensamento filosófico e a arte da mesma maneira alucinada em que se consomem os recursos naturais e o que resta vira alimento para o fogo. Há um grande fatalismo envolvido em tudo isso, mas ainda pouca adesão individual em se fazer diferente: o consumo ainda é irrefletido e a responsabilidade é sempre dos outros.

Acho problemático tomar o papel de contra-movimento a uma potência terrível e decadente, porque isso significa que estou me definindo em relação a essa injustiça que estou testemunhando e, ao fazer isso, toda uma ideologia se molda a partir de minhas reações, deixando-me preso a um conjunto ideológico que nem sei bem o que é, mas que vai se formando. Não apenas isso, ideologias são complicadas assim, porque quando você as adota, muito frequentemente aceitará elementos, doutrinas, julgamentos e normas, as quais você realmente nem chegou a refletir a respeito, e assim torna-se, se não um hipócrita, uma pessoa tola e reativa.

Se o oprimido tem que se cuidar para não se tornar o opressor, precisamos observar que pureza há em nossas ações e intenções. Se usamos a mesma régua que usamos para medir o outro para medir como agimos em nossa vida. Analisemos cuidadosamente onde mora a nossa própria corrupção: no quanto parecemos acreditar na meritocracia ao mesmo tempo em que aceitamos ter amigos nos lugares certos. Eu nunca vi alguém recusar um emprego indicado por um amigo ao invés de encarar uma seleção entre os melhores candidatos. Sonegar. Furar fila. Fazer gato. Dar um jeitinho.

Eu sei que todos querem uma sociedade mais justa e um governo que cuide do povo, mas o governo representa, sim, o povo que o elegeu. E um povo que não sabe votar vai colher aquilo que semeou. E esta é a luta do brasileiro, que como nascido em um país jovem conta com relativamente pouca história e ainda se mostra resistente a aprender com a história dos outros. E a história dos outros também envolveu dor, e sangue, e injustiças. Este é um problema de base antes de tudo, e, portanto, um problema de cultura e educação e então, um problema para esta geração pensar para a próxima.

A indignação, o desejo de praticar a violência, esta raiva que você sente quando está na presença do que é julgado “injusto” indicaria que você não está usando as ferramentas adequadas para acabar com a injustiça. Pior ainda é essa indignação que é usada para demandar aos outros que “se posicionarem” do seu lado, numa manipulação violenta que parte de se assumir saber mais e melhor que seu próximo e, nesse momento, você se comporta exatamente como o fascista que procura reprimir.

Sinceramente, acredito que a melhor luta seja mostrar um caminho melhor, e que a melhor resposta política ao fascismo seja a anarquia. Não a anarquia da Rússia em 1918 ou a anarquia do Sex Pistols em 1977 – embora esses movimentos tenham absolutamente tornado o mundo consciente da situação podre em jogo. Penso na anarquia nascida das ideias de Bakunin, Tolkien, Thoreau e outros que defendem uma anarquia verde, vazia da episteme marxista e do ódio pelos ricos. Daí podemos voltar nossa atenção para a lei da natureza e descobrimos como viver em harmonia com ela, ao invés de lutar por “direitos e dignidade”, e em desarmonia perpétua com um mundo que odeia a todos. Feito isso, teremos a distância necessária desse mundo louco para entender que medidas podem ser tomadas para provocar o colapso, com estilo e propósito. Pessoalmente, acho que este esquema de “federação” é uma incrível má ideia porque cria bolhas sociais e um distanciamento de visão imenso dos governantes em relação ao povo.

Essa pandemia que estamos enfrentando agora tem pelo menos um lado positivo: sem novelas e futebol o brasileiro tem se ocupado mais com as questões políticas, mesmo que ainda reaja a estas questões como expectador de novelas e futebol, com mocinhos de um lado e vilões do outro, e com a mesma virulência das torcidas nos estádios em final de campeonato. É um bom começo. Agora só falta todo mundo aprender a se sentar junto ao redor da mesa, assim como uma vez nos sentamos ao redor de uma fogueira, para descobrir que mocinhos e vilões são ambos, brasileiros.

Crédito da imagem: sciencesource

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